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CHURRASQUINHO DE ÍNDIO À ESPANHOLA

 

Qual o maior massacre executado pelo ser humano? Nem de longe foi o Holocausto. Muito menos o dos armênios pelos turcos. Não foi o do rei carola Leopoldo da Bélgica no Congo. Sequer o dos tutsis pelos hutus – nem o revide. Não foi o do Iraque durante os bombardeios norte-americanos. O maior genocídio da história provavelmente aconteceu nas Américas, patrocinado por católicos, em nome de Deus e da ganância por riquezas. Trata-se da conquista espanhola nos séculos 16 e 17. Mataram-se índios aos milhões. Impossível precisar quantos. Um número sugerido por vários antropólogos, entre os quais o canadense Wade Davis, da Universidade de Harvard, seria trinta milhões. Trinta milhões. A população de Minas Gerais e a do Rio de Janeiro somadas. Sem deixar vivo um único indivíduo. Outros cálculos chegam a cem milhões.

Os espanhóis, seguindo uma bula papal do fim do século 15, só revogada no século seguinte, adquiriram o direito de escravizar quem não fosse cristão e, como julgavam que os índios não tinham alma, podiam matá-los à vontade. Exterminaram povos inteiros entre o Chile e a Flórida. Muitos pelo “crime” de não querer se converter ao cristianismo. Não pouparam nem bebês.

Quem quiser saber um pouco mais sobre esses assassinatos em série deve consultar o livro Brevíssima Relação da Destruição das Índias, escrito em 1542 pelo colonizador e encomendero espanhol Bartolomé de las Casas, mais tarde frei e bispo dominicano, que se revoltou contra a matança e a exploração dos índios no Novo Mundo.

Muito se escreveu e ainda se escreve sobre Las Casas e seu livro, contra e a favor, contra seus exageros e sua intransigência, a favor de sua coragem, tenacidade e luta pelos direitos humanos, dos quais foi precursor.

A fama de Las Casas varia entre a de herói e a de traidor, a de salvador e a de mentiroso, sobretudo entre os espanhóis.

Tire as próprias conclusões. Leia o Brevíssima Relação da Destruição das Índias. Assim descobrirá o país que, quase ao mesmo tempo, nos legava a magia de Diego Velázquez e de Miguel de Cervantes, também incensava sanguinários civis, militares e religiosos. Sanguinários que ainda choravam pelos cristãos mortos, quinze séculos antes, nas arenas romanas, uns mil talvez. Ou nem isso, segundo historiadores modernos. Os sanguinários espanhóis não hesitaram em matar milhões de índios a sangue frio, às vezes brincando de tiro ao alvo ou queimando-os. Isso é inegável. Jamais se arrependeram. Também é inegável. Dizem que foi apenas um fato histórico – e pertence ao passado.

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Três pesquisadores que experimentaram quase todas as drogas

         Você já ouviu falar do oliliuqui? E do peyote? E da ayhuasca ou yagé? E da folha divina da imortalidade?
Pois todos esses nomes se referem a plantas alucinógenas usadas pelos índios
da América Latina para entrar em contato com seu universo interior ou com seus
deuses. Para pesquisá-las, três gerações de botânicos da Universidade de
Harvard percorreram nosso continente, enfrentaram todo tipo de perigo e doença.
Descobriram como essas drogas atuam. Para retratá-las com precisão, eles
experimentaram quase todas e relataram os efeitos sobre seus corpos e mentes.
Um barato que, às vezes, saiu caro.
          Essa
aventura louca, que põe Indiana Jones no chinelo, aparece no livro El Rio, de Wade Davis, etnobotânico e
documentarista canadense. El Rio, ou One River no original, infelizmente não
foi traduzido para o português, mas merece. É ótima leitura. Além de resgatar
as aventuras de Richard Schultes, Tim Plowman e do próprio Wade Davis nas
selvas, também realiza amplo levantamento da cultura e da história de países
latinos e de tribos indígenas. Por exemplo, ao mergulhar no ciclo da borracha,
descreve o apogeu de Manaus, quando os perdulários milionários da cidade, para
ter seus lençóis bem branquinhos, mandavam lavá-los na Europa. Lembra como as
sementes de nossa seringueira foram contrabandeadas para a Ásia e como os
norte-americanos fazem biopirataria usando o nome da ciência. Conta como tribos
inteiras foram chacinadas pelos europeus, sobretudo espanhóis. Ao todo, quase 30 milhões de pessoas.
          Mostra,
ainda, outro tipo de extermínio, perpetrado por religiosos que, em nome da
salvação, dizimaram muitos povos e suas culturas. Revela que dois presidentes
dos Estados Unidos, vários artistas e Freud se tornaram consumidores de coca. O
papa Leão XIII até condecorou o inventor de uma bebida, o Vinho Mariani, feito
com a planta. Aliás, a coca é, até hoje, importada legalmente nos Estados
Unidos pela Stepan Chemical Company, empresa que repassa um de seus extratos
para a Coca-Cola, originalmente um remédio vendido em farmácia como vinho
francês de coca. O que mudou?

          Tudo
isso e muito mais você encontra em
El Rio ou One River, de Wade Davis. Livro
delicioso, apaixonado, apaixonante, imperdível. Se tiver oportunidade de lê-lo,
faça-o. Você não sairá ileso das águas desse rio.   
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