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A ARTE ENTRE CERVANTES E SHAKESPEARE

 

Admiro a arte, todo tipo de arte, da escultura à pintura, da música à dança. Frequentei espetáculos, exposições e museus em diversos países. Escrevi dois romances que acompanham os movimentos de composições, uma de Bach, outra de Albinoni. Em outro romance, contei como é gostoso comer um quadro de Pollock.

No entanto, somos seres feitos de palavras. A palavra moldou nosso cérebro, literalmente. Ela lubrifica nossos neurônios, com ela nos comunicamos a maior parte do tempo, sobretudo através dela transmitimos nossa experiência, nossa história, nossos acertos e erros. A palavra criou-nos, e a literatura é a quintessência da palavra. Somos, em suma, fruto da literatura. Disseram, inclusive, que Shakespeare inventou o humano, feito digno dos grandes heróis míticos. O Velho Bardo desacorrentou Prometeu.

Preocupa-me a importância cada vez menor que temos dado à literatura no Brasil. Ficamos menores, cada vez mais pobres intelectualmente, mais tacanhos. Cada vez mais, cultuamos a mediocridade. A cultura da mediocridade leva à mediocridade da cultura.

Sim, claro, existem investimentos do Estado em livros, há campanhas de leitura, porém são atividades pontuais, efêmeras. No Brasil de hoje, a cultura não dura. O país se guia pela mídia e pelos grandes mecenas, e a mídia e os grandes mecenas relegaram a literatura a plano secundário, como se pudéssemos prescindir das palavras, como se computadores e televisão vivessem sem palavras, como se ideias surgissem sem palavras, como se o futuro brotasse sem palavras, como se a reflexão sobre o ser humano acontecesse sem a literatura.          Até os jornais e revistas atiram nos próprios pés quando diminuem o espaço dado aos livros, ajudando a cassar o gosto pela leitura.

Diego Velázquez talvez tenha sido o mais genial pintor espanhol. Passo horas a admirar sua obra-prima, o quadro As Meninas, cuja beleza, humor e complexidade me encantam. No entanto, um contemporâneo dele, Miguel de Cervantes, escreveu Dom Quixote. Há quatrocentos anos, quem nos diz mais a respeito de seu tempo, de nós mesmos, de nossa dimensão, de nossa transitoriedade e permanência, de nossa fantasia, de nossa humanidade? Quem? Velázquez ou Cervantes?

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AS CARTAS NÃO SÃO JURÁSSICAS

                                                                       Para Caio Riter
Admiro as cartas longas, sem rumo,
esparramadas, igual conversa de botequim. Admiro a capacidade de transformar o
assunto mais corriqueiro em arte e fazer a vida saltar para dentro das
palavras. Crônicas para uma só pessoa.

Sou uma lástima com as cartas. Por mais
que me esforce, não sei escrevê-las. Além da falta de talento, fico telegráfico
nas observações, consequência talvez dos emails, um vício. Minhas frases
rangem como um edifício prestes a desmoronar, depois de empilhadas fora de
ordem e de prumo. As idéias com frequência se superpõem, patinam, derrapam, sem saber para onde seguir. Repito-me na falta de assunto.

Considero as verdadeiras cartas
entidades misteriosas. Vestem as mais diversas roupagens. Ora parecem monólogos
endereçados aos outros ou diálogos de loucos consigo mesmos, ora almas que se
autopsicografam, ora corações transplantados para os miolos ou confissões de
seres que nos habitam quando a vigília cochila. Veículos de prazer, dor,
amizade e intercâmbio, abordam desde a declaração de amor até o lamento do
suicida. Possuem o perfume genuíno de nossa humanidade.

Hoje nos dedicamos pouco às cartas,
porque talvez demandem paciência e reflexão, dois bens escassos. Falta, também,
quem nos escute com atenção. Vivemos sob o signo da pressa, à qual o telefone e
o computador atendem tão bem. Afastamo-nos de nós mesmos e dos outros quando
nos imaginamos mais próximos. Próximos dos corpos, distantes do coração.
Revolver profundezas saiu de moda.

Por esse motivo, um amigo que cultiva
as cartas se julga jurássico. Escreve-as “para se dar conta de nós, do mundo,
dos sentimentos e sensações que se vão dentro de nós, empurrando-nos para a
frente… e comungam de uma mesma vontade de encher o mundo de boas
perplexidades”. De tão inspirados, seus textos me parecem estar por aí desde sempre,
aguardando quem os captasse. Sua caneta é a antena de recepção.

 Invejo-lhe a capacidade de imergir na condição
humana através da trivialidade, de falar da alma com a leveza de quem brinca
com um dominó de palavras. Cartas não são jurássicas, tampouco seus cultores
têm a ver com dinossauros. Elas sobreviverão ao cometa da pressa e das
mensagens curtas, escaparão à cratera da insensibilidade. Porque nos conduzem,
pelas trilhas de nossa humanidade, ao horizonte de nós mesmos.

                                                                                 

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