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UM PAÍS EM MUTAÇÃO – HISTÓRIAS DA CHINA

A China entrou na adolescência há três décadas, e os efeitos do crescimento acelerado, alguns perversos, se fizeram sentir em muitos setores. Por exemplo, o preço dos imóveis nas cidades e nas áreas industrializadas disparou. A especulação campeou, pequenos proprietários foram ludibriados, outros expulsos, sem indenização, das propriedades reconquistadas do Estado a duras penas, alguns simplesmente liquidados pelas máfias da construção. Apesar de ser um milhão de quilômetros quadrados maior que o Brasil, falta terra na China, país de muitas montanhas e desertos: apenas um quinto do território se presta à agricultura. A densidade populacional é sete vezes superior à nossa.

Diante de tamanha falta de espaço, proibiram-se os cemitérios. Nada de descanso eterno comendo grama pela raiz: os corpos devem ser cremados. Em compensação, como pude observar sobretudo no interior, muitas famílias guardam as cinzas dos ancestrais, em pequenos altares domésticos, durante várias gerações. A tradição provoca dor de cabeça nos defuntos: nem depois de partirem eles encontram a paz. Filhos, netos, bisnetos e tataranetos, por conta de duas ou três varinhas de incenso que acendem e esfregam entre as mãos, estão sempre a suplicar a seus mortos ajuda nos assuntos mais variados, dos apertos financeiros aos amorosos.

Creio que a maioria dessas almas, exigidas em excesso, tenha perdido a centenária paciência e abandonado os lares em que viveram. Como a comprovar, os chineses enxergam fantasmas em todos os lugares. São tantos e tão assustadores que influenciaram até a arquitetura. Para mantê-los à distância, construía-se o acesso às casas e templos em ziguezague, às vezes em ângulos retos. Segundo a lenda, fantasmas não dobram esquinas.

Os vivos também penam com o crescimento descontrolado. Para evitar a explosão demográfica, adotou-se a política de “uma família, um filho”. Os casais levaram a exigência ao pé da letra. Se nascia uma menina, sobretudo entre os camponeses, eles a abandonavam ou mesmo matavam. Nos lixões de Xangai, era comum, até duas décadas atrás, encontrarem-se recém-nascidas largadas à própria sorte. Resultado: além de terra, faltam mulheres na China. Estima-se que até sessenta milhões de homens não encontrarão companheiras. Como enfrentarão a frustração ante um dos instintos humanos mais básicos?

Há quem diga que um novo espectro ronde o comunismo, produzido por um tipo desconhecido de revolução sexual, a revolta masculina ante a falta de mulheres. Triste ironia, caso o espectro baixe de fato à terra: o regime que apregoa a igualdade naufragaria graças à desigualdade que provocou. Ponto para a profissão mais antiga do mundo. Apesar do risco de prisão, rodar a bolsinha nas ruas chinesas compensa. Existe freguês sobrando. E o preço anda nas alturas.

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A Lua, minha sombra e eu: três solidões

     Como
se fala da China… Queda da bolsa de Xangai, redução das importações, economia em crise, falta de democracia, capitalismo selvagem… Pouco se fala de sua
poesia. Ela teve um chamado “período de ouro” durante a dinastia T’Ang, que governou o país entre os anos 618 e 907, desenvolveu a impressão de livros com
blocos de madeira e expandiu a Rota da Seda rumo ao Ocidente. 
       A China venera
até hoje esses poetas que viveram há 1300 anos. Eles são muitos, mas
dois se destacam: Li Po e Tu Fu, grandes amigos, bravos guerreiros que
arriscaram a vida em muitas batalhas, beberrões incorrigíveis e, apesar dos
estilos diferentes, mestres de uma poesia visual, à flor da pele.       
      Li Po e Tu Fu escreveram
verdadeiras pinturas, cheias de cor e detalhe, capazes de penetrar fundo na natureza
e na alma. Uma pena que suas obras percam a sonoridade interna com a tradução.
Tu Fu esmerou-se na descrição dos efeitos da guerra. Ele diz:
          
          Um cavalo branco aparece do nada,
          Esbaforido de medo,
          A sela vazia atravessada por 3
flechas.
          Onde está o cavaleiro,
          Para que a vã coragem
          Que lhe ofereceu o calor da guerra
          E o levou ao frio da morte?
          
          Li
Po gostava do vinho e da Lua. Uniu esses prazeres numa bela composição:
         
          Entre as flores do jardim,
          Copo à mão,
          Bebo sozinho.
          Os amigos partiram,
          Não sei onde estão.   
          Ergo um brinde à Lua cheia.
          A Lua, minha sombra e eu,
          Três solidões.

     
       Cecília Meireles legou-nos algumas traduções de Li Po e Tu Fu, três vezes inspiradas pois
junta sua criatividade à dos dois poetas chineses. Não são três solidões. São três encantos. 
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