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A FICÇÃO MOLDA A REALIDADE?

Não custa repetir: a leitura muda o cérebro, tanto no funcionamento quanto na estrutura física. É o que dizem os neurocientistas. Quando lemos muito, sobretudo obras de ficção (romance, novela, conto, poesia), percebemos melhor o mundo a nosso redor, melhor nos adaptamos aos desafios, melhor nos saímos com o sexo. Até no sexo, quem diria. É fato: bons leitores e boas leitoras arrumam parceir(a)os com maior facilidade. Tem mais: o cérebro dos que leem muito também custa mais para envelhecer.
Sim, a leitura de romances, contos e novelas é um tipo de seguro de vida, quase uma garantia de que provavelmente chegaremos à velhice com boa saúde mental. Dois estudos recentes feitos nos Estados Unidos comprovaram, uma vez mais, esses benefícios.
O primeiro estudo, executado na Universidade Tufts, em Boston, demonstrou que a leitura desenvolve melhores circuitos cerebrais, isto é, constrói um tipo de via expressa no cérebro por onde os impulsos elétricos circulam com maior velocidade que nas pessoas que não leem. Em outras palavras, quem lê raciocina mais rápido.
A outra pesquisa, feita na Universidade de Stanford, na Califórnia, constatou que, nos leitores assíduos, os neurônios, sobretudo os do hemisfério esquerdo do cérebro, custam muito mais para envelhecer. Esse benefício não acontece com pessoas analfabetas ou pouco chegadas aos livros, diz o resultado final. Uma pena.
Resumindo a questão: além de raciocinar mais rápido, quem lê raciocina por muito mais tempo e com melhor qualidade. Como costumo dizer, leitura é uma questão de saúde pública. Só falta descobrirmos o óbvio.

 

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A BANALIDADE DO FÁCIL

 

 

Ainda louvamos, no Brasil, a cultura do fácil. Se é fácil, é bom. Se não faz pensar, é ótimo. Se apenas diverte, é genial. Se não exige neurônios, merece os altares. Se anestesia, leva ao paraíso. Acreditamos que entretenimento é cultura, banalidade é conhecimento, superficialidade é panaceia, e isso basta para o sucesso do país e das pessoas.

Detestamos as ideias, o debate, o raciocínio. São inoportunos, sugadores de massa cinzenta, ladrões do tempo que poderíamos dedicar às telenovelas ou aos games. Dizemos que ciência, política e filosofia não enchem a barriga, só a cabeça. Se alguém fala de problemática, rimos, brandimos a solucionática, mas não sabemos o que é isso. Na escola, rechaçamos os professores mais exigentes, pedantes cobradores da aprendizagem, fazemos abaixo-assinados para removê-los. Na mesma linha, criticamos os alunos mais dedicados. Destoam da vulgaridade.

Nosso gesto perpetua a desinformação, gera desinteresse pela atualidade, alheia-nos da evolução, afasta-nos da excelência. Em última análise, cortejamos o subdesenvolvimento. Graças à cultura do fácil, tornamo-nos incapazes de discutir, refutar, propor, identificar mentira e manipulação, combater a roubalheira, ter opinião própria, cobrar direitos, ser cidadãos. Resultado: assumimos, há tempos, complexo de inferioridade frente ao resto da Terra, justificado pelas nossas tão alardeadas ignorância, despreparo, incompetência e corrupção, subprodutos da cultura do fácil. Perdemos nosso amor-próprio. Morremos de nosso próprio veneno, a perpétua louvação da mediocridade.

A cultura do fácil obriga-nos a adiar problemas há muito carecendo de solução, das chacinas às reformas de leis obsoletas, das balas perdidas ao comércio de drogas, da má distribuição de renda à falta de serviços públicos razoáveis, do abuso dos impostos à corrupção em todos os níveis de governo. Vivemos hoje dois exemplos contundentes: em vez de cortar os gastos, o governo propõe aumentar impostos. Em vez de encerrar de vez a contribuição de empresas a campanhas políticas, o Congresso a mantém e cria o doador anônimo.

Um dos efeitos mais perversos dessa atitude é o pouco valor que temos dado à vida humana no Brasil. Os cadáveres da pobreza, da negligência, da violência urbana, da ausência do Estado e da impunidade chegam às nossas casas com a regularidade de A Voz do Brasil, aliás viraram a marca de um Brasil sem voz. A cultura do fácil prefere adiar o problema em vez de enfrentá-lo. A mediocridade vive de sofismas e tautologias.

O desenvolvimento de uma ideia, projeto ou nação implica a consideração de muitas variáveis e, com frequência, admite mais de uma solução. Qual a mais benéfica? Qual a mais duradoura? Qual produz menos efeitos colaterais? Corremos o risco até de errar na análise, porém precisamos encarar a complexidade. Para isso, o primeiro passo é o abandono da cultura do fácil.

Eis o difícil.

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Entre a razão e a emoção, com qual você fica?

      O que nasceu antes, a razão ou a emoção? Se você respondeu a emoção, acertou. A emoção precede a razão. Quanto mais desenvolvemos as emoções, melhor raciocinamos. Muita gente sabe isso por instinto, mas faltava comprovar cientificamente. A comprovação foi feita por neurocientistas nos Estados Unidos, na Europa e aqui no Brasil.
    Agora, faço uma provocação: o que é a literatura senão pílulas concentradas de emoção? Dessa simples pergunta, conclui-se que quem lê bastante ficção raciocina melhor. Isso de fato acontece. Outro estudo sobre o cérebro explicou o motivo. Nossa mente não distingue bem a diferença entre a realidade e a fantasia escrita nos livros. Para o cérebro, são quase a mesma coisa o enredo de um romance e um episódio que estivéssemos de fato vivendo. Resultado: aprendemos muito com a fantasia, o que nos ajuda a raciocinar melhor.
     Como se essas vantagens já não bastassem, a leitura ainda lubrifica as estradas de neurônios que produzem os pensamentos, transformando-as em verdadeiras autopistas de grande velocidade. Tanto é verdade que, num estudo recente, constatou-se que os analfabetos e os pouco letrados não ganham o benefício da agilidade dos impulsos neuroniais.
      Uma pena que isso aconteça. Como se vê, o analfabetismo é duplamente cruel com as pessoas, social e mentalmente. Resumindo a questão: se você quer maior rapidez de pensamento busque o entretenimento. O entretenimento da leitura. Ninguém sai o mesmo de um bom livro.
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