UMA LÉSBICA MARAVILHOSA

          Você tem medo da erudição e do amor
gay? Detesta, por exemplo, livros com citações de dezenas de autores, em
diversas línguas, odeia falar sobre uma poeta morta há dois mil e tantos anos
que, para complicar as coisas, escrevia em grego e era lésbica? Você
mergulharia numa obra que compara a linguagem de um poema escrito seis séculos
antes de Cristo com a linguagem em voga dois séculos antes e dois depois de
Cristo, mais as críticas feitas a esse poema nos tempos medievais e modernos?
Você perderia tempo com a palavra grega hetaira
que, em quatrocentos anos, deixou de significar “amiga e companheira” para
virar “prostituta”? Você acha tudo isso discussão de sexo de anjo?

          Se você tiver um pouco de paciência,
essa erudição pode se transformar em grande prazer. Por acaso, caiu em minhas
mãos o livro Eros, Tecelão de Mitos,
da Editora Iluminuras, escrito pelo poeta e erudito Joaquim Brasil Fontes, no
qual ele resgata a poesia de Safo de Lesbos.

          Sim, ela mesma. Safo de Lesbos, a
grega que enaltecia o amor entre as mulheres. Gay assumida. Com ela nasceu a palavra lésbica. Faz dois mil e
seiscentos anos que Safo encanta e assusta as gerações. A julgar pelo falso moralismo
atual, hoje a apedrejariam. Era grande poeta. Sensível, sintética, terna, profunda.
Pena que muito de sua obra se perdeu. Joaquim Fontes, sem trocadilho, bebe nas
fontes originais e oferece os versos sáficos no ponto de consumo, no melhor
estado de conservação possível.

          Além da beleza intrínseca da obra de
Safo, em que a paixão e o cotidiano se mesclam, a cultura do autor de Eros, Tecelão de Mitos nos proporciona momentos de
deleite e informação. Para completar, voamos ao passado e conhecemos a vida de
quase três milênios atrás.

          Erudição não é bicho papão. Muito
menos Safo de Lesbos. Sua poesia, corriqueira na Grécia, era curtida pelo povo.
Perdemos nós o requinte intelectual ou adquirimos um prurido moralista idiota? Pior
ainda: aconteceram-nos ambas as coisas?        
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