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Shakespeare era gay?

      Ser
ou não ser, eis a questão: Shakespeare era gay? Esta pergunta frequenta as
rodas acadêmicas e, de vez em quando, a mídia. Há quem o tire do armário em
definitivo, quem diga que ele, casado e pai de três filhos, sequer passou perto
de armários, há quem jure que o dramaturgo entrava e saía, com desenvoltura, de
lá de dentro. Tem Shakespeare para todo o mundo. Do jeito que gostais, diria o
Velho Bardo, com ironia. A suspeita tem várias origens. A maior aparece nos Sonetos. Dos cento e cinquenta e quatro
que conhecemos, mais da metade fala de amores do poeta por um jovem. Amor tão
profundo quanto o de Romeu e Julieta.
          O Soneto
75, por exemplo, abre com a
declaração de que o tal jovem é, para o autor e seus pensamentos, como a comida
para a vida. Nada mais explícito, certo? Não necessariamente. O fato de Chico
Buarque ter feito músicas como se fosse mulher, declarando amor aos homens, não
significa que tenha mudado sua opção sexual. Isso também vale para Shakespeare.
Ele simplesmente se teria passado por um adulto envolvido com outro homem.
          No entanto, dizem os partidários de
Shakespeare gay que o Soneto 20, no verso em que o tal jovem se torna
senhor e senhora da paixão do poeta, o compromete sem volta.

          Muito
ainda se escreverá sobre o assunto, porém jamais saberemos a verdade. Como
também diria o dramaturgo, o que importa? A incerteza move o mundo. A
ambiguidade move a literatura. Shakespeare, genial também como poeta e
manipulador da ambiguidade, trouxe a dúvida para sua vida. É um motivo a mais
para lermos seus belos sonetos.

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Os amantes de Verona

 Em 1596, a juventude inglesa chorava o infortúnio de Romeu Montecchio e Giulietta Capuleto, o casal apaixonado de
Verona que sucumbiu a intrigas familiares e acabou cometendo suicídio.
Christopher, um adolescente de Stratford-on-Avon, inconformado com o desfecho,
decidiu reescrever a história, evitando a tragédia: os amantes se salvariam e seriam felizes
para sempre.
Ao mergulhar na escrita, criou
uma Julieta tão bela que não resistiu a seus encantos e se apaixonou pela criatura.
Desejou-a durante meses, mais próxima a cada palavra, mais palpável a cada
parágrafo, mais sua a cada capítulo. Em intensidade cada vez maior, percebeu-lhe
o aveludado do rosto, enquanto a acariciava na pele do papel. Ao luar, sentiu o
perfume de seu hálito de mel nos versos que compunha. Na cama, desnudou-a com o
carinho que a tinta conferiu ao corpo imaginado. Autor e personagem se
mesclaram até que a fronteira entre eles ruiu. Enlouquecido, Christopher
resolveu conquistar em definitivo a veronense. Abandonou Stratford e
desapareceu dentro da obra.
Uma pessoa descobriu seu paradeiro.
William, amigo e confidente, leu as páginas já escritas, ligou o fato à ficção
e entendeu o sumiço. Para comprovar, acrescentou algumas frases ao texto em
andamento e pediu notícias. A resposta brotou nas linhas seguintes, saindo do
vazio, letra a letra.
Christopher cumprimentou William pela
perspicácia, exigiu segredo a respeito do plano, contou suas andanças por
Verona, revelou que já mantinha contato com a jovem Capuleto, na realidade muito
mais bela do que supunha. Ela correspondia à corte, embora desconfiasse que talvez
tentasse usá-lo para provocar ciúme em Romeu. Desse dia em diante, sucederam-se
quatro capítulos sobre a evolução da conquista. 
De repente, a reviravolta. Christopher,
no meio da narrativa, enviou uma mensagem de desespero:
“Tire-me daqui, William. Eles vão me matar.”
Enquanto as palavras secavam, William
não soube o que fazer. A folha retorceu, cresceu para os lados, ocupou o piso e, das letras, materializou-se um corpo com dois punhais cravados
às costas. William, num tardio gesto de ajuda a Christopher, removeu as lâminas
ensanguentadas. Ao arrancá-las, notou as iniciais gravadas em cada cabo: no
mais trabalhado, coberto com cristal rosa, GC; no outro, com uma esmeralda bem
corada, RM.
William assumiu o lugar do morto e
continuou a escrever a história. Em vingança pelo amigo, quando os amantes
de Verona pareciam a um passo do sucesso, não os poupou do encontro com o
destino.
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