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A CIÊNCIA DA INSIGNIFICÂNCIA

Até o século 20, o ser humano era a figura central do Universo, orgulhoso por ignorância, arrogante por herança mítica, grande por pequenez. Julgávamo-nos razão bastante para a existência de tudo que nos cerca, críamos mesmo que podíamos usar e abusar do planeta, talhado sob medida divina para nossas necessidades, fonte eterna de água, comida e materiais. A lenda sucumbiu à realidade. De queda em queda ao longo das últimas décadas, assumimos condição periférica, desprovidos de privilégios, sem pai nem mãe, sujeitos a limitações cada vez mais iminentes. Ante a imensidão desvelada, viramos nada.

Quem nos pulverizou de tal maneira? Os principais responsáveis foram os físicos. Eles forjaram nossa nulidade. Moldaram nosso pensamento, destruíram a objetividade absoluta com a introdução do observador, assombraram-nos com novas interpretações da realidade, trouxeram medo com a fissão e a fusão atômicas. Mais que quaisquer outros profissionais, ampliaram as fronteiras do que conhecemos ou julgamos conhecer. Mergulharam no infinitamente pequeno, diluíram a matéria em flutuações adimensionais, inquiriram o infinitamente grande, construíram uma ponte quântica entre os extremos, descobriram a expansão do Universo, postularam começo e fim para os átomos, descreveram dezenas de fenômenos e partículas que teriam ocorrido durante o primeiro nanossegundo cosmológico, sucumbiram ante a matéria e a energia escura que tudo envolvem e ainda não se revelam. O Big Bang, hipótese de trabalho com várias lacunas, frequenta nossa mesa tanto quanto um espaguete ao molho de tomate.

Os físicos também nos legaram a palavra do século: relatividade. Embora herdada do pai dos cientistas modernos, Galileu Galilei, a relatividade nos arrebatou após o trabalho de Einstein. Não conheço outra com tamanha influência, nem em Darwin, autor da teoria da evolução, nem em Freud, grande divulgador de neologismos. Da antropologia à arte, da política à filosofia, mesmo no humor, tudo ficou relativo. Einstein, passado um século desde a Relatividade Geral, ainda nos arranca admiração e espanto. Graças à singeleza de suas equações, a física perdeu o hermetismo e ocupou o espaço das ideias. Ganhamos novo paradigma.

Diante de tamanha abertura para o Cosmo, o grande e o pequeno Cosmo, ganhamos alguma sabedoria, mas perdemos o orgulho de senhores do Universo. Embora continuemos os mesmos, com nossas carências de ar, água, comida, amor e curiosidade, paradoxalmente nossa mente cresceu enquanto perdíamos o status de senhores da criação. Hoje nos encantamos com nossa insignificância diante de um Universo que ultrapassa a imaginação. O importante é que o encantamento persiste.

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A CIÊNCIA ERRA?

       O século 20 começou com certezas absolutas – e
combateu-as a ponto de questionar a existência da própria realidade. Graças aos
físicos, o mundo ficou de pernas para o ar. A reviravolta começou com Einstein
e a relativização do espaço e do tempo. Qual rolo compressor, suas ideias vêm
influenciando a ciência e a cultura. “Relativizai-vos ou perecei”, ameaça a esfinge
da modernidade, segura da inexistência de um Édipo para enfrentá-la.
     No início do século 20, a Via Láctea significava
o limite do cosmo. Hoje, as imagens do telescópio Hubble revelaram duzentos
bilhões de galáxias. A Terra havia perdido a primazia do centro de tudo, o Sol
não se aguentou no trono por muito tempo, a Via Láctea, menos ainda. E nós, os
seres humanos? De queda em queda, de donos do paraíso terminamos alijados para
um cantinho insignificante do infinito. Resumindo, os físicos nos degradaram, isto é,
degredaram, do absoluto para o nada. Viramos pó. Infinito em pó.
     A insignificância humana contaminou vários
pesquisadores que decretaram o fim das próprias atividades. Depois da
guilhotinada na história feita por Fukuyama, uma idiotice, a ciência também subiu ao cadafalso.
Seus carrascos são ganhadores do Nobel e frequentam a mídia com a desenvoltura
de atores de Hollywood. Gente famosa como Stephen Hawking, Steven Weinberg,
Richard Dawkins e Francis Crick afirma, às claras ou nas entrelinhas, que o
conhecimento está completo em suas linhas mestras. Resta para as gerações
futuras o trabalho de botânicos, ou seja, a busca paciente de espécies de
informação para enquadrá-las nos grandes reinos, filos e classes hoje
definidos. Doravante a ciência vegetará. Adeus, grandes avanços. Adeus,
revoluções.      
     Arroubos à parte, essa visão pessimista – e
triunfalista ao mesmo tempo – tem fundamento? Na verdade, não. O argumento de
que, nas últimas décadas, nada básico se acrescentou à física ou à biologia não
exclui, em princípio, a abertura de novos reinos ou filos na taxonomia da
natureza.
     A morte súbita da ciência, decretada à revelia,
desprovida de elementos para avaliação é, portanto, mero palpite – e palpite
não falta entre os cientistas, de resto seres mortais e sujeitos a erros. Em
alguns congressos, eles divagam mais que amigos em mesa de bar depois da décima
dose. Costumam discutir sexo de anjo com candura bizantina. No Japão,
pesquisaram durante anos a influência das nadadeiras do tubarão na geração de
maremotos.
     Do debate em questão fica, se tanto, o benefício da
dúvida. A mecânica quântica, que maneja a incerteza com perícia, bem poderia
dar-nos uma resposta sobre o próprio fim, aliás, incerto como o início de tudo.
Como a resposta não existe, retomo o degredo humano para um cantinho sem
atrativos do Universo, imposto pelos cosmólogos. De relativização em
relativização, de probabilidade em probabilidade, viramos nada. Há algo mais
absoluto que o nada?
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