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Viagens – modo de usar

Viagens nos ensinam a humildade. Com
sutileza, despertam o tempo, o outro, o próprio viajante. Quanto mais longe
vamos, mais nos desapegamos de orgulhos, pompas e idiossincrasias. Quanto mais
pessoas conhecemos, mais nos conhecemos. Quanto mais lugares visitamos, mais
admiramos o planeta, sua força, sua fragilidade, seu equilíbrio, seu tamanho.
Aqui surge um paradoxo: crescemos quando nos apequenamos ante os continentes,
ante a multiplicidade de costumes, riquezas, mitos e realidades, ante a
vastidão das montanhas, planícies e mares, ante a pluralidade de raças e
credos, ante a relatividade dos juízos. Viagens contrapõem a dimensão da Terra
e a do ser humano. Provam que somos meras frações de um universo infinito. Ora,
frações do infinito são o próprio infinito. Daí, talvez, nosso crescimento.

O mundo é maior que nossa aldeia,
obviedade de que com frequência não nos damos conta. No entanto, o vilarejo
mais distante tem segredos para revelar. Por outro lado, também portamos
sabedorias. Resultado: ao encarar a diversidade, nossos preconceitos, sobretudo
os que não admitimos possuir, afloram e provam-se ridículos. Aqueles arroubos
tão arraigados pelos êxitos, origens, posses e realizações tornam-se patéticos
diante do legado alheio, muitas vezes anônimo, no entanto arrebatador. Nos
encontros da diferença, apagamos a tola impressão de que nosso tempo é o único,
o mais brilhante, herdeiro de nenhum outro, erguido a partir de nossas
conquistas. A boa viagem confunde, questiona, excita, acerta, faz pensar. É a maneira
mais eficaz para descobrir nossa espécie e a nós mesmos em nossa total nudez.
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Autoajuda para quem quer viver muito

      De
vez em quando eu me flagro com preconceito literário. Por exemplo, rejeito
escritores que nunca li. Típico “não li e não gostei”. Descubro que alguém fez
minha cabeça, portanto fui induzido, manipulado. Para tirar a teima, saio em
busca do autor preterido, vasculho seus livros, chego à minha própria
conclusão.
          A iniciativa me rendeu gratas
surpresas. Quanta gente boa eu renegava por cisma, por ignorância, por ouvir
dizer. Um desses autores era Marco Túlio Cícero, escritor, advogado, orador,
político e filósofo da Roma antiga, que nasceu mais de cem anos antes de
Cristo. Pois eu achava que Cícero fosse apenas uma aula de latinório
descartável, paixão de beletrista, expoente de conhecimento ultrapassado. Pois
me enganei. O homem é bom, bom mesmo. Continua atual. Escreve com clareza,
concisão e verve, reflete sobre questões relevantes como a amizade e a velhice,
domina a sabedoria de seu tempo (até do nosso), tem uma língua ferina, catilinária, quando
decide criticar.
       Tomemos, por exemplo, seu livro Saber Envelhecer. Quem nunca ficará
velho? Quem nunca se indagará a respeito da morte? Quem abraçou os prazeres da
vida nunca se verá obrigado a renunciar a vários deles? A outra opção para quem não deseja envelhecer não é muito prazenteira.

          Cícero,
sozinho, vale por uma centena de livros de autoajuda. Aliás, muitos autores de
autoajuda bebem em Cícero e não lhe dão o devido crédito. Reciclam, com grande
perda de conteúdo, o que o mestre romano escreveu há tantos séculos.
Aproveitam-se da desinformação e do preconceito contra o antigo. Miram pessoas
que acham que o mundo nasceu ontem. Contra o preconceito, nada como o contato
direto. Beba direto na fonte, tire suas próprias conclusões. Como fez Cícero,
seja seu próprio juiz. E colha bem o seu dia.

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