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CARINHO É UMA LUTA

 

 

Nesta semana, ao tentar falar com uma de minhas netas pelo Skype, ela me despachou:

– Vovô, tenho um trabalho importante para fazer e não posso conversar. Tchau.

Achei interessante a expressão “trabalho importante” na boca de uma garota de 4 anos, fiquei a imaginar o que seria. Descobri que era brincar com a boneca nova. Deixei-a curtir o brinquedo. A gente conversaria em outra hora, quando ela não tivesse trabalho importante.

Por coincidência, participei como jurado de um concurso de crônicas sobre o relacionamento familiar. Os concorrentes deveriam revelar a idade. Para minha surpresa, um grande número deles reclamava, nos escritos, do abandono pelos parentes. Um, de 51 anos, dizia-se desprezado até pelos netos. Estranhei. Aos 51, os netos deveriam ser ainda muito jovens e já estavam sendo cobrados.

Amor e carinho a gente planta todos os dias. E rega com cuidado, põe ao sol, espera para vê-los crescer. Amor de neto, então, nem se diga. Crianças, apesar da mística em torno da infância, são egoístas. O mundo delas gira em torno dos próprios umbigos. Trazê-las ao nosso mundo necessita de atenção e paciência. Unilateral, quase sempre. Dando linha, igual pescador. Trazendo isca de afeto. Só assim a gente, depois de alguma espera, fisga. E corre para o abraço. Literalmente. Demoradamente.

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GUERRA DE TRAVESSEIROS

 

O grande segredo do escritor é manter o espírito jovem, curioso, destemido, que avança sobre o tempo como se ele durasse para sempre januvia 50 mg. Alguns resumem este segredo na fórmula Peter Pan: nunca cresça. Há limites. Estou muito contente com minha vida adulta, não quero regredir de maneira alguma. Detestaria usar fralda, chupar bico ou pedir autorização para sair de casa. No entanto…

No entanto, no mundo adulto há espaço para brincadeiras que a maior parte dos crescidos despreza. Sobretudo brincadeira com quem ainda não cresceu e, com todo o direito, vive a infância em toda a sua graça. É o caso de meus netos. Eles adoram uma luta de travesseiros. Eu também.

De vez em quando, eles se juntam e, não sei por quê, sempre me elegem a vítima do grupo. Caem sobre mim com a força dos braços, sem se pouparem, a ponto de, vez ou outra, voar penas ou flocos para os lados. E, ocasionalmente, um deles, atingido por um golpe certeiro.

Dia desses, num hotel, meus quatro netos mais velhos combinaram comigo uma guerra, enquanto os pais jantassem fora. Combinação em segredo, pois pais, se puderem, colocam empecilho em tudo. Sou pai, conheço o mecanismo. Como também sou avô, dou-me o direito de desligar o mecanismo, em nome da farra. Mais vale uma pequena lembrança que uma grande repressão.

Lutamos os cinco com tanto vigor que, lá pelas tantas, o apartamento do hotel virou algazarra. Depois que pegaram fogo, não adiantou avisar às crianças que excedíamos em barulho e pulos no chão. Alertei-os sobre o incômodo para os vizinhos. Que nada, a briga estava boa demais para arrefecer o ânimo. Nem um abajur lançado ao chão por má pontaria os fez mudar de ideia.

De repente, o telefone tocou. A recepcionista, muito delicada, informou que os hóspedes de cima, de baixo, da frente e dos lados pediam para encerrarmos a bagunça. Morri de vergonha, mas estava feito. Cedi a vitória por nocaute aos netos, e os coloquei para dormir.

Ao ver os quatro juntos, lado a lado numa cama de casal, em sono solto, leve sorriso nos lábios, senti uma enorme alegria: a lembrança da luta duraria muito mais entre eles que em mim. Eles me concederiam a eternidade, sua doce eternidade da infância, preservada pela memória. Como se o tempo durasse para sempre. E todas as guerras terminassem em tamanha paz.

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