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QUEM TEM MEDO DE UM ATEU?

Há alguns escritores que, pela competência, permanecem bem vivos na literatura depois que morrem. Outros, ainda mais importantes, ficam pela competência e pela coragem.

Tal foi o caso do inglês Bertrand Russell, prêmio Nobel de Literatura em 1950, autor que deixou uma vasta obra, sem falar em sua atividade pacifista e no fato de ele ter sido um dos grandes matemáticos do século 20.

Um dos livros mais conhecidos de Bertrand Russell é Por que não sou cristão, onde ele aponta os motivos pelos quais não acreditava nas promessas do cristianismo e, mais além, expõe por que defendia o ateísmo.

Russell, grande lógico que era, destrinça os argumentos usados para as defesas do cristianismo e de Deus e chega a conclusões arrasadoras, tão arrasadoras que muito se escreveu contra ele. Muito mesmo. Alguns de seus debates foram antológicos. Os adversários se calaram.

Imagino que, mesmo nos dias de hoje, um escritor brasileiro teria dificuldade de publicar aqui, em primeira mão, um livro tão contundente quanto Por que não sou cristão, em função de nossas tradições religiosas. Acontece que o livro se baseia numa palestra feita na Inglaterra em 1927, portanto há quase 90 anos. Provocou uma grande comoção ao sair, mas os ingleses bancaram a independência intelectual de Russell, assim como haviam feito com Darwin.

Talvez essa independência ajude a explicar por que tenhamos ficado no banco de trás, por tanto tempo, no bonde da história. Nos dias de hoje, em que o rancor religioso é pregado abertamente por determinadas seitas no Brasil, em que supostos “guerreiros de Jesus” conclamam para guerras santas, os alertas de Bertrand Russell soam absolutamente atuais. Vale a pena conhecê-los, independentemente da crença. Ateus não cobram dízimo quando tentam ajudar.

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Uma poeta de ouro

           Preste
atenção na pronúncia deste belo, sonoro e complicado nome: [viˈswava ʂɨmˈbɔrska]. Vou repetir: [viˈswava ʂɨmˈbɔrska]. Seu nome de
batismo: Wislawa Szymborska. Era escritora polonesa, nascida em 1923, ganhou o
prêmio Nobel de Literatura de 1996 por sua poesia que, com precisão irônica,
traz à luz o contexto histórico e biológico da realidade humana. Além da
ironia, ela se vale de paradoxos, contradições e reticências para investir em seus
temas preferidos, como a filosofia e o relacionamento entre as pessoas.
          Seus
poemas, em geral, são realistas, sucintos, densos, alguns com dez versos
apenas. Nesse curto espaço, ela aborda dramas existenciais e éticos que
refletem a condição do indivíduo, bem como a da coletividade, sobretudo a da
Polônia atual. Daí a alcunha de “poeta filosófica” ou “poeta da consciência do
ser”. Carimbos difíceis que não condizem com a fluidez de sua obra.
          Seu
trabalho de introspecção e sabedoria não chega a trezentos poemas, tampouco
existia no Brasil tradução de sua obra até setembro de 2011, quando a coletânea
Poemas saiu pela Companhia das Letras.
Descubra este livro. Vale a pena.
          Para
lhe trazer um gostinho de Szymborska, traduzi de Um encontro inesperado:
          A gente se trata com cortesia demais,
          ano após ano repetimos como é bom
estarmos juntos.
          Nossos tigres bebem leite,
          nossos tubarões se afogaram,
          nossos pavões renunciaram ao leque de
penas,
          nós emudecemos no meio das frases,
          cheios de sorrisos e passado.
          Por nossa humanidade,
          nós dois desaprendemos a fala.
          Como
se vê, em poucos versos ela descreve a dura realidade de muitos
relacionamentos. Na verdade, Wislawa não precisa falar muito para
dar o recado. Daí seus 300 poemas apenas. Ela morreu em 2012. Nesta semana, ela
teria completado 93 anos. Ficou a boa lembrança.
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A derrota que se transformou em vitória

Ao
conceder a Ernest Hemingway o Nobel de Literatura de 1954, o Comitê do prêmio
citou nominalmente o menor dos livros do escritor. Trata-se de uma obra tão
pequena que é usada para avaliar a rapidez de leitura nos cursos de leitura
dinâmica, onde os alunos avançados devoram suas noventa páginas em meros dez
minutos.
          Que livro é esse? Trata-se do polêmico
O Velho e o Mar, a epopeica captura
de um marlim com mais de cinco metros pelo cubano Santiago, nas águas do Golfo
do México. Após quase três meses sem pescar nada, Santiago se vê, sozinho, às
voltas com o fabuloso marlim que custa a dominar, para em seguida ser assaltado
por tubarões que lhe descarnam a presa, até deixar pouco mais que a espinha
dorsal do peixe. Essa espinha dorsal traria a Santiago a consagração em seu
pequeno vilarejo e, enquanto história, renderia a Hemingway extraordinária
popularidade mundo afora. Uma curiosidade: para não terminar sem peixe como
Santiago, o escritor mantinha em seu barco uma submetralhadora para afastar os
tubarões.
          Muitos críticos acharam a novela
pobre, sem rumo, assinalaram que o autor resvalava na religiosidade barata, no
monumentoso, até no plágio ou releitura de outra novela norte-americana, Moby Dick.
Outros, ao contrário, por sinal a maioria, viram em O Velho e o Mar, o toque da genialidade, a obra
que culminaria a carreira de Hemingway, inclusive garantindo-lhe o Nobel. Eu me
coloco entre os admiradores.
          O livro possui momentos de grande
inventividade, narrada no estilo simples, à primeira vista sem grandes
recursos, característico do autor de Por
Quem Os Sinos Dobram. Para tirar a teima, por que você
não avança através dessas noventa páginas de O Velho e o Mar e tira a própria
opinião? Aposto dez por um que vai gostar.

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