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PAIXÃO, OUTRO MODO DE USAR

 

 

A paixão conduz a vida. Literalmente. Ela leva à procriação, que nos perpetua no mundo. Mas existem outros tipos de paixão, às vezes tão avassaladores quanto uma noite no motel. Conheci pessoas que amavam os livros mais que os parceiros de cama – e nunca se arrependeram. Livros, para elas e para eles, são pura libido. Imagino suas cantadas em Dom Casmurro: “Passas a noite comigo, tesouro?”. Dom Casmurro nunca teve a escolha de dizer não, a homem ou mulher.

Entre estes libidinosos, estão três ex-professores de literatura. O mais velho, em discurso inflamado, incensava o vocábulo “que”, que se presta a tanto uso e carrega versatilidade única, capaz de, entre outras coisas, unir ideias díspares e, com toque de vara de condão, ordenar o discurso. O segundo, detrator do “que”, esmerava-se para mostrar a lógica interna do português, espalhada nas regras e nas sutilezas da língua, onde arte e ciência se mesclam. Língua remete ao amor: seduz e deixa-se seduzir. Além disso, captura o tempo, digere-o, incorpora-o e evolui com ele. Como não incluí-la entre as paixões? O mais jovem dos mestres me apresentou a Shakespeare, destrinçou seus meandros, deixou-me a impressão de que jamais deveria escrever diante da beleza sufocante do texto do Velho Bardo. Custei a me livrar da angústia da influência, com direito a frequentes recaídas.

Os três professores contagiaram-me, garoto que lia e rabiscava histórias. Domar palavras, desde cedo, transformou-se em ofício, paixão erótica. Se o sexo, no auge da fusão, exige sobretudo o corpo, a criação, a qualquer momento, requer corpo, mente e alma. Daí sua durabilidade, daí sua resistência, renovada em cada romance, em cada criança de palavras que concebemos e trazemos ao mundo. A escrita, durante a gestação que, em geral, leva mais de nove meses, não apresenta o exagero de testosterona para o qual a natureza nos preparou durante milhões de anos, entretanto a orgia verbal pode ser transmitida, multiplicada em cada leitor e fala-nos ao cérebro e ao coração.

Os muito comedidos que me perdoem, mas paixões são fundamentais. Com sua ajuda, o ser humano evolui sobre a Terra. Elas conduzem a vida. À vida também.

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O INVENTOR DO SONETO

Quem é considerado o pai do soneto, essa forma tão popular de poema com dois quartetos e dois tercetos? Por coincidência, ele também é o pai do alpinismo, o arriscado e maravilhoso esporte de escalar montanhas. Vivia nas alturas. Também por coincidência, ele teria cunhado a expressão Idade das Trevas, até hoje usada para designar a Idade Média. Por fim, é considerado o pai do Humanismo.  Quem foi este homem com tantas facetas?

Seu nome é Francesco Petrarca, um italiano de Arezzo que ficou famoso por seu Cancioneiro, coleção de trezentos e sessenta e seis poemas dedicados a Laura de Noves, bela mulher casada por quem Petrarca se apaixonou dentro de uma igreja numa sexta-feira da Paixão. Amor nascido já crucificado.

Sem poder amar Laura, Petrarca inventou o soneto e despejou neles a paixão reprimida. Conseguiu, metaforicamente, o cume da arte em alguns sonetos, quase sempre ardentes declarações de amor. Mesmo hoje, eles sintetizam a loucura do sentimento que move e perpetua o mundo.

Reproduzo abaixo um desses sonetos, dos meus preferidos. Ah, ia me esquecendo de dizer. Petrarca viveu entre 1304 e 1374, portanto o poema a seguir tem aproximadamente setecentos anos. Sete séculos de paixão ardente. Trata-se do soneto 134, traduzido por Sergio Duarte:

 

Não tenho paz, nem como fazer guerra,

Espero e temo, gelo e ardor me faço,

Alço-me ao céu mesmo jazendo em terra,

Nada possuo e o mundo inteiro abraço.

 

Minha prisão nem se abre nem se cerra,

E quem não me faz seu não solta o laço,

Amor me poupa e em seus grilhões me encerra,

não me quer vivo e nem me ajuda o passo.

 

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,

Suplico auxílio e quero perecer,

A mim odeio, alguém amando embora.

 

Mágoas me nutrem, rio estando aflito,

Tanto viver me dói quanto morrer:

Por vossa causa assim estou, Senhora.

 

Você já passou por essa profusão de sentimentos? Nunca é tarde para uma paixão. Se durar pouco, não importa. Que seja infinita enquanto dure.

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O MEU TEMPO

      No meu tempo, os verbos
amar, gostar e querer estavam tão encobertos pela crosta da urgência, da
competição e da luta pelo dinheiro, que ficavam relegados a segundo plano.
Causavam mesmo certa descrença e vergonha quando abordados. Receava-se admitir
a paixão e passar por démodé ou
louco. No entanto, ao refletir por um momento, as pessoas queriam amar, gostar,
querer – e apaixonar.
      No meu tempo, vencida a
resistência inicial, em sua maioria as mulheres amavam os homens. A recíproca
era verdadeira. Encontravam-se e desencontravam-se dentro das limitações do
convívio. Cinderelas e príncipes encantados esforçavam-se para transformar
sonhos em realidade. No
meu tempo – isso era fundamental –, todos buscavam sonhos. Sem eles, ninguém
vivia.
     Elas adoravam ser
cortejadas. Algumas, da boca para fora, negavam. Outras ameaçavam acusações de
assédio sexual, mas, na hora certa e na dose certa, rendiam-se aos galanteios.
Afinal, conduzidos pela programação ancestral, eles e elas no fundinho só
pensavam naquilo. O que, aliás, não era prerrogativa de meu tempo.
     No meu tempo, as mulheres
temiam envelhecer, pois se cultuavam a juventude, as curvas perfeitas e um
ideal de beleza que raramente acontecia na natureza. Inseguras, elas se
esqueciam de que todas queriam amar, a feia, a bela, a magra e a gorda.
Terrível palavra esta no meu tempo. Mais que cantada grosseira, mais que
xingamento, chamá-las de gorda desmoronava a personalidade, demolia o ego,
desestruturava a vida. Até as magras se julgavam obesas. Daí o cumprimento
então em voga, meio ridículo, reconheço: “Como você emagreceu, querida!”.
Adoravam ouvir isso.     
     Aliás, no meu tempo,
todas adoravam ser ouvidas (eles também, reconheço). O atalho para a conquista
passava pelo interesse genuíno em escutá-las. Em questão de minutos, eles
compreendiam quão interessantes elas eram, e uma paixão de verdade com
frequência acontecia.
     No meu tempo, os jovens
tinham muitas certezas; os de idade mais avançada, nem tantas. Os primeiros
queriam mudar o mundo; estes, mudar a si mesmos. Uns e outros raramente
alcançavam o intento.
     No meu tempo, a vida era
de uma simplicidade assustadora. Tão assustadora que se gastavam vidas na
tentativa de adicionar-lhe teses, teorias, modelos, outras vidas.
     O meu tempo, desprovido
do ufanismo e dos penduricalhos, era igual a todos os outros.

     O meu tempo é hoje.  
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Os amantes de Verona

 Em 1596, a juventude inglesa chorava o infortúnio de Romeu Montecchio e Giulietta Capuleto, o casal apaixonado de
Verona que sucumbiu a intrigas familiares e acabou cometendo suicídio.
Christopher, um adolescente de Stratford-on-Avon, inconformado com o desfecho,
decidiu reescrever a história, evitando a tragédia: os amantes se salvariam e seriam felizes
para sempre.
Ao mergulhar na escrita, criou
uma Julieta tão bela que não resistiu a seus encantos e se apaixonou pela criatura.
Desejou-a durante meses, mais próxima a cada palavra, mais palpável a cada
parágrafo, mais sua a cada capítulo. Em intensidade cada vez maior, percebeu-lhe
o aveludado do rosto, enquanto a acariciava na pele do papel. Ao luar, sentiu o
perfume de seu hálito de mel nos versos que compunha. Na cama, desnudou-a com o
carinho que a tinta conferiu ao corpo imaginado. Autor e personagem se
mesclaram até que a fronteira entre eles ruiu. Enlouquecido, Christopher
resolveu conquistar em definitivo a veronense. Abandonou Stratford e
desapareceu dentro da obra.
Uma pessoa descobriu seu paradeiro.
William, amigo e confidente, leu as páginas já escritas, ligou o fato à ficção
e entendeu o sumiço. Para comprovar, acrescentou algumas frases ao texto em
andamento e pediu notícias. A resposta brotou nas linhas seguintes, saindo do
vazio, letra a letra.
Christopher cumprimentou William pela
perspicácia, exigiu segredo a respeito do plano, contou suas andanças por
Verona, revelou que já mantinha contato com a jovem Capuleto, na realidade muito
mais bela do que supunha. Ela correspondia à corte, embora desconfiasse que talvez
tentasse usá-lo para provocar ciúme em Romeu. Desse dia em diante, sucederam-se
quatro capítulos sobre a evolução da conquista. 
De repente, a reviravolta. Christopher,
no meio da narrativa, enviou uma mensagem de desespero:
“Tire-me daqui, William. Eles vão me matar.”
Enquanto as palavras secavam, William
não soube o que fazer. A folha retorceu, cresceu para os lados, ocupou o piso e, das letras, materializou-se um corpo com dois punhais cravados
às costas. William, num tardio gesto de ajuda a Christopher, removeu as lâminas
ensanguentadas. Ao arrancá-las, notou as iniciais gravadas em cada cabo: no
mais trabalhado, coberto com cristal rosa, GC; no outro, com uma esmeralda bem
corada, RM.
William assumiu o lugar do morto e
continuou a escrever a história. Em vingança pelo amigo, quando os amantes
de Verona pareciam a um passo do sucesso, não os poupou do encontro com o
destino.
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