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VINHO NÃO É LIVRO – OU É?

Você já largou um livro no meio? Eu já. Durante muito tempo, em respeito ao autor e ao livro, não tive coragem de abandonar uma obra, qualquer uma. Mesmo as intragáveis. Arrastava a leitura, saltava páginas, pulava para o final, mas chegava lá. Livro não lido é livro no purgatório, condenado, mas na esperança de redenção. Outro leitor pode gostar dele e colocá-lo entre seus eleitos, por que não? Assim, quando não gosto, passo o enjeitado para a frente.

Hoje não me sinto mais na obrigação de me entulhar com história idiota, linguagem primária, afronta à inteligência, chuva no molhado, autor na moda. Quero qualidade e competência. Se o livro não me seduz com a linguagem, temática, ideias, sabedoria e desenvolvimento, tchau, ponho o dito cujo de lado, sem remorso. O problema é que tenho rejeitado demais. Além do que gostaria.

Conheço um ninho de potenciais livros ruins. Chama-se “lista dos mais vendidos”. Ali também tem qualidade, é óbvio, mas o lixo costuma predominar. Quer um exemplo? Quando vi a série de vampiros crepusculares no topo dos bestsellers, com todo o respeito pelo leitor que aprecia dentada no pescoço e briga com lobisomem, concluí que faltava senso crítico a muita gente. Hoje, quando vejo Greys, zumbis escrevendo diários ou Kiera Cass de volta às pulp fictions de bancas de jornal, tremo de cima a baixo. E se a moçada começar a achar que isso significa qualidade? Já não bastam as histórias de menininha que aqui deram mais cria que coelho?

Livro é como vinho. A gente pode passar a vida inteira gostando de vinho de garrafão, tudo bem. Depois que descobrimos um Bordeaux, um Barolo ou um Carmenère dos bons, não aceitamos mais o paladar tosco do garrafão, com uma diferença: livro bom e livro ruim têm o mesmo preço. A sofisticação do gosto do leitor não custa nem um centavo a mais.

Eis o segredo que o bestseller O Segredo, colocado em meu purgatório desde sempre, nunca revelou. Assim como há diversas uvas que fazem bons vinhos, há outras que não prestam nem para o mosto. Vampiros, zumbis, proselitismo religioso e autoajuda, por exemplo. A escolha é direito seu. A boa literatura também.

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A Lua, minha sombra e eu: três solidões

     Como
se fala da China… Queda da bolsa de Xangai, redução das importações, economia em crise, falta de democracia, capitalismo selvagem… Pouco se fala de sua
poesia. Ela teve um chamado “período de ouro” durante a dinastia T’Ang, que governou o país entre os anos 618 e 907, desenvolveu a impressão de livros com
blocos de madeira e expandiu a Rota da Seda rumo ao Ocidente. 
       A China venera
até hoje esses poetas que viveram há 1300 anos. Eles são muitos, mas
dois se destacam: Li Po e Tu Fu, grandes amigos, bravos guerreiros que
arriscaram a vida em muitas batalhas, beberrões incorrigíveis e, apesar dos
estilos diferentes, mestres de uma poesia visual, à flor da pele.       
      Li Po e Tu Fu escreveram
verdadeiras pinturas, cheias de cor e detalhe, capazes de penetrar fundo na natureza
e na alma. Uma pena que suas obras percam a sonoridade interna com a tradução.
Tu Fu esmerou-se na descrição dos efeitos da guerra. Ele diz:
          
          Um cavalo branco aparece do nada,
          Esbaforido de medo,
          A sela vazia atravessada por 3
flechas.
          Onde está o cavaleiro,
          Para que a vã coragem
          Que lhe ofereceu o calor da guerra
          E o levou ao frio da morte?
          
          Li
Po gostava do vinho e da Lua. Uniu esses prazeres numa bela composição:
         
          Entre as flores do jardim,
          Copo à mão,
          Bebo sozinho.
          Os amigos partiram,
          Não sei onde estão.   
          Ergo um brinde à Lua cheia.
          A Lua, minha sombra e eu,
          Três solidões.

     
       Cecília Meireles legou-nos algumas traduções de Li Po e Tu Fu, três vezes inspiradas pois
junta sua criatividade à dos dois poetas chineses. Não são três solidões. São três encantos. 
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RELIGIÃO PARA TODOS OS CREDOS

Para descobrir a religiosidade existente atrás do
corriqueiro, a receita é simples: basta um jantar em casa. Sozinho. Para
começar, feche as janelas, diminua a luminosidade, vista uma roupa confortável.
Prepare sua comida, um macarrão por exemplo. Escolha o vinho de sua
preferência. Acenda velas e incenso suave. Ponha para tocar um disco de música
antiga, como do compositor quinhentista Josquin des Prés (ou Desprez). Pronto,
está montado o aparato para a travessia, ou melhor, a religação com você mesmo
e a nossa espécie.
Saboreie sem pressa a massa, o vinho, perceba sua cor rubra ou dourada contra a chama, a música, os odores, a penumbra, o
contato da boca com a comida e a bebida, descubra o peso do talher, fique
atento à mastigação. Pense nas centenas de pessoas que contribuíram para seu
prazer. Quantos plantaram e colheram o trigo, construíram sua casa, desenharam,
fabricaram e transportaram a baixela, montaram o aparelho de som, fizeram as velas, podaram as
videiras, quantas horas Josquin investiu até encontrar a combinação correta das
notas musicais. As pessoas se uniram através dos tempos para possibilitar seu
mergulho na plenitude, isto é, em você mesmo. Gente famosa e anônima, viva e
morta, através de seus ofícios, rendeu-lhe uma homenagem, sem conhecê-lo, sem
saber que você viria a existir.
Conscientize-se do elo entre os
séculos, abrace o coração da festa, desvele a origem desses requintes, o gênio
humano.
Integre-se agora, sem receio, ao caudal
do melhor lado de nossa natureza. Descubra que continuamos a medida e o sentido
de todas as coisas. Eis a religiosidade por excelência. Põe em contato as
gerações passadas, presentes e futuras, numa cadeia de fraternidade e de
partilha que exalta nossa grandeza e nossa fragilidade. Liga-nos às demais espécies e ao mundo. Aumenta nossa responsabilidade. Perceba o paradoxo: se
o experimento der certo, talvez você se sinta maior ao se transformar em
simples ponte entre épocas, átimo de consciência na enormidade do tempo.
O que é isso? Transcendência, delírio,
epilepsia do lobo temporal? Quem sabe? Pelo sim, pelo não, vale a pena tentar
religar-se à própria espécie, um gesto importante, mas pouco praticado. Entre a
vastidão e o nada, paira a vida. Entre as possibilidades e as incertezas,
colhemos os dias. Bom apetite.

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