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A FICÇÃO MOLDA A REALIDADE?

Não custa repetir: a leitura muda o cérebro, tanto no funcionamento quanto na estrutura física. É o que dizem os neurocientistas. Quando lemos muito, sobretudo obras de ficção (romance, novela, conto, poesia), percebemos melhor o mundo a nosso redor, melhor nos adaptamos aos desafios, melhor nos saímos com o sexo. Até no sexo, quem diria. É fato: bons leitores e boas leitoras arrumam parceir(a)os com maior facilidade. Tem mais: o cérebro dos que leem muito também custa mais para envelhecer.
Sim, a leitura de romances, contos e novelas é um tipo de seguro de vida, quase uma garantia de que provavelmente chegaremos à velhice com boa saúde mental. Dois estudos recentes feitos nos Estados Unidos comprovaram, uma vez mais, esses benefícios.
O primeiro estudo, executado na Universidade Tufts, em Boston, demonstrou que a leitura desenvolve melhores circuitos cerebrais, isto é, constrói um tipo de via expressa no cérebro por onde os impulsos elétricos circulam com maior velocidade que nas pessoas que não leem. Em outras palavras, quem lê raciocina mais rápido.
A outra pesquisa, feita na Universidade de Stanford, na Califórnia, constatou que, nos leitores assíduos, os neurônios, sobretudo os do hemisfério esquerdo do cérebro, custam muito mais para envelhecer. Esse benefício não acontece com pessoas analfabetas ou pouco chegadas aos livros, diz o resultado final. Uma pena.
Resumindo a questão: além de raciocinar mais rápido, quem lê raciocina por muito mais tempo e com melhor qualidade. Como costumo dizer, leitura é uma questão de saúde pública. Só falta descobrirmos o óbvio.

 

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A arte das artes

       Admiro
a arte, todo tipo de arte, da escultura à pintura, da música à dança.
Frequentei espetáculos, exposições e museus em muitos países. Escrevi dois
romances que acompanham os movimentos de composições de Bach e Albinoni. Em
outro, falei do prazer de comer um quadro de Pollock. No entanto, somos seres
feitos de palavras. A palavra moldou nosso cérebro, ela lubrifica nossos
neurônios, com ela nos comunicamos a maior parte do tempo, sobretudo através
dela transmitimos nossa experiência, nossa história, nossos acertos e erros. A
palavra criou-nos, e a literatura é a quintessência da palavra. Somos, em suma,
fruto da literatura.
          Preocupa-me a importância cada vez
menor que temos dado à literatura no Brasil. Ficamos cada vez mais pobres intelectualmente,
mais tacanhos. Cada vez mais, cultuamos a mediocridade. A cultura da
mediocridade leva à mediocridade da cultura. Sim, claro, existem investimentos
do Estado em livros, há campanhas de leitura, porém são atividades pontuais,
efêmeras. O Brasil hoje se guia pela mídia e pelos grandes mecenas, e a mídia e
os grandes mecenas relegaram a literatura a plano secundário, como se
pudéssemos prescindir das palavras, como se computadores e televisão vivessem
sem palavras, como se ideias surgissem sem palavras, como se o futuro brotasse sem palavras, como se a reflexão sobre o
ser humano acontecesse sem a literatura.
          Até os jornais e revistas atiram nos
próprios pés quando diminuem o espaço dado aos livros, ajudando a cassar o gosto
pela leitura. Diego Velázquez talvez tenha sido o mais genial pintor espanhol.
Passo horas a admirar sua obra-prima, o quadro As Meninas, cuja beleza, humor e complexidade me encantam. No
entanto, um contemporâneo dele, Miguel de Cervantes, escreveu Dom Quixote. Quem nos diz mais a
respeito de seu tempo, de nós mesmos, de nossa dimensão, de nossa
transitoriedade e permanência, de nossa fantasia, de nossa humanidade? Quem?
Velázquez ou Cervantes?

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