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KALI, ENTRE O BEM E O MAL

 

Na Cachemira, norte da Índia, os vilarejos dependurados na Cordilheira do Himalaia parecem levitar, tão pouco se encaixam na rocha íngreme. Desafiam os terremotos e as avalanchas há séculos. Com êxito total.

Ao visitar um deles, andei vários quarteirões e só encontrei galinhas ciscando ao longo das vielas poeirentas. Nem cachorro latiu para mim. Cheguei ao monastério budista. Apesar da porta aberta, ninguém apareceu. Examinei o interior. Silêncio completo. Pareceu-me que a população tinha sido abduzida.

Em frente ao monastério havia um templo. Construção bem simples. A porta de entrada, feita de réguas, deixou-me entrever o interior cheio de pinturas estranhas. Curioso, tentei abri-la. Não consegui. Apenas uma taramela a trancava. Enfiei a mão entre as frestas. Levei um susto com a gritaria às minhas costas. O silêncio virou um deus nos acuda.

Todos os habitantes do vilarejo chegavam correndo, ao berros, gesticulando, chamando minha atenção. Removeram-me para longe da porta, eu sem entender o que ocorria. Falavam ao mesmo tempo no dialeto local ou num inglês claudicante. Minutos depois, descobri que eu tentara entrar no templo da deusa Kali.

Kali, a terrível, a que espalha o mal no mundo, mais mortal que o veneno de todas as jararacas, fica enclausurada naquele templo durante cem anos. Ao final do período, ela perde a peçonha, sai da prisão boazinha como fada madrinha e faz tudo o que os fiéis pedem. No entanto, se alguém liberá-la antes do prazo, ela traz as desgraças possíveis e imagináveis. Impossíveis e inimagináveis também. Foi o que eu estive a ponto de provocar. Quase abri a caixa de Pandora, na versão do Himalaia.

Pedi desculpas pela imprudência, disseram que não havia problema. Até me convidaram para a cerimônia oficial de reabertura do templo. Será em 2050. Acho que sei onde vou comemorar meus cem anos. Kali, em sua porção boazinha, que me garanta até lá.

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