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TODO DITADOR MERECE UMA CUSPIDA

Certa vez, quando tinha trinta e um anos, dirigi de Madri ao Valle de los Caídos, onde o generalíssimo Franco está enterrado, só para cuspir em seu túmulo. Realizei um sonho de adolescente. Cuspi com prazer na lápide que cobre Franco e, mais tarde, na de dois outros ditadores, um francês e um brasileiro. Stálin escapou por falta de grana. Hitler, porque sumiu. Minha mania cessou quando, como romancista, comecei a me interessar pelas profundezas, pelos meandros, pela alma dessas pessoas detestáveis que, no entanto, são humanas. Humanidade não é sinônimo de bondade. Nunca foi, nunca será. Os maus são até mais romanceáveis. Então parei com a cusparada, aturdido por questões mais fundamentais a meu ofício.
O que faz um homem apegar-se ao poder, julgar-se insubstituível, dono da razão, único com capacidade de chefiar um país? O que faz um homem se transformar em ditador e perseguir todos os que se opõem a suas ideias? Para entender um pouco mais do lado negro da força, li Salazar: Uma biografia definitiva, de Filipe Ribeiro de Menezes, lançado pela editora Leya.
Salazar governou Portugal com mão de ferro durante trinta e seis anos, até que, em coma, foi substituído por Marcelo Caetano, em 1968. Morreu sem saber que tinha sido destituído, pois ninguém teve a coragem de lhe contar o fato. Legou aos portugueses o estado mais atrasado da Europa, mergulhado num obscurantismo católico e rural, porém dentro de seu louco projeto de salvar Portugal através da manutenção de sua pureza cultural e racial, idílica, como se fosse possível, em pleno século 20, resgatar para o pequeno país o sabor das Bucólicas, de Virgílio – sem os ardores homossexuais, é óbvio.
Homem culto, formado em Coimbra, foi incapaz de romper com sua tradicional formação religiosa para separar Estado e fé (aliás, estão querendo juntar os dois no Brasil de hoje, iranizando o país). Talvez por isso, diante de sua estatura intelectual, a verdadeira e a que ele mesmo se outorgou, julgou-se melhor que seus pares e se coroou eterno homem forte. Essa é a sina do ditador. Com alguma cultura, algum carisma e muita força, ele se impõe, arruma bajuladores, cultiva a servilidade, distribui favores e mimos, aniquila opositores, mantém-se no poder.
Esta biografia de Salazar, escrita por Filipe Menezes, não é, entretanto, definitiva. Definitivas, para os ditadores, de direita ou de esquerda, são a repulsa, o desdém, o desprezo das gerações futuras, independentemente da riqueza literária de suas figuras. Eles merecem cusparadas enquanto estão vivos. Apesar do risco.

 

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