VIAGENS- MODO DE USAR

Viagens nos ensinam a humildade. Com sutileza, despertam o tempo, o outro, o próprio viajante. Quanto mais longe vamos, mais nos desapegamos de orgulhos, pompas e idiossincrasias. Quanto mais pessoas conhecemos, mais nos conhecemos. Quanto mais lugares visitamos, mais admiramos o planeta, sua força, sua fragilidade, seu equilíbrio, seu tamanho.

Aqui surge um paradoxo: crescemos quando nos apequenamos ante os continentes, ante a multiplicidade de costumes, riquezas, mitos e realidades, ante a vastidão das montanhas, planícies e mares, ante a pluralidade de raças e credos, ante a relatividade dos juízos. Viagens contrapõem a dimensão da Terra e a do ser humano. Provam que somos meras frações de um universo infinito. Ora, frações do infinito são o próprio infinito. Daí, talvez, nosso crescimento.

O mundo é maior que nossa aldeia, obviedade de que com frequência não nos damos conta. No entanto, o vilarejo mais distante tem segredos para revelar. Por outro lado, também portamos sabedorias. Resultado: ao encarar a diversidade, nossos preconceitos, sobretudo os que não admitimos possuir, afloram e provam-se ridículos. Aqueles arroubos tão arraigados pelos êxitos, origens, posses e realizações tornam-se patéticos diante do legado alheio, muitas vezes anônimo, no entanto arrebatador. Nos encontros da diferença, apagamos a tola impressão de que nosso tempo é o único, o mais brilhante, herdeiro de nenhum outro, erguido a partir de nossas conquistas. A boa viagem confunde, questiona, excita, acerta, faz pensar. É a maneira mais eficaz para descobrir nossa espécie e a nós mesmos em nossa total nudez.

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