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O dia em que escalei o letreiro de Hollywood

     Toda sociedade possui seus ritos de passagem, escancarados ou não. Quando reprimidos, os jovens os revigoram, pelo prazer de se testar, de se afirmar perante o grupo, de dizer ao mundo que chegaram à idade adulta. Darwin explica isso melhor que Freud.
     Em Los Angeles, há muitos anos, o supremo teste de coragem para um adolescente era escalar o letreiro de Hollywood, aquela marca na montanha que identifica a capital do cinema. Chegar ao topo de qualquer das nove letras garantia a admiração dos menos corajosos e o orgulho do escalador. A cidade guardava, como alerta, os nomes dos rapazes que, ao longo das gerações, despencaram e morreram ou ficaram aleijados.
     Havia algumas dicas importantes para os aventureiros. Como o letreiro era um símbolo da cidade, ele ficava sob guarda. No sábado à tarde ou no domingo de manhã, porém, os seguranças costumavam abandonar o serviço, já que ninguém é de ferro. Tampouco se podia acreditar nos enormes cartazes que ameaçavam processar com a severidade da lei quem ultrapassasse a cerca que delimitava o monumento. A cerca, aliás, tantos eram seus fios de arame farpado, também intimidava. Por último, precisava-se de uma corda, pois a escada de marinheiro que conduzia ao topo começava a uns dois metros do chão.
     Parti para a aventura com um colega de escola num sábado à tarde. Demos sorte. Como previsto, no meio do deserto que circunda a montanha, o segurança se sentiu seguro o bastante para sumir do serviço. Ultrapassada a cerca, a corda facilitou o início da escalada. Depois, grudados aos degraus da escada, fomos subindo rumo à glória. Bem rápido, para evitar sermos flagrados.
     Quase no fim da letra H, levei um escorregão ao trocar o pé e por pouco não caí. Altura de um prédio de seis andares, talvez sete. Segurei-me pelos braços, sem encontrar apoio para os pés. Embranqueci. Gelei. Tremi da cabeça ao mindinho. Fiquei com medo de prosseguir. Meu amigo me incentivou a continuar. Igual bicho-preguiça, fui em frente.
     Ao alcançar o topo, veio a decepção. A vista era horrorosa. Hollywood não passava de um amontoado de galpões de cinema no meio do deserto, uma ou outra palmeira a destoar da monotonia da planície. Ainda sob efeito da descarga de adrenalina, perguntei-me por que assumira tanto risco.
     De repente, ouvi o grito de vitória de meu amigo. Então me dei conta de que conseguira.Conseguira. Isso era o que importava. Também gritei. Escalar o H de Hollywood, por mais arriscado que fosse, por mais sem graça que pudesse ser a vista, tinha um valor simbólico. Um valor que não tem preço.

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