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VIAGENS- MODO DE USAR

Viagens nos ensinam a humildade. Com sutileza, despertam o tempo, o outro, o próprio viajante. Quanto mais longe vamos, mais nos desapegamos de orgulhos, pompas e idiossincrasias. Quanto mais pessoas conhecemos, mais nos conhecemos. Quanto mais lugares visitamos, mais admiramos o planeta, sua força, sua fragilidade, seu equilíbrio, seu tamanho.

Aqui surge um paradoxo: crescemos quando nos apequenamos ante os continentes, ante a multiplicidade de costumes, riquezas, mitos e realidades, ante a vastidão das montanhas, planícies e mares, ante a pluralidade de raças e credos, ante a relatividade dos juízos. Viagens contrapõem a dimensão da Terra e a do ser humano. Provam que somos meras frações de um universo infinito. Ora, frações do infinito são o próprio infinito. Daí, talvez, nosso crescimento.

O mundo é maior que nossa aldeia, obviedade de que com frequência não nos damos conta. No entanto, o vilarejo mais distante tem segredos para revelar. Por outro lado, também portamos sabedorias. Resultado: ao encarar a diversidade, nossos preconceitos, sobretudo os que não admitimos possuir, afloram e provam-se ridículos. Aqueles arroubos tão arraigados pelos êxitos, origens, posses e realizações tornam-se patéticos diante do legado alheio, muitas vezes anônimo, no entanto arrebatador. Nos encontros da diferença, apagamos a tola impressão de que nosso tempo é o único, o mais brilhante, herdeiro de nenhum outro, erguido a partir de nossas conquistas. A boa viagem confunde, questiona, excita, acerta, faz pensar. É a maneira mais eficaz para descobrir nossa espécie e a nós mesmos em nossa total nudez.

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UM SABOROSO CONSERVADOR

O norte-americano John dos Passos, neto de portugueses, foi um dos ícones da literatura de seu país no século 20. Um de seus livros, “Manhattan Transfer”, costuma aparecer na lista dos 100 melhores do século em todo o mundo, além de ter influenciado muitos autores, no Brasil inclusive.

Outra de suas obras, “O Brasil em Movimento”, lançada na década de 1960, fala sobre suas viagens ao Brasil. Ele percorreu vários de nossos estados, de Norte a Sul, e nos deixou um relato saboroso do que viu.

Como viu o senhor John dos Passos! Viu com um olhar minucioso, cativante, original. Esqueça seu conservadorismo, suas observações mais à direita que a de seus compatriotas republicanos (menos que o Trump, é claro). Garimpe no livro as opiniões dele sobre Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, Aloísio Alves, Israel Pinheiro, João Goulart e Carlos Lacerda. Ele conversou com todos eles e muita gente mais.

Busque as descrições que fez de um país em movimento, em busca do século 21 com a construção de Brasília. Deixe-se levar pela beleza e rigores que ele resgata de nossa natureza, da Floresta Amazônica, de uma viagem por Minas Gerais ou pelo Paraná.

O grande romancista também foi um grande viajante. Quando ele termina seu relato, fica o gosto de quero mais e a certeza de que um olhar estrangeiro pode trazer novidades a respeito de nós mesmos.

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A ILHA DR JEKYLL E MR HYDE

 

 

Se há um lugar no mundo em que a sobrevivência se comemora a cada dia, esse lugar se chama Bali. Quem escapa de um terremoto, pode sucumbir, horas mais tarde, a uma erupção vulcânica. Ou, de madrugada, a tufões devastadores. Ou, sol a pino, a um tsunami com quinze metros de altura, monstruoso mesmo para os mais ousados surfistas que todos os dias chegam a Denpasar em busca de algumas das maiores ondas do mundo. Pelo número de tremores de terra que, sem descanso, sacodem a ilha, a maioria detectável apenas pelos sismógrafos, os vagalhões de Bali devem resultar de maremotos em cascata. Às vezes, parece que estes, de tão numerosos, provocam o constante surf azul-cobalto com crista branca, perfeito para a prática esportiva. Perfeito também para encantar os olhos.

O perigo faz o balinês feliz. Ciente da brevidade dos momentos de paz, ele os aproveita com sorriso aberto e alegria incontida, expressos em cantorias e cerimônias que varam as noites. Sem ostentação e sem miséria, entrega-se à natureza ao mesmo tempo generosa e hostil. Planta o arroz nas colinas com o tom verde das folhas de ipê em setembro. Para aumentar as colheitas, desenvolveu um complexo sistema de irrigação por gravidade. Não passa sede: as chuvas renovam constantemente os mananciais. Venera as árvores waringin e respeita os tigres que ainda resistem nas florestas. A natureza é o sangue de Bali.

O sol tropical convida o visitante ao mar. As praias, quando escapam das cinzas ou rochas negras dos vulcões que mataram milhares, possuem a brancura do giz. Ao mergulhar em suas águas, por exemplo, em Dagang, perto de Nusa Dua, a fauna subaquática lembra as visões do paraíso comuns às tradições religiosas: a beleza inebria os sentidos e sugere o deleite eterno. O colorido dos peixes, do vermelho-sangue ao índigo, cambiantes de acordo com o ângulo da luz, harmoniza-se com os corais de quiméricas formas e matizes. Moreias azuladas entocam-se em esqueletos de calcáreo, ao lado de ermitões em carapaças alugadas. Caravelas passeiam sobre anêmonas, enquanto polvos pintados de sépia perseguem caranguejos carmesins. Como consegue a natureza inventar tanta diversidade?

Em Bali se confirma que experimentar é, de fato, o grande hobby da vida, experimentar sem objetivo, a esmo. O acaso, principal maestro da evolução, dono de curiosidade infantil, fomenta novas espécies e lança-as à própria sorte no meio ambiente. Por mais desvairados que sejamos ao imaginar um ser ou um comportamento, a natureza com certeza já terá testado algo semelhante. Sobreviver é o grande prêmio em jogo. Daí, em escala maior, o regozijo do balinês. Aos trancos, ele segue em frente. Sabe que mora numa terra em que o doutor Jekyll e o senhor Hyde (o médico e o monstro) se alternam para visitá-lo – e a alegria, talvez a última, deve ser curtida até o limite.

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Viagens – modo de usar

Viagens nos ensinam a humildade. Com
sutileza, despertam o tempo, o outro, o próprio viajante. Quanto mais longe
vamos, mais nos desapegamos de orgulhos, pompas e idiossincrasias. Quanto mais
pessoas conhecemos, mais nos conhecemos. Quanto mais lugares visitamos, mais
admiramos o planeta, sua força, sua fragilidade, seu equilíbrio, seu tamanho.
Aqui surge um paradoxo: crescemos quando nos apequenamos ante os continentes,
ante a multiplicidade de costumes, riquezas, mitos e realidades, ante a
vastidão das montanhas, planícies e mares, ante a pluralidade de raças e
credos, ante a relatividade dos juízos. Viagens contrapõem a dimensão da Terra
e a do ser humano. Provam que somos meras frações de um universo infinito. Ora,
frações do infinito são o próprio infinito. Daí, talvez, nosso crescimento.

O mundo é maior que nossa aldeia,
obviedade de que com frequência não nos damos conta. No entanto, o vilarejo
mais distante tem segredos para revelar. Por outro lado, também portamos
sabedorias. Resultado: ao encarar a diversidade, nossos preconceitos, sobretudo
os que não admitimos possuir, afloram e provam-se ridículos. Aqueles arroubos
tão arraigados pelos êxitos, origens, posses e realizações tornam-se patéticos
diante do legado alheio, muitas vezes anônimo, no entanto arrebatador. Nos
encontros da diferença, apagamos a tola impressão de que nosso tempo é o único,
o mais brilhante, herdeiro de nenhum outro, erguido a partir de nossas
conquistas. A boa viagem confunde, questiona, excita, acerta, faz pensar. É a maneira
mais eficaz para descobrir nossa espécie e a nós mesmos em nossa total nudez.
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Boeing em queda livre

O avião canadense decolou de Seoul, na
Coreia do Sul, para Vancouver, no Canadá, às cinco da tarde. Quase trezentas
pessoas a bordo. Minha mulher e eu ocupávamos a penúltima fileira, à frente de
um simpático casal de portugueses. Quando íamos jantar, o piloto ordenou que
aeromoças e passageiros se assentassem e afivelassem os cintos. Havia forte turbulência
pela frente.
          O que se seguiu não foi turbulência,
mas um rodeio de peão em cima de touro bravo. O Boeing 777 despencou sobre um colchão
de ar duro, sofreu um baque, subiu, caiu, adernou à direita, estremeceu, subiu
de novo. Então veio a queda livre. Sem fim. Depois de bater no fundo, pela
janela vi o avião literalmente bater as asas para voar. Elas quase se dobravam
e tocavam uma na outra. Moviam-se quais as de um pássaro ferido, prestes a entregar
os pontos. Maleiros se abriram, objetos tombaram, garrafas caíram, vidros se
espatifaram. Nesse momento, aconteceu o primeiro grito de pavor.
          Dizem que o pânico contagia. Sim, é
verdade. Em questão de segundos, o avião inteiro berrava, uivava, gania,
clamava aos céus. Parecíamos viver os últimos momentos. Olhei para minha mulher.
Ela cruzara as mãos e, cabisbaixa, as apoiara entre as pernas. Brinquei, para
espantar o medo:
          – Puxa, meu bem, nunca imaginei que
iríamos morrer no meio do Pacífico…
          Seu olhar me queimou mais que fogueira
da Inquisição.
          Durante outro mergulho sem fim, o
português no banco de trás se rendeu ao terror:
          – Mariiiia, desta vez fomos!
          Não, não fomos. Novo baque, nova sobrevida,
nova queda:
          – Mariiiiiiiiaaa, desta vez vaaaamos!
Adeus, Mariiia!
          – Adeus, Manoel, amor meu!
          Olhei para o lado. Um garoto coreano rolava
seu carrinho Matchbox sobre os assentos, alheio à balbúrdia, alheio ao medo, alheio
até à mãe, que se descabelava.
          De repente, tudo acabou. Melhor
dizendo, acabou a turbulência. Sobrevivemos. Vi o céu – o belo céu deste mundo
em fim de tarde.

          Não consegui jantar. Meu assento
ficava junto aos banheiros, a fila era enorme, e várias pessoas exalavam o mau
cheiro de quem não se segurara. Havia manchas nos traseiros. Ninguém se sentiu
constrangido. O preço era baixo para tanto alívio.            
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