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Dois paraísos no Canadá

Ponha num só
lugar os seguintes ingredientes: rios cristalinos, lagos cor turquesa ou brancos
de gelo, céu azul, montanhas nevadas, florestas bem preservadas, dezenas de
cachoeiras, algumas azuis, geleiras quilométricas, canyons escavados pelas eras
glaciais e pelas chuvas, bandos de pássaros e bichos, alguns dos mais antigos e
estranhos fósseis do planeta, ar sempre fresco com odor de pinheiro, paisagens
deslumbrantes.
Misture bem esses ingredientes,
descubra todas as formas para combinar e recombinar tanta variedade e formosura.
Pronto. Você chegou ao Oeste do Canadá, aos Parques Nacionais de Banff e de Jasper, isto é, você está num dos mais
deslumbrantes cenários da
Terra. Aproveite. Aqui se respira a natureza em estado puro, sem aditivos. Caminhar
pela região revigora a mente e o corpo. Pode ser por um dia, três, uma semana,
duas. Há trekkings para todos os gostos.
          Se você for do tipo que gosta de estrada
e conforto, Banff e Jasper também o encantarão, pois podem ser vistos em todo o
seu esplendor da janela do carro ou do hotel. Estão ligados por duas bonitas rodovias,
a Canadá 1 A
e a 93, que passam por Lake Louise (famoso pela cor turquesa), enquanto
margeiam as águas límpidas dos rios Bow e
Athabasca. Duzentos e sessenta quilômetros boquiabertos separam os dois
parques que, pela paisagem deslumbrante e pela riqueza da flora e fauna, se
tornaram Patrimônios Naturais da
Humanidade pela UNESCO
. Título merecido.
          Banff,
criado em 1885, é o terceiro mais antigo parque nacional do mundo, tem mais
de 1.600 quilômetros de trilhas, quase 3.000
locais para acampar e mais de quatro milhões de pessoas o visitam a cada ano.
Gente do mundo inteiro o procura, sobretudo para longas caminhadas. Aliás, estas
tiram o fôlego. Não só nas trilhas, às vezes difíceis, como na deslumbrante
paisagem. A mente vive epifanias.
          Jasper,
maior parque das Montanhas Rochosas, data de 1907, possui grande
variedade de animais silvestres e recebe mais de dois milhões de turistas por
ano.  
          Bons hotéis, bed&breakfasts,
restaurantes e serviços, a preços razoáveis, atendem aos visitantes de ambos os
parques. Se preferir, acampe. A baixíssimo custo, com conforto e segurança.

          Há
lugares onde a natureza caprichou mais ao fazer o mundo. Banff e Jasper estão
entre eles. São dois pedaços do paraíso transferidos para a Terra. Dão saudade
pelo resto da vida.

                                                                                                   Para Gabi.

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Desafio radical na neve – uma aventura

         Imagine
uma cordilheira dentro de outra. Imagine dezenas de picos nevados com mais de
cinco ou seis mil metros de altitude, reunidos num perímetro de 165 quilômetros.
Essa cordilheira existe. Fica no meio dos Andes peruanos e se chama Huayhuash. Atravessá-la
é um desafio radical. Num único dia, saí de uma densa mata de quenuales a três
mil e quinhentos metros de altitude, cheguei à neve a cinco mil e dormi a
quatro mil na puna andina. Encontrei por lá gente de trinta países, nenhum
brasileiro.
          Huayhuash é uma aventura que marca não
apenas pela beleza, também pela diversidade de clima, relevo, plantas e
animais, pelos lagos cristalinos, pelo estrondo das avalanchas, pelo silêncio
da noite, pela pureza do ar, pelo vento que arrasta e congela. Nem pense em ir,
se você gosta de conforto. Barraca é o único hotel.
          Aliás, Huaywash tem o som, em inglês,
de “why wash” ou “por que se lavar?”. Ao percorrer suas trilhas, o que demora
doze dias, é difícil tomar banho. Os riachos que descem das geleiras não
convidam para mergulhos. O risco de morrer de frio é real. Na única fonte termal
que encontrei, ao pé de um vulcão, tive a companhia de uma nevasca que me
roubou a coragem de sair do poço quentinho. Sempre que o céu se abria, montanhas
com nomes sonoros e estranhos brilharam ao sol, brancas de doer: Yerupajá,
Jirishanca, Ninashanca e Siula. O Siula, aliás, foi palco da façanha relatada
no livro “Tocando o vazio”, prova da enorme capacidade de resistência do ser
humano.

          Huaywash,
de tão remota e selvagem, foi esconderijo do Sendero Luminoso, o famoso grupo
guerrilheiro peruano. Sendero Luminoso, ou Caminho Luminoso, seria um nome
apropriado para a cordilheira. Ali se veem todas as possíveis nuanças de luz,
sobretudo aquela que, lá no alto, onde o ar rarefeito embevece o cérebro,
parece brotar de dentro da gente e iluminar o presente, o passado e o futuro,
revelando a imensa curtição de estar neste mundo. À luz de Huayhuash, a vida
pulsa através de todos os tempos num único momento. Um eterno momento.

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