Arquivo da tag: teatro

LADRÕES DA BOA-FÉ

 

Sempre que vejo falsos religiosos pregando nas tevês com a maior cara de pau, com a maior seriedade, como senhores absolutos da verdade, penso naqueles 300 picaretas que alguém disse existir no Congresso Nacional, antes de aderir ao grupo. Falsos pastores e falsos políticos são farinha do mesmo saco. Uns e outros sempre me remetem a Tartufo, um dos mais famosos personagens de Molière, o maior dramaturgo francês. Tartufo é, também, o nome da peça que ele protagoniza, das mais conhecidas do teatro.

Tartufo é fingido, hipócrita, mentiroso, corrupto, chantageador, desleal, falso religioso, interessado apenas em tirar dinheiro daqueles a quem faz as mais devotas pregações. A peça estreou em 1664, portanto há 352 anos, e continua atualíssima. São três séculos e meio de Tartufo, sem mudança do caráter humano – e sem perspectiva de melhora. Provocou violenta reação do clero da época, ficando proibida por alguns anos. Quem a visse ou encenasse foi ameaçado de excomunhão pelo arcebispo de Paris.

Leia Tartufo, para ver como a canalhice atravessa o tempo. Depois, ligue a tevê, escute atentamente os canais religiosos com apelo financeiro, analise as técnicas de dissimulação utilizadas, observe a sub-reptícia venda de Deus em prestações mensais. Em seguida, compare os debates no Congresso com a verdadeira atuação, nos bastidores, de deputados e senadores, da venda de emendas ao propinoduto descarado. O resultado é puro teatro, o teatro de Molière, a falsidade de Tartufo até a exaustão. Uma tartufada sem fim.

Acontece que Tartufo, no final da peça, é desmascarado. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer. Ensaiamos apenas os primeiros passos. Nossos Tartufos continuam depositários da moralidade, ladrões da boa-fé. A cada dia que passa, Molière estremece no túmulo por nós. Ai de nós.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O REI DA PICARETAGEM

Sempre que vejo falsos religiosos pregando nas tevês com a maior cara de pau, penso nos 300 e tantos picaretas do Congresso Nacional que um conhecido político certa vez afirmou existirem no Senado e na Câmara. Uns e outros são farinha do mesmo saco. Uns e outros me remetem a Tartufo, um dos mais famosos personagens de Molière, o maior dramaturgo francês.

Tartufo é, também, o nome da peça que ele protagoniza, das mais encenadas do teatro. Tartufo é fingido, hipócrita, mentiroso, corrupto, chantageador, desleal, falso religioso, interessado apenas em tirar dinheiro daqueles a quem faz as mais devotas pregações.

A peça estreou em 1664, portanto há 351 anos, e continua atualíssima. Provocou violenta reação do clero da época, ficando proibida por alguns anos. Quem a visse ou encenasse foi ameaçado de excomunhão pelo arcebispo de Paris.

Leia Tartufo para ver como a canalhice não muda através dos séculos. Depois, ligue a tevê, escute atentamente os canais religiosos com apelo financeiro, analise as técnicas de persuasão utilizadas, em seguida compare os debates no Congresso com a verdadeira atuação, nos bastidores, de deputados e senadores. O resultado é puro teatro, o teatro de Molière, a falsidade de Tartufo até a exaustão. Uma tartufada sem fim.

Acontece que Tartufo, no final da peça, é desmascarado. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer. Nossos Tartufos continuam depositários da moralidade. A cada dia que passa, Molière estremece no túmulo por nós.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Uma voz da África

      Você já
ouvir falar no escritor Akinwande Oluwole Soyinka? Não? Pois não se envergonhe.
Pouca gente, no Brasil, sabe quem ele é. Mais conhecido por Wole Soyinka, tem oitenta
anos, aparência de setenta, e foi o primeiro africano a ganhar o Prêmio Nobel
de Literatura, graças a uma obra que “numa perspectiva cultural bastante ampla,
com toques de poesia, aborda o drama da existência”.
          Nigeriano, nascido numa família iorubá
influente, Soyinka estudou na Inglaterra e, além de escrever romances, poemas e
peças de teatro, tornou-se ativista político e lutou contra as ditaduras
nigerianas e o apartheid
sul-africano. Como escrever é perigoso, Soyinka foi preso. A prisão lhe deu
munição para escrever mais ainda.
          Em suas obras, Soyinka contrasta a
sensibilidade dos poemas com a complexidade dos romances, comparados aos de
Faulkner e Joyce. Seu trabalho traduzido mais divulgado “É Melhor Partires de Madrugada”, coleção de memórias, só é encontrado
em Portugal. Infelizmente
as editoras brasileiras lançaram aqui apenas uma de suas obras: a peça teatral “O leão e a joia”, publicada pela Geração
Editorial.
          Para lhe oferecer um gostinho da
poesia de Soyinka, traduzi parte de seu poema “Dedicatória”. Aqui está:
          Umedece
teus lábios com sal,
          que não seja o de tuas lágrimas.
          Esta chuva-água é presente dos deuses
          — bebe sua pureza, frutifica na hora certa.
          Leva, pois, os frutos à boca,
          corre para devolver o milagre de teu nascimento.
          Cria marés humanas como as ondas,
          imprime tua lembrança nas areias que ainda guardarão
fósseis.

          Todo
escritor gostaria que suas palavras virassem fósseis. Fósseis são pedras,
resistem ao tempo, dialogam com a eternidade. É o caso de Wole Soyinka.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail