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A INTOLERÂNCIA MORA AO LADO

A capacidade humana de se inventar é admirável. Em cada lugar habitado, pouco importa em que tempo, nós nos atribuímos uma origem diferente. Na América do Sul, alguns povos acreditavam que surgimos do milho. Outros preferiram a batata ou a mandioca. Na Noruega, viemos de árvores. Na Índia, da manteiga. O barro foi uma opção no Oriente Médio, na Grécia, na China, nas Américas do Norte e Central. No Tibete, surgimos da união de um ET com um macaco. Na Coreia, substituíram o macaco pelo urso.

No Quênia, ora descemos do céu, ora saímos de dentro de um joelho. Na Oceania, brotamos de vermes. Sim, a capacidade de nos inventarmos não tem fim.

Também não tem fim nossa capacidade de acreditar. Vi, no México, mulheres se arrastando de joelhos nus no adro da Basílica de Guadalupe, largando trilhas de sangue. Uma atmosfera de beatitude as seguia, como se estivessem fora deste mundo. No Brasil, testemunhei um pajé, em transe, entrando em contato com os deuses da tribo. Em Mianmar, num templo que comemorava 2 500 anos de existência, centenas de pessoas rezavam para encontrar o caminho ensinado por Buda. Enquanto balançavam a cabeça, queimavam incenso, e o ar adquiria cheiro de nirvana.

Na Mesquita Azul, na Turquia, logo após o chamado do muezim, que me remeteu aos contos das Mil e Uma Noites, os muçulmanos curvavam-se em direção a Meca, em rogos compenetrados. Alá parecia estar entre eles. No templo Tanah Lot, na Indonésia, as orações, durante o incêndio de cores trazido pelo mergulho do sol no oceano, criaram clima de transcendência mesmo para quem não participava da cerimônia. Em Katmandu, no Nepal, uma garota, transformada em deusa viva, fazia cegos enxergar e paralíticos jogar fora cadeiras de roda e muletas. O mesmo aconteceu no norte da Índia, onde uma aguinha a escorrer do lingam de Shiva, pedra cinzenta com meio metro de altura, transformava a força vital do deus em milagres. Na Alemanha, na época do Natal, conheci celebrações pré-cristãs para o solstício de inverno, mantidas por uma tradição multimilenar. Na Tailândia, fiéis cobriam as imagens sagradas com folhas de ouro ao fazer pedidos ou agradecer as graças alcançadas. Sim, nossa capacidade de acreditar não tem fim.

Diante de tanta diversidade, nossa capacidade de respeitar a crença alheia teria fim? Sempre apostei na tolerância dos brasileiros. Afinal, somos o país do sincretismo religioso.

Já não estou tão seguro. Ao entrar, em Belo Horizonte, em dois templos onde se prometem milagres em troca de dinheiro, testemunhei radicalismo contra os demais credos: segundo os pregadores, quem não pertencia à seita era indigno de viver, um condenado, um intocável. Fiquei duplamente assustado. Com o discurso e com a cara de pau dos manipuladores. Em determinado momento, um deles disse que os seguidores da seita deveriam evitar até conversar com os não membros para não ser contaminados. Também precisavam, em casa, se livrar de qualquer escultura ou pintura com figuras humanas.

​O mundo conhece o efeito dos excessos. A história está cheia de exemplos. A humanidade, em sua múltipla capacidade de se inventar e de acreditar, é maior que qualquer culto. Cultos passam, a humanidade fica. A intolerância não é o caminho, nem a verdade, muito menos a vida. É apenas o casamento da presunção com a sede de poder.

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NÃO PRECISAMOS DE MÁRTIRES

Ao ler um jornal de hoje, descubro que nove articulistas discutem a situação do país. No miolo, páginas e páginas abordam nossas crises. Só se fala nisso. Prometi-me não tocar no assunto nestas crônicas, embora os dedos cocem o tempo todo. É preciso respirar um ar diferente, não contaminado pelo noticiário. Aqui é um desses espaços. Continuo firme em meu propósito, porém não posso evitar um alerta.

Durante a semana, fui bombardeado por partidários da situação e da oposição. Todos donos da verdade. Meus amigos se dividiram entre as facções. Alguns irados. Contra e a favor de Dilma. Se a tal divisão entre “nós e eles” era um desejo, está concretizado. Sim, protestar é um direito. Aceitar o protesto é uma obrigação.

Temo que, no domingo, os ânimos acirrados produzam violência. Vi várias ameaças, inclusive aqui no facebook. Não precisamos de mártires, de qualquer lado. Precisamos de democracia. Respeito e tolerância fazem parte dela. Aliás, respeito e tolerância são a base da democracia. Que prevaleçam.

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Sexo é poder

       Existe muito modismo no campo material, mas no das ideias a
tolice campeia. Entre a divagação e a práxis, entre a tevê e o blog, entre o aqui e o além, entre o céu
e o inferno, entre o hedonismo e o estoicismo, há lugar para todo tipo de
asneira e quimera, defendidas por argumentos à primeira vista racionais. Por
mais estapafúrdia que seja a pregação, ela sempre consegue seguidores, da
limpeza étnica ao suicídio coletivo de uma seita em nome de uma nave espacial
escondida atrás do rabo de um cometa. O suicídio coletivo aconteceu há alguns
anos, a limpeza étnica ocorre ainda hoje.
       Sandice, que não é privilégio de nosso tempo, quando investe
contra a natureza humana, costuma buscar o respaldo divino para consolidar-se.
Por exemplo, nos primeiros séculos da era cristã, o ascetismo era modismo,
incensado como o melhor caminho para chegar a Deus. A carne significava a
perdição: a mulher como um todo e o homem, da cintura para baixo, eram criações
demoníacas. São Paulo julgou o celibato superior ao casamento. Dois influentes
pensadores da época, Agostinho e Jerônimo, pregaram contra o ato sexual,
tachando-o de repugnante e sujo. Na mesma linha de repúdio, Tertuliano
considerou-o vergonhoso; Arnóbio, nojento e degradante; Ambrósio, podre. A
condenação sobreviveu através dos séculos, provocando desde a autocastração de
Orígenes até, durante a Era Vitoriana, o conselho de alguns médicos aos maridos
ingleses para procurarem prostitutas, porque o orgasmo pago seria menos
envolvente – menos pecaminoso, portanto – do que com as próprias esposas.
Aliás, Freud, vitoriano de formação, debruçou-se com exagero sobre o sexo
varrido para debaixo do tapete, reflexo de seu tempo. Libertou-se de totens e
tabus, mas criou outros.
       Resultado do modismo da abstinência sexual: culpa para
milhões de pessoas. Todo psicanalista deveria acender, a cada dia, uma vela
para santo Agostinho e outra para são Jerônimo, agradecendo-lhes os clientes
dilacerados pelo confronto entre um instinto desenvolvido pela natureza durante
milhões de anos e uma filosofia incensada por meia dúzia de homens há meros
vinte séculos. O celibato, abstinência levada ao paroxismo, é contra a vida. Se
generalizado, mais louco que o suicídio de uma seita inteira em nome de um
cometa, mataria toda a espécie. Outro paradoxo: ainda o defendem no século 21.
Da boca para fora e da porta das igrejas para dentro. Controlar o ato sexual
alheio dá poder. Muito poder.

       Ideias são produto de nossa mente, sujeitas, portanto, a
modismos, do esbanjamento à virgindade – há quem, no outro extremo, julgue a
pobreza e o tantrismo os grandes caminhos para a realização terrena. O ser
humano, apesar das cambiantes concepções de mundo que adota, tem sido o mesmo
em qualquer época. Basicamente, sobrevive e procria – em resumo, sobrevive para
procriar. Para facilitar a tarefa, criou as civilizações e as culturas. Ao
observá-las à distância, constatam-se as investidas contra as pessoas, as
crendices apregoadas, as milenares superstições que perduram, as hipóteses de
trabalho tornadas verdades, os delírios entronizados nas mídias, a falta de
senso crítico. Por mais cruéis e insustentáveis que sejam alguns pontos de
vista, jamais nos livraremos deles. Ainda bem. Isso se chama convívio,
tolerância. A diversidade faz a beleza do mundo – um mundo cheio de graça, por
sinal. Oxalá a graça do mundo não seja modismo.
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