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RECEITA PRA FICAR LOUCO

 

 

Para tudo, precisamos de modelos hoje em dia – também podemos chamá-los de sistemas, critérios, planos, classificações, conjuntos, teorias, padrões – em busca de maior sentido à vida ou para extrapolar a rotina. Criamos modelos para este e todos os mundos, incluídos o paraíso, o inferno, as estrelas, os universos paralelos. Para o real e o imaginário. Nem a literatura escapa. Temos modelos até para a loucura. Mais de quinhentos, segundo os psiquiatras.

Modelos inserem o particular no global. É cômodo. Em vez de nos ocuparmos de muitos casos, nós os condensamos, unindo-os através de características comuns. Assim, tratando-nos por primatas, incluímo-nos numa família mais ampla com a qual temos noventa e sete por cento de semelhança genética. Não deixa de ser paradoxal que, enquanto procuramos sínteses totalizantes, abertas para o cosmo, tornamo-nos, no varejo, cada vez mais especialistas, mais míopes. Cada vez mais sabemos mais de menos.

Geramos modelos de comportamento, de economia, de religião, de física, de química, de fisiologia, de evolução no Sambódromo, de circulação de dinheiro, de espalhamento de vírus na Terra, de distribuição da matéria nas galáxias, de expansão do Universo, de distribuição de jogadores no campo de futebol. Construímos suportes para cada aspecto da vida e das ideias, porém demonstramos pouca fidelidade a eles. Sempre consideramos nosso tempo o mais aquinhoado; nossas certezas, as melhores, nossos pontos de vista, os definitivos. Somos, no entanto, volúveis – e como. Na época do descobrimento do Brasil, o Sol gravitava em torno da Terra e os índios não tinham alma. No século 19, a beleza feminina carecia de muito volume corporal e aceitava-se a escravidão. Hoje, ainda se acredita em duende e no poder da guerra para resolver disputas.

A vida é uma peça de teatro em que o primeiro ensaio coincide com a estreia. Detalhe: o texto muda a cada apresentação. Em outras palavras, tomamos decisões cujas consequências, a priori, não sabemos medir. No atual modelo, o futuro promete ser melhor que o presente, embora desconheçamos como e por quê. Porque duramos mais que nossos avós, postulamos que nossos netos devam viver cento e cinquenta anos. Descartamos a hipótese de que o século 21 possa reservar-nos dias amargos graças a decisões tomadas, no século 20, com aparente garantia de prudência, tecnologia e conhecimento.

Se alguém me pedisse para montar um modelo em que juntássemos internet, ETs, o cometa Hale-Bopp, castração, tênis Nike, religião, tranquilizantes e vodca, eu não saberia por onde começar, muito menos supor que alguém pudesse acreditar no monstrengo gerado por esse coquetel indigesto. Pois esses ingredientes fundiram-se nas cabeças e nos corpos dos seguidores de uma seita maluca dos Estados Unidos, a Heaven’s Gate. Trinta e nove deles, calçados com Nike e bêbados com vodca e calmantes, suicidaram para alcançar um suposto Portal do Céu, escondido no rabo do cometa Hale-Bopp, no qual Jesus Cristo em pessoa estaria viajando pelo Universo, escoltado por ETs. Todos os trinta e nove abraçaram um modelo que lhes fez sentido e sacrificaram-se em nome dele.

Apenas como exercício de imaginação, penso na possibilidade de, num momento de loucura, desconhecimento ou distração geral, a humanidade embarcar em disparate similar. Por que não? Afinal, somos viciados em ligar uma ideia a outra. Nada nos garante que sempre tomaremos a decisão correta, sobretudo quando considerados períodos mais longos, em que os efeitos perversos se multiplicam: a possibilidade de acertar cem por cento das vezes é nula. Louvamos paradigmas, aceitamos dogmas, admitimos preconceitos. Temos exemplos de países ditos desenvolvidos que acataram absurdos de seus líderes. Épocas inteiras praticaram aberrações. Quem sabe já tenhamos feito opções cuja nocividade descobriremos tarde demais? Até que ponto podemos conciliar o presente com o futuro? Como garantir o bom senso ante a tentação da loucura? Estaria eu louco ao aventar estupidez em escala universal? O tempo o dirá.

Como disse, a vida parece uma peça. Também no sentido de engano, logro, embuste, ludíbrio. A vida prega muitas peças. Ela nos poupará da insensatez coletiva? Sobra-nos o velho consolo. Quem brinca com fogo pode se queimar, porém, sem ele, a humanidade jamais teria sobrevivido pelos últimos cem mil anos.

 

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A CIÊNCIA DA INSIGNIFICÂNCIA

Até o século 20, o ser humano era a figura central do Universo, orgulhoso por ignorância, arrogante por herança mítica, grande por pequenez. Julgávamo-nos razão bastante para a existência de tudo que nos cerca, críamos mesmo que podíamos usar e abusar do planeta, talhado sob medida divina para nossas necessidades, fonte eterna de água, comida e materiais. A lenda sucumbiu à realidade. De queda em queda ao longo das últimas décadas, assumimos condição periférica, desprovidos de privilégios, sem pai nem mãe, sujeitos a limitações cada vez mais iminentes. Ante a imensidão desvelada, viramos nada.

Quem nos pulverizou de tal maneira? Os principais responsáveis foram os físicos. Eles forjaram nossa nulidade. Moldaram nosso pensamento, destruíram a objetividade absoluta com a introdução do observador, assombraram-nos com novas interpretações da realidade, trouxeram medo com a fissão e a fusão atômicas. Mais que quaisquer outros profissionais, ampliaram as fronteiras do que conhecemos ou julgamos conhecer. Mergulharam no infinitamente pequeno, diluíram a matéria em flutuações adimensionais, inquiriram o infinitamente grande, construíram uma ponte quântica entre os extremos, descobriram a expansão do Universo, postularam começo e fim para os átomos, descreveram dezenas de fenômenos e partículas que teriam ocorrido durante o primeiro nanossegundo cosmológico, sucumbiram ante a matéria e a energia escura que tudo envolvem e ainda não se revelam. O Big Bang, hipótese de trabalho com várias lacunas, frequenta nossa mesa tanto quanto um espaguete ao molho de tomate.

Os físicos também nos legaram a palavra do século: relatividade. Embora herdada do pai dos cientistas modernos, Galileu Galilei, a relatividade nos arrebatou após o trabalho de Einstein. Não conheço outra com tamanha influência, nem em Darwin, autor da teoria da evolução, nem em Freud, grande divulgador de neologismos. Da antropologia à arte, da política à filosofia, mesmo no humor, tudo ficou relativo. Einstein, passado um século desde a Relatividade Geral, ainda nos arranca admiração e espanto. Graças à singeleza de suas equações, a física perdeu o hermetismo e ocupou o espaço das ideias. Ganhamos novo paradigma.

Diante de tamanha abertura para o Cosmo, o grande e o pequeno Cosmo, ganhamos alguma sabedoria, mas perdemos o orgulho de senhores do Universo. Embora continuemos os mesmos, com nossas carências de ar, água, comida, amor e curiosidade, paradoxalmente nossa mente cresceu enquanto perdíamos o status de senhores da criação. Hoje nos encantamos com nossa insignificância diante de um Universo que ultrapassa a imaginação. O importante é que o encantamento persiste.

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Viagens – modo de usar

Viagens nos ensinam a humildade. Com
sutileza, despertam o tempo, o outro, o próprio viajante. Quanto mais longe
vamos, mais nos desapegamos de orgulhos, pompas e idiossincrasias. Quanto mais
pessoas conhecemos, mais nos conhecemos. Quanto mais lugares visitamos, mais
admiramos o planeta, sua força, sua fragilidade, seu equilíbrio, seu tamanho.
Aqui surge um paradoxo: crescemos quando nos apequenamos ante os continentes,
ante a multiplicidade de costumes, riquezas, mitos e realidades, ante a
vastidão das montanhas, planícies e mares, ante a pluralidade de raças e
credos, ante a relatividade dos juízos. Viagens contrapõem a dimensão da Terra
e a do ser humano. Provam que somos meras frações de um universo infinito. Ora,
frações do infinito são o próprio infinito. Daí, talvez, nosso crescimento.

O mundo é maior que nossa aldeia,
obviedade de que com frequência não nos damos conta. No entanto, o vilarejo
mais distante tem segredos para revelar. Por outro lado, também portamos
sabedorias. Resultado: ao encarar a diversidade, nossos preconceitos, sobretudo
os que não admitimos possuir, afloram e provam-se ridículos. Aqueles arroubos
tão arraigados pelos êxitos, origens, posses e realizações tornam-se patéticos
diante do legado alheio, muitas vezes anônimo, no entanto arrebatador. Nos
encontros da diferença, apagamos a tola impressão de que nosso tempo é o único,
o mais brilhante, herdeiro de nenhum outro, erguido a partir de nossas
conquistas. A boa viagem confunde, questiona, excita, acerta, faz pensar. É a maneira
mais eficaz para descobrir nossa espécie e a nós mesmos em nossa total nudez.
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