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DOS ANDES PARA BRASÍLIA, COM PUDOR

Os quíchuas, descendentes dos incas, formam a maior parte da população peruana. Sua língua foi proibida pelos espanhóis, que mataram muitos dos que insistiram em mantê-la. Por séculos não houve livros escritos em quíchua. Escutei este poema perto de Machu Picchu, mantido pela tradição oral, hoje traduzido para o espanhol. Parece que foi criado por um Dom Quixote dos Andes. A simplicidade faz sua beleza. O minimalismo é seu coração.

Hoje é o dia da minha partida.
Era. Hoje não vou mais, fica para amanhã.
Partirei tocando
uma flauta de osso de mosquito.
Minha bandeira será uma teia de aranha.
De um ovo de formiga farei meu tambor.
Minha montaria? Minha montaria
será um ninho de beija-flor.

O provérbio mais famoso dos quíchuas é “ama sua, ama quella, ama llulla”, ou seja: “não roubar, não ser preguiçoso, não mentir”. Já pensou se Brasília o adotasse? O Brasil viraria uma potência até nos Jogos Olímpicos.

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POESIA NÃO MORDE

 

Você não gosta de poesia? Crê que a poesia de hoje é difícil de entender, tem preguiça de percorrer os labirintos de um poema atual? Ué, sabe que eu também fico às vezes nessa sinuca de bico, sem saber que rumo tomar? A culpa não é da poesia, sempre necessária e reveladora, mas dos modismos e achismos e idiotismos adotados por alguns poetas. O resultado costuma ser, de fato, um aranzel, um desencontro de palavras, uma verborragia desprovida de sentido. E de talento.

Desconfio de que, com frequência, nem o próprio poeta saiba o que tenha dito, se é que tinha algo a dizer. A poesia é a arte do inútil, assim já a definiram. Ou a arte de dizer o indizível. Portanto precisa de arte. Arte está em sua raiz. Um poeta certa vez me confessou que desejava apenas fazer ruído com seus versos. Sim, ruído, nada mais. Compôs um zunido sem fim, sem palavras. Se esse era o objetivo, por que não gravou a barulheira do centro da cidade às seis da tarde? Teria em mãos uma epopeia. De graça.

Alguns desses embusteiros recebem louvações da mídia, que tenta nos forçar a concluir que os incensados são o ideal da arte, o suprassumo das musas, o modelo do futuro. Se saiu na mídia, é bom. Será? Somos enganados e ainda ficamos com a tristeza de desgostar de poesia, não é mesmo?

Vamos separar as coisas. Quem faz poesia assim é uma minoria. Existem grandes poetas, novos e antigos, revolucionários e conservadores, para todos os gostos, desde os que fazem grandes voos verbais aos gênios que sintetizam enciclopédias em meia dúzia de palavras. Esses não passarão feito passarinho.

Enquanto romancista, invejo a capacidade dos poetas de dizer tanto em tão pouco. Eles me tocam fundo, revelam passagens secretas entre nossos abismos interiores, tiram o peso do corpo e da alma, abrem avenidas para o pensamento, questionam ideias, expõem conflitos, revolvem nossas entranhas, oferecem momentos de graça, vislumbram o paraíso. O mundo é feito de poesia. O bom poeta sabe disso e a garimpa onde menos esperamos. Arranca-a da pedra, do caminho, do asfalto, da vida. O resultado é puro deleite, puro fascínio, pura poesia. Poesia não morde. Às vezes dói. Mas sempre encanta.

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PEDRAS NO CAMINHO

 

 

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Assim Carlos Drummond de Andrade inicia seu famoso poema, escandaloso para a época da publicação, tanto que o poeta se divertiu ao compilar e publicar 194 páginas de descomposturas indignadas contra os dez versos de No Meio do Caminho.

Drummond é uma quase unanimidade nacional como nosso poeta maior. Capturou o mundo, vasto mundo em palavras e versos, com e sem rima, que, décadas afora, não envelhecem e continuam falando como dois olhos que acordam os homens. Tinha apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Ajudado pelas lembranças de Minas Gerais, casas entre bananeiras, pomar amor cantar, a fotografia na parede, deixou as culpas no caminho e a luta vã com palavras, ferramentas que o consagraram.

Nesta semana me lembrei muito de Drummond. Da sua pedra no meio do caminho. Havia uma pedra no meio do meu caminho. Ou melhor, duas. Pedras no rim. Não são fotografias na parede, ai, mas como doem.

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DE ONDE VÊM OS POEMAS?

MUSA ANTIGA

 

A camisa no cabide

me encara

indaga há hora e meia

por que dela me ocupo

se sobram trabalhos e dias

escuto carros, makitas zoam

homens fecham negócios, buscam comida

crianças estudam, aviões passam

em silêncio e grito

o manso e o aflito

se atiram na vala comum

da vida

sorrio para a camisa marrom

no cabide de enganos

e escrevo Hesíodo

no mesmo tom, mesma virtude e azar

para gregos e troianos

sou Pierre Menard

há dois mil e setecentos anos.

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A DOR DOS ARGENTINOS E DOS SERTANEJOS

Agora que o papa é hermano e os argentinos são notícia por causa das eleições presidenciais, pergunto-me qual livro melhor representaria o querido país vizinho. Minha escolha coincide com a de muita gente, inclusive a de Jorge Luis Borges, genial autor cujas obras mereceriam a honraria.

Assim, fico com o livro Martín Fierro, escrito por José Hernández na década de 1870. Faz, portanto, quase um século e meio que Martín Fierro encanta nossos hermanos. Ele aborda as lutas, golpes, perseguições, dores, amores, aventuras e desventuras do habitante das grandes pradarias dos nossos vizinhos, o gaúcho. Sim, é gauchesca a obra mais característica dos hermanos, com direito a todos os ingredientes do gênero, da honra desmedida ao machismo e à dor de cotovelo.

Trata-se de um longo poema, quase 1200 sextetos entremeados de composições mais longas, com rimas bem sonoras, bem ricas, na linguagem típica do gaúcho que era malquisto e malvisto pela aristocracia do país, mas que possuía um espírito cheio de orgulho e força, com uma filosofia marcada pela vicissitude.

José Hernández conhecia bem seu personagem, pois viveu próximo a ele desde a infância, a ponto de confundirem-se criador e criatura. Mergulhar em Martín Fierro é voltar no tempo, é pressentir as letras que fariam sucesso com o tango décadas depois.

Martín Fierro recupera um modo de vida que hoje em dia faz sucesso entre os fãs dos rodeios de Barretos, em São Paulo. Aliás, os sextetos de Martín Fierro facilmente se transformariam em música sertaneja, porém com qualidade muito superior àquela que a gente ouve. Infinitamente superior, diga-se de passagem.

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DRUMMOND 113 MEMÓRIAS

 

 

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Assim Carlos Drummond de Andrade inicia seu famoso poema, escandaloso para a época da publicação, tanto que o poeta se divertiu ao compilar e publicar 194 páginas de descomposturas indignadas contra os dez versos de No Meio do Caminho.

Drummond é uma quase unanimidade nacional como nosso poeta maior. Autor de obras como Rosa do Povo, Claro Enigma, Sentimento do Mundo e Boitempo, além da prosa em Contos de Aprendiz e Fala, Amendoeira, o mineiro de Itabira capturou o mundo, vasto mundo em palavras e versos, com e sem rima, que, décadas afora, não envelhecem e continuam falando como dois olhos que acordam os homens.

Para quem deseja degustar Drummond, há uma Antologia Poética, por ele organizada, que oferece uma boa introdução a seu trabalho. Ele tinha apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Ajudado pelas lembranças de Minas Gerais, casas entre bananeiras, pomar amor cantar, a fotografia na parede, enquanto deixava culpas no caminho e a luta vã com palavras, reuniu as ferramentas para consagrá-lo. Há muita memória em sua obra.

Hoje me lembrei de Drummond. Amanhã ele faria 113 anos. Pois de tudo fica um pouco. De Drummond, fica muito. Fica toda a poesia que nos encanta. Fica tanta memória. Mesmo que ele não gostasse dela.

 

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

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A Lua, minha sombra e eu: três solidões

     Como
se fala da China… Queda da bolsa de Xangai, redução das importações, economia em crise, falta de democracia, capitalismo selvagem… Pouco se fala de sua
poesia. Ela teve um chamado “período de ouro” durante a dinastia T’Ang, que governou o país entre os anos 618 e 907, desenvolveu a impressão de livros com
blocos de madeira e expandiu a Rota da Seda rumo ao Ocidente. 
       A China venera
até hoje esses poetas que viveram há 1300 anos. Eles são muitos, mas
dois se destacam: Li Po e Tu Fu, grandes amigos, bravos guerreiros que
arriscaram a vida em muitas batalhas, beberrões incorrigíveis e, apesar dos
estilos diferentes, mestres de uma poesia visual, à flor da pele.       
      Li Po e Tu Fu escreveram
verdadeiras pinturas, cheias de cor e detalhe, capazes de penetrar fundo na natureza
e na alma. Uma pena que suas obras percam a sonoridade interna com a tradução.
Tu Fu esmerou-se na descrição dos efeitos da guerra. Ele diz:
          
          Um cavalo branco aparece do nada,
          Esbaforido de medo,
          A sela vazia atravessada por 3
flechas.
          Onde está o cavaleiro,
          Para que a vã coragem
          Que lhe ofereceu o calor da guerra
          E o levou ao frio da morte?
          
          Li
Po gostava do vinho e da Lua. Uniu esses prazeres numa bela composição:
         
          Entre as flores do jardim,
          Copo à mão,
          Bebo sozinho.
          Os amigos partiram,
          Não sei onde estão.   
          Ergo um brinde à Lua cheia.
          A Lua, minha sombra e eu,
          Três solidões.

     
       Cecília Meireles legou-nos algumas traduções de Li Po e Tu Fu, três vezes inspiradas pois
junta sua criatividade à dos dois poetas chineses. Não são três solidões. São três encantos. 
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A ETERNIDADE, O POETA E O QUASAR

     A mente humana há muito se ocupa com a eternidade:
se existe, o que significa, qual o caminho até ela. As eternidades são muitas,
algumas bastante breves. Para diversos insetos, como as efeméridas que se
tornam adultas no quarto minguante, a Lua cheia talvez seja o exemplo acabado
do tempo infinito, pois morrerão antes do crescente. E para nós, o que é a
eternidade? Uma espera aborrecida de uma hora no ponto de ônibus no meio da
chuva, os dias que não passam entre um e outro encontro de amantes, um século,
um milhão de anos?
      O título desta crônica não esconde uma mensagem cifrada.
Li Po (701-762) é um grande poeta chinês da dinastia T’ang que conseguiu,
através da justaposição inspirada de ideogramas, a ambiguidade de vários poemas sobrepostos em cada um deles, todos merecedores de permanência na memória comum da
humanidade. Hoje, doze séculos após sua morte, ainda podemos captar seu estado
de espírito em meio à natureza que tanto amou, na vizinhança da montanha
Tai-t’ien:
“À margem do riacho, não escuto os sinos do
meio-dia.
Bambus selvagens retalham o firmamento.
Cascatas dependuram-se no abismo verde.
Ninguém sabe por onde você anda.
Triste, busco apoio no tronco de um pinheiro”.
     Seria Li Po eterno?
     OQ 172 designa um dos mais distantes objetos
celestes já detectados, um quasar nos confins do Universo, pertinho do Big Bang
onde tudo nasceu. Sua luz partiu quando não existiam seres humanos, tampouco a
Terra ou o Sol. A longa viagem avermelhou os fótons, enfraqueceu-os, tornou-os
quase imperceptíveis. Eles testemunham, entretanto, uma experiência que ainda
não compreendemos direito, a do espaço e do tempo condensados numa partícula
ínfima que, à semelhança de um poema de Li Po, fomenta múltiplas
interpretações. O quasar talvez não mais exista há bilhões de anos, porém só
agora tomamos conhecimento de sua longínqua presença. É como descobrir ainda
bebê um velho que já morreu.
      OQ 172 seria um símbolo do eterno?
      A eternidade não mora apenas na poesia ou na física,
mas em tudo que nos encanta. A aventura humana, apesar de curta em termos
cosmológicos, está cheia de exemplos. E a vida se torna mais prazerosa à medida
que penetramos nos meandros dessa aventura. Cada pessoa que nos precedeu legou
sua eternidade, e nossas próprias experiências construirão outras. Por que não
viver com gosto, o nosso e o alheio?
      Em outro poema, Li Po acompanha um amigo que se
afasta num barco:
“A sombra de sua vela solitária desvanece no vazio
Agora resta apenas o Grande Rio a caminho do céu”.
     
      Este Grande Rio talvez não consigamos entender durante
a vida, porém Li Po e OQ 172 são trechos dignos de percorrer, nos quais a arte
e a ciência – filhas gêmeas do gênio humano – nos ciceroneiam através de mundos
novos e, ao mesmo tempo, antigos. Melhor dizendo, mundos eternos. 
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UMA LÉSBICA MARAVILHOSA

          Você tem medo da erudição e do amor
gay? Detesta, por exemplo, livros com citações de dezenas de autores, em
diversas línguas, odeia falar sobre uma poeta morta há dois mil e tantos anos
que, para complicar as coisas, escrevia em grego e era lésbica? Você
mergulharia numa obra que compara a linguagem de um poema escrito seis séculos
antes de Cristo com a linguagem em voga dois séculos antes e dois depois de
Cristo, mais as críticas feitas a esse poema nos tempos medievais e modernos?
Você perderia tempo com a palavra grega hetaira
que, em quatrocentos anos, deixou de significar “amiga e companheira” para
virar “prostituta”? Você acha tudo isso discussão de sexo de anjo?

          Se você tiver um pouco de paciência,
essa erudição pode se transformar em grande prazer. Por acaso, caiu em minhas
mãos o livro Eros, Tecelão de Mitos,
da Editora Iluminuras, escrito pelo poeta e erudito Joaquim Brasil Fontes, no
qual ele resgata a poesia de Safo de Lesbos.

          Sim, ela mesma. Safo de Lesbos, a
grega que enaltecia o amor entre as mulheres. Gay assumida. Com ela nasceu a palavra lésbica. Faz dois mil e
seiscentos anos que Safo encanta e assusta as gerações. A julgar pelo falso moralismo
atual, hoje a apedrejariam. Era grande poeta. Sensível, sintética, terna, profunda.
Pena que muito de sua obra se perdeu. Joaquim Fontes, sem trocadilho, bebe nas
fontes originais e oferece os versos sáficos no ponto de consumo, no melhor
estado de conservação possível.

          Além da beleza intrínseca da obra de
Safo, em que a paixão e o cotidiano se mesclam, a cultura do autor de Eros, Tecelão de Mitos nos proporciona momentos de
deleite e informação. Para completar, voamos ao passado e conhecemos a vida de
quase três milênios atrás.

          Erudição não é bicho papão. Muito
menos Safo de Lesbos. Sua poesia, corriqueira na Grécia, era curtida pelo povo.
Perdemos nós o requinte intelectual ou adquirimos um prurido moralista idiota? Pior
ainda: aconteceram-nos ambas as coisas?        
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Uma voz da África

      Você já
ouvir falar no escritor Akinwande Oluwole Soyinka? Não? Pois não se envergonhe.
Pouca gente, no Brasil, sabe quem ele é. Mais conhecido por Wole Soyinka, tem oitenta
anos, aparência de setenta, e foi o primeiro africano a ganhar o Prêmio Nobel
de Literatura, graças a uma obra que “numa perspectiva cultural bastante ampla,
com toques de poesia, aborda o drama da existência”.
          Nigeriano, nascido numa família iorubá
influente, Soyinka estudou na Inglaterra e, além de escrever romances, poemas e
peças de teatro, tornou-se ativista político e lutou contra as ditaduras
nigerianas e o apartheid
sul-africano. Como escrever é perigoso, Soyinka foi preso. A prisão lhe deu
munição para escrever mais ainda.
          Em suas obras, Soyinka contrasta a
sensibilidade dos poemas com a complexidade dos romances, comparados aos de
Faulkner e Joyce. Seu trabalho traduzido mais divulgado “É Melhor Partires de Madrugada”, coleção de memórias, só é encontrado
em Portugal. Infelizmente
as editoras brasileiras lançaram aqui apenas uma de suas obras: a peça teatral “O leão e a joia”, publicada pela Geração
Editorial.
          Para lhe oferecer um gostinho da
poesia de Soyinka, traduzi parte de seu poema “Dedicatória”. Aqui está:
          Umedece
teus lábios com sal,
          que não seja o de tuas lágrimas.
          Esta chuva-água é presente dos deuses
          — bebe sua pureza, frutifica na hora certa.
          Leva, pois, os frutos à boca,
          corre para devolver o milagre de teu nascimento.
          Cria marés humanas como as ondas,
          imprime tua lembrança nas areias que ainda guardarão
fósseis.

          Todo
escritor gostaria que suas palavras virassem fósseis. Fósseis são pedras,
resistem ao tempo, dialogam com a eternidade. É o caso de Wole Soyinka.

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Poesia morde?

       Você
não gosta de poesia, acha a poesia de hoje difícil de entender, tem preguiça de
percorrer os labirintos de um poema atual? Uai, sabe que eu também fico às
vezes nessa sinuca de bico? A culpa não é da poesia, sempre necessária e
reveladora, mas dos modismos adotados por alguns poetas. O resultado costuma
ser, de fato, uma confusão, um desencontro de palavras, uma verborragia
desprovida de sentido.
          Desconfio de que, com frequência, nem
o próprio poeta saiba o que tenha dito, se é que tivesse algo a dizer. Um deles
me confessou que desejava apenas fazer ruído. Sim, ruído. Se esse era o
objetivo, por que não gravou a barulheira no centro da cidade às seis da tarde?
O interessante é que alguns desses gajos recebem louvações da mídia, que tenta
nos forçar a concluir que são o ideal da arte, o suprassumo das musas, o modelo
do futuro. Somos enganados e ficamos com a tristeza de desgostar de poesia, não
é mesmo?
          Vamos separar as coisas. Quem faz
poesia assim é uma minoria. Existem grandes poetas, novos e antigos, para todos
os gostos, desde os que fazem grandes voos verbais aos gênios que sintetizam
enciclopédias em meia dúzia de palavras. Esses não passarão feito passarinho.

          Enquanto
romancista, invejo a capacidade de dizer tanto em tão pouco. Os poetas me tocam
bem fundo, revelam passagens escondidas entre nossos abismos interiores, tiram
o peso do corpo e da alma, abrem avenidas para o pensamento, questionam ideias,
expõem conflitos, revolvem nossas entranhas, oferecem momentos de graça e vislumbram
o paraíso. O mundo é feito de poesia. O bom poeta sabe disso e a garimpa onde
menos esperamos. Arranca-a da pedra, do caminho, do asfalto. O resultado é puro
deleite, puro encantamento, pura poesia. Poesia não morde. Afaga.

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Literatura pra quê?

      Por
que você lê? Lê porque quer se divertir, se entreter, passar o tempo? Talvez
buscar a beleza do texto, fruir a criatividade, estimular seu senso estético?
Você lê para adquirir informação, aumentar o conhecimento? Deseja, quem sabe,
trocar umas horas de seu dia pela sabedoria que um escritor levou a vida
inteira para adquirir? Ou é dos que gostam de viagens no tempo e no espaço, de
grandes fantasias, de enredos que percorrem o mundo inteiro, epopeias que
atravessam gerações, envolvendo a história de continentes e mares? Ou pertence
à tribo dos fãs do horror, dos vampiros, dos magos, dos que mudam a realidade
com o toque do poder sobrenatural? Talvez prefira contos, histórias curtas que
nos pegam pelo pé e pela cabeça, com finais muitas vezes surpreendentes? Ou
você adora poemas, esses voos da alma sintetizados, com frequência, num verso
genial que a gente nunca esquece?
          Não importa a sua preferência, há
sempre um livro que vai acertar em cheio no seu gosto, vai seduzi-lo, vai
encantá-lo. Você pode comprar, pedir emprestado a um amigo, retirar na
biblioteca, baixar no tablet ou no celular. O livro sempre está perto de você,
para lhe acrescentar alguma coisa. Tudo que exige é um pouco de tempo e de
atenção. Ele é o requinte maior que o ser humano desenvolveu, o fruto maior do
cérebro. Abraça o universo, traz nossa alma, sentimento, desejo, sonho.

          O livro
somos nós do jeito que viemos ao mundo, nus, deliciosamente humanos,
fragilmente mortais em todos os séculos, mas capazes de saborearmos um
pouquinho da eternidade. A eternidade fugaz de um livro diante dos olhos.  

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Shakespeare era gay?

      Ser
ou não ser, eis a questão: Shakespeare era gay? Esta pergunta frequenta as
rodas acadêmicas e, de vez em quando, a mídia. Há quem o tire do armário em
definitivo, quem diga que ele, casado e pai de três filhos, sequer passou perto
de armários, há quem jure que o dramaturgo entrava e saía, com desenvoltura, de
lá de dentro. Tem Shakespeare para todo o mundo. Do jeito que gostais, diria o
Velho Bardo, com ironia. A suspeita tem várias origens. A maior aparece nos Sonetos. Dos cento e cinquenta e quatro
que conhecemos, mais da metade fala de amores do poeta por um jovem. Amor tão
profundo quanto o de Romeu e Julieta.
          O Soneto
75, por exemplo, abre com a
declaração de que o tal jovem é, para o autor e seus pensamentos, como a comida
para a vida. Nada mais explícito, certo? Não necessariamente. O fato de Chico
Buarque ter feito músicas como se fosse mulher, declarando amor aos homens, não
significa que tenha mudado sua opção sexual. Isso também vale para Shakespeare.
Ele simplesmente se teria passado por um adulto envolvido com outro homem.
          No entanto, dizem os partidários de
Shakespeare gay que o Soneto 20, no verso em que o tal jovem se torna
senhor e senhora da paixão do poeta, o compromete sem volta.

          Muito
ainda se escreverá sobre o assunto, porém jamais saberemos a verdade. Como
também diria o dramaturgo, o que importa? A incerteza move o mundo. A
ambiguidade move a literatura. Shakespeare, genial também como poeta e
manipulador da ambiguidade, trouxe a dúvida para sua vida. É um motivo a mais
para lermos seus belos sonetos.

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