Arquivo da tag: sexo

O FILHO QUE NÃO TRANSAVA

           Ele se orgulhava do filho, musculoso, bonito, alto, bem dotado, o tipo que, em sua longínqua adolescência, gostaria de ter sido. O garotão o redimiria do passado, realizando a fantasia nunca concretizada: tornar-se o maior benemérito da humanidade, espalhando seus genes pelos cinco continentes. Ou eram seis? Geografia nunca fora seu forte. Tampouco os predicados de garanhão.     
      Nem tudo é perfeito. O rapaz, aos dezoito anos, não tinha namorada, sequer ficava. Quer dizer, ficava, sim. Em casa. Chegava da aula e se enfurnava no quarto, grudado naquela droga de internet. Internet em vez de paquera no auge da juventude, quando a testosterona está saindo pelos poros, alguém entende? Só parava para comer, malhar nos aparelhos caríssimos que, ninguém entendia como, comprara com a pequena mesada e, terrível pesadelo, pegar no vídeo, todas as tardes, filmes de Rambo, UFC, músculos e afins, gosto no mínimo duvidoso para um homem de fato, para não levantar dúvida pior. Onde errara, Deus do céu?    
     Resolveu ir à luta. Comprou várias revistas masculinas, chamou o moço no canto, entregou-as com um comentário seco: “De homem pra homem, filho. A gente conhece nossas necessidades”. O rapagão deu uma gargalhada e tachou-o de idiota. Por São Judas, o pesadelo era mais sério do que parecia!
     Conversou com a esposa, ela perdeu o sono, às quatro da manhã arrumou a solução: “Amor, por que você não leva ele pra fazer a coisa… bem, você entende, né? Antigamente todo pai levava”. Aceitou, em nome da honra da família.
     Com a desculpa de ir ao supermercado, carregou o mancebo pela avenida onde senhoritas quase nuas comiam graças ao corpo, deixando-se canibalizar, em termos. O danado descartou-as, uma a uma: gorda, magra, traveco, feia, oxigenada, despencada, velha. Deus do céu, que pesadelo!
     Com o incentivo da mulher, o pai radicalizou. Nos anúncios de relax, escolheu uma “universitária, dezoito aninhos, nova no ramo, liberada para realizar seus sonhos”. Ligou, conferiu se não havia propaganda enganosa, viu as fotos na internet. Era ela! Melhor, ai, muito melhor que a própria esposa na lua de mel. Pagou adiantado, o dobro, para compensar o exagero de recomendações. Arrastou o filho ao apartamento da profissional, obrigou-o a ficar, disse que o aguardaria no carro, que não se apressasse. Afinal, a primeira vez a gente nunca esquece.
     Duas horas mais tarde, o garanhão apareceu, radiante: a donzela também adorava o youtube, viajaram por muitos sítios interessantes, até a convidara para passar depois lá em casa. Quanto à coisa, nada. Nadinha. “Pô, pai, relaxa, tô noutra”.
     O pobre genitor entrou em desespero, subiu ao apartamento da contratada, pediu o dinheiro de volta, ouviu um não, porém, bem sensual, ela o abraçou: “Posso devolver agora, coroa gostoso, mas só se for em serviço”. Todos sabem como anda difícil arranjar qualquer trocado hoje em dia, com essa crise toda. Ele não podia perder a pequena fortuna assim de graça. Bem, já que estava pago… Demorou cinco minutos, incluindo tirar e pôr a roupa.
     No dia seguinte, caíram duas bombas na casa: a universitária apareceu para navegar na droga do computador e escancarou o sorrisinho cínico de quem podia contar tudo. Minutos depois, a mulher do dono da videolocadora, invadindo a sala aos berros, confessou que o rapaz ia ser pai mais uma vez, mas agora o maridão descobrira tudo – e vinha pela rua com um revólver na mão. 
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Sexo é poder

       Existe muito modismo no campo material, mas no das ideias a
tolice campeia. Entre a divagação e a práxis, entre a tevê e o blog, entre o aqui e o além, entre o céu
e o inferno, entre o hedonismo e o estoicismo, há lugar para todo tipo de
asneira e quimera, defendidas por argumentos à primeira vista racionais. Por
mais estapafúrdia que seja a pregação, ela sempre consegue seguidores, da
limpeza étnica ao suicídio coletivo de uma seita em nome de uma nave espacial
escondida atrás do rabo de um cometa. O suicídio coletivo aconteceu há alguns
anos, a limpeza étnica ocorre ainda hoje.
       Sandice, que não é privilégio de nosso tempo, quando investe
contra a natureza humana, costuma buscar o respaldo divino para consolidar-se.
Por exemplo, nos primeiros séculos da era cristã, o ascetismo era modismo,
incensado como o melhor caminho para chegar a Deus. A carne significava a
perdição: a mulher como um todo e o homem, da cintura para baixo, eram criações
demoníacas. São Paulo julgou o celibato superior ao casamento. Dois influentes
pensadores da época, Agostinho e Jerônimo, pregaram contra o ato sexual,
tachando-o de repugnante e sujo. Na mesma linha de repúdio, Tertuliano
considerou-o vergonhoso; Arnóbio, nojento e degradante; Ambrósio, podre. A
condenação sobreviveu através dos séculos, provocando desde a autocastração de
Orígenes até, durante a Era Vitoriana, o conselho de alguns médicos aos maridos
ingleses para procurarem prostitutas, porque o orgasmo pago seria menos
envolvente – menos pecaminoso, portanto – do que com as próprias esposas.
Aliás, Freud, vitoriano de formação, debruçou-se com exagero sobre o sexo
varrido para debaixo do tapete, reflexo de seu tempo. Libertou-se de totens e
tabus, mas criou outros.
       Resultado do modismo da abstinência sexual: culpa para
milhões de pessoas. Todo psicanalista deveria acender, a cada dia, uma vela
para santo Agostinho e outra para são Jerônimo, agradecendo-lhes os clientes
dilacerados pelo confronto entre um instinto desenvolvido pela natureza durante
milhões de anos e uma filosofia incensada por meia dúzia de homens há meros
vinte séculos. O celibato, abstinência levada ao paroxismo, é contra a vida. Se
generalizado, mais louco que o suicídio de uma seita inteira em nome de um
cometa, mataria toda a espécie. Outro paradoxo: ainda o defendem no século 21.
Da boca para fora e da porta das igrejas para dentro. Controlar o ato sexual
alheio dá poder. Muito poder.

       Ideias são produto de nossa mente, sujeitas, portanto, a
modismos, do esbanjamento à virgindade – há quem, no outro extremo, julgue a
pobreza e o tantrismo os grandes caminhos para a realização terrena. O ser
humano, apesar das cambiantes concepções de mundo que adota, tem sido o mesmo
em qualquer época. Basicamente, sobrevive e procria – em resumo, sobrevive para
procriar. Para facilitar a tarefa, criou as civilizações e as culturas. Ao
observá-las à distância, constatam-se as investidas contra as pessoas, as
crendices apregoadas, as milenares superstições que perduram, as hipóteses de
trabalho tornadas verdades, os delírios entronizados nas mídias, a falta de
senso crítico. Por mais cruéis e insustentáveis que sejam alguns pontos de
vista, jamais nos livraremos deles. Ainda bem. Isso se chama convívio,
tolerância. A diversidade faz a beleza do mundo – um mundo cheio de graça, por
sinal. Oxalá a graça do mundo não seja modismo.
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail