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A ILHA DR JEKYLL E MR HYDE

 

 

Se há um lugar no mundo em que a sobrevivência se comemora a cada dia, esse lugar se chama Bali. Quem escapa de um terremoto, pode sucumbir, horas mais tarde, a uma erupção vulcânica. Ou, de madrugada, a tufões devastadores. Ou, sol a pino, a um tsunami com quinze metros de altura, monstruoso mesmo para os mais ousados surfistas que todos os dias chegam a Denpasar em busca de algumas das maiores ondas do mundo. Pelo número de tremores de terra que, sem descanso, sacodem a ilha, a maioria detectável apenas pelos sismógrafos, os vagalhões de Bali devem resultar de maremotos em cascata. Às vezes, parece que estes, de tão numerosos, provocam o constante surf azul-cobalto com crista branca, perfeito para a prática esportiva. Perfeito também para encantar os olhos.

O perigo faz o balinês feliz. Ciente da brevidade dos momentos de paz, ele os aproveita com sorriso aberto e alegria incontida, expressos em cantorias e cerimônias que varam as noites. Sem ostentação e sem miséria, entrega-se à natureza ao mesmo tempo generosa e hostil. Planta o arroz nas colinas com o tom verde das folhas de ipê em setembro. Para aumentar as colheitas, desenvolveu um complexo sistema de irrigação por gravidade. Não passa sede: as chuvas renovam constantemente os mananciais. Venera as árvores waringin e respeita os tigres que ainda resistem nas florestas. A natureza é o sangue de Bali.

O sol tropical convida o visitante ao mar. As praias, quando escapam das cinzas ou rochas negras dos vulcões que mataram milhares, possuem a brancura do giz. Ao mergulhar em suas águas, por exemplo, em Dagang, perto de Nusa Dua, a fauna subaquática lembra as visões do paraíso comuns às tradições religiosas: a beleza inebria os sentidos e sugere o deleite eterno. O colorido dos peixes, do vermelho-sangue ao índigo, cambiantes de acordo com o ângulo da luz, harmoniza-se com os corais de quiméricas formas e matizes. Moreias azuladas entocam-se em esqueletos de calcáreo, ao lado de ermitões em carapaças alugadas. Caravelas passeiam sobre anêmonas, enquanto polvos pintados de sépia perseguem caranguejos carmesins. Como consegue a natureza inventar tanta diversidade?

Em Bali se confirma que experimentar é, de fato, o grande hobby da vida, experimentar sem objetivo, a esmo. O acaso, principal maestro da evolução, dono de curiosidade infantil, fomenta novas espécies e lança-as à própria sorte no meio ambiente. Por mais desvairados que sejamos ao imaginar um ser ou um comportamento, a natureza com certeza já terá testado algo semelhante. Sobreviver é o grande prêmio em jogo. Daí, em escala maior, o regozijo do balinês. Aos trancos, ele segue em frente. Sabe que mora numa terra em que o doutor Jekyll e o senhor Hyde (o médico e o monstro) se alternam para visitá-lo – e a alegria, talvez a última, deve ser curtida até o limite.

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