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Boeing em queda livre

O avião canadense decolou de Seoul, na
Coreia do Sul, para Vancouver, no Canadá, às cinco da tarde. Quase trezentas
pessoas a bordo. Minha mulher e eu ocupávamos a penúltima fileira, à frente de
um simpático casal de portugueses. Quando íamos jantar, o piloto ordenou que
aeromoças e passageiros se assentassem e afivelassem os cintos. Havia forte turbulência
pela frente.
          O que se seguiu não foi turbulência,
mas um rodeio de peão em cima de touro bravo. O Boeing 777 despencou sobre um colchão
de ar duro, sofreu um baque, subiu, caiu, adernou à direita, estremeceu, subiu
de novo. Então veio a queda livre. Sem fim. Depois de bater no fundo, pela
janela vi o avião literalmente bater as asas para voar. Elas quase se dobravam
e tocavam uma na outra. Moviam-se quais as de um pássaro ferido, prestes a entregar
os pontos. Maleiros se abriram, objetos tombaram, garrafas caíram, vidros se
espatifaram. Nesse momento, aconteceu o primeiro grito de pavor.
          Dizem que o pânico contagia. Sim, é
verdade. Em questão de segundos, o avião inteiro berrava, uivava, gania,
clamava aos céus. Parecíamos viver os últimos momentos. Olhei para minha mulher.
Ela cruzara as mãos e, cabisbaixa, as apoiara entre as pernas. Brinquei, para
espantar o medo:
          – Puxa, meu bem, nunca imaginei que
iríamos morrer no meio do Pacífico…
          Seu olhar me queimou mais que fogueira
da Inquisição.
          Durante outro mergulho sem fim, o
português no banco de trás se rendeu ao terror:
          – Mariiiia, desta vez fomos!
          Não, não fomos. Novo baque, nova sobrevida,
nova queda:
          – Mariiiiiiiiaaa, desta vez vaaaamos!
Adeus, Mariiia!
          – Adeus, Manoel, amor meu!
          Olhei para o lado. Um garoto coreano rolava
seu carrinho Matchbox sobre os assentos, alheio à balbúrdia, alheio ao medo, alheio
até à mãe, que se descabelava.
          De repente, tudo acabou. Melhor
dizendo, acabou a turbulência. Sobrevivemos. Vi o céu – o belo céu deste mundo
em fim de tarde.

          Não consegui jantar. Meu assento
ficava junto aos banheiros, a fila era enorme, e várias pessoas exalavam o mau
cheiro de quem não se segurara. Havia manchas nos traseiros. Ninguém se sentiu
constrangido. O preço era baixo para tanto alívio.            
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