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CURTINDO O MEDO

 

O recente tornado de Campinas me remeteu ao vento do sul do Chile e da Argentina. O vento patagônico sopra com tanta força – chega a duzentos quilômetros por hora, dizem – que derruba as pessoas, mesmo as que carregam mochilas às costas ou estejam a cavalo. Certa vez, minha mulher e eu tivemos que rastejar numa trilha até uma ravina para não sermos jogados num precipício. Uma amiga por pouco não foi arrancada do cavalo. Um francês de 18 anos teve traumatismo craniano. Voou igual passarinho, mas caiu igual gente.

O vento forte tem um lado bom. Após arrancar dos lagos colunas de água com cinquenta metros de altura, verdadeiras cachoeiras de vapor e arco-íris, carrega-as em redemoinho rumo às planícies ou encostas, despeja a água em forma de garoa, uma bênção para as plantas à míngua, mortas de sede. Eis uma demonstração prática da ambivalência dos efeitos: a mesma lambada, fatídica para muitos visitantes, provoca a chuvinha gélida que permite a sobrevivência de muitas espécies.

Numa tarde, por curtição, ou melhor, para degustar o medo, postei-me no corredor por onde circulam as piores rajadas de vento e água no lago Nordenskjöld, ao lado do Refúgio Los Cuernos, no Parque Nacional Torres del Paine, no Chile. Suportei, com os braços bem abertos, qual uma pipa, a sanha da primeira, da segunda, da terceira cortina líquida. Quase decolei três vezes, porém, completamente encharcado, consegui me reequilibrar. No quarto assalto, um tornado com urro de locomotiva nascido entre os paredões do maciço, fui levado feito saco de plástico vazio. Subi e caí. Acordei arranhado no meio dos matacões deixados pelas geleiras. Por pouco não quebrei a cabeça.

Aliás, quebrei, sim. Para me entender. A experiência me situou, pela enésima vez, frente à natureza: sou mesmo nanico. Todos somos. Ainda bem que a maioria das pessoas usa o juízo e infere a pequenez sem arriscar a pele. Outras pagam caro para aprender. Minhas dores pelo corpo que o digam.

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A ILHA DR JEKYLL E MR HYDE

 

 

Se há um lugar no mundo em que a sobrevivência se comemora a cada dia, esse lugar se chama Bali. Quem escapa de um terremoto, pode sucumbir, horas mais tarde, a uma erupção vulcânica. Ou, de madrugada, a tufões devastadores. Ou, sol a pino, a um tsunami com quinze metros de altura, monstruoso mesmo para os mais ousados surfistas que todos os dias chegam a Denpasar em busca de algumas das maiores ondas do mundo. Pelo número de tremores de terra que, sem descanso, sacodem a ilha, a maioria detectável apenas pelos sismógrafos, os vagalhões de Bali devem resultar de maremotos em cascata. Às vezes, parece que estes, de tão numerosos, provocam o constante surf azul-cobalto com crista branca, perfeito para a prática esportiva. Perfeito também para encantar os olhos.

O perigo faz o balinês feliz. Ciente da brevidade dos momentos de paz, ele os aproveita com sorriso aberto e alegria incontida, expressos em cantorias e cerimônias que varam as noites. Sem ostentação e sem miséria, entrega-se à natureza ao mesmo tempo generosa e hostil. Planta o arroz nas colinas com o tom verde das folhas de ipê em setembro. Para aumentar as colheitas, desenvolveu um complexo sistema de irrigação por gravidade. Não passa sede: as chuvas renovam constantemente os mananciais. Venera as árvores waringin e respeita os tigres que ainda resistem nas florestas. A natureza é o sangue de Bali.

O sol tropical convida o visitante ao mar. As praias, quando escapam das cinzas ou rochas negras dos vulcões que mataram milhares, possuem a brancura do giz. Ao mergulhar em suas águas, por exemplo, em Dagang, perto de Nusa Dua, a fauna subaquática lembra as visões do paraíso comuns às tradições religiosas: a beleza inebria os sentidos e sugere o deleite eterno. O colorido dos peixes, do vermelho-sangue ao índigo, cambiantes de acordo com o ângulo da luz, harmoniza-se com os corais de quiméricas formas e matizes. Moreias azuladas entocam-se em esqueletos de calcáreo, ao lado de ermitões em carapaças alugadas. Caravelas passeiam sobre anêmonas, enquanto polvos pintados de sépia perseguem caranguejos carmesins. Como consegue a natureza inventar tanta diversidade?

Em Bali se confirma que experimentar é, de fato, o grande hobby da vida, experimentar sem objetivo, a esmo. O acaso, principal maestro da evolução, dono de curiosidade infantil, fomenta novas espécies e lança-as à própria sorte no meio ambiente. Por mais desvairados que sejamos ao imaginar um ser ou um comportamento, a natureza com certeza já terá testado algo semelhante. Sobreviver é o grande prêmio em jogo. Daí, em escala maior, o regozijo do balinês. Aos trancos, ele segue em frente. Sabe que mora numa terra em que o doutor Jekyll e o senhor Hyde (o médico e o monstro) se alternam para visitá-lo – e a alegria, talvez a última, deve ser curtida até o limite.

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NATURE X NURTURE

 

 

Até que ponto o ser humano é dominado pelos genes ou pela cultura? Não consigo me livrar da questão, bem sintetizada, na língua inglesa, através da expressão nature x nurture. O assunto, campo minado, já foi debatido centenas de vezes em todas as mídias, contendores levantaram paixões e provas, princípios de toda a ordem foram brandidos, contra e a favor de cada corrente, ouviram-se ameaças semelhantes às que cercaram o sequenciamento de nosso genoma, por medo alguns varreram o imbróglio para debaixo do tapete. A dúvida permanece.

Minha aposta tem sido algo como sessenta por cento genética e quarenta por cento cultura. No entanto, descobertas da biologia parecem desmentir-me. Segundo alguns pesquisadores, cada vez mais ruidosos, na prática somos cem por cento resultado daquelas minúsculas cadeias de moléculas, com quilômetros de extensão, que se espremem dentro dos cromossomos.

Cadeia é uma boa palavra. Estaríamos presos aos genes. Não apenas a cor dos olhos, os cinco dedos do pé, o instinto de sobrevivência e o de reprodução, o diabetes, o câncer, a obesidade, o ataque cardíaco, mas também o egoísmo, a violência, a inteligência, a lei do mais forte, a preferência por certas comidas, o insucesso no amor resultariam de programação ancestral da qual ninguém escapa. Até a religiosidade. Há vários anos, neuropesquisadores sugeriram que Deus era fruto do lobo temporal do cérebro, ou melhor, a fé proviria da excitação de estruturas no interior da cabeça. Se devidamente estimuladas, essas regiões transformariam céticos em profetas apocalípticos que recebem mensagens diretamente do céu e mandam-nos arrepender dos pecados, pois o fim está próximo. Segundo os neuropsicólogos, muitos religiosos, oráculos, visionários e psicógrafos ao longo da história teriam sido doentes mentais sem diagnóstico. Inventou-se até uma especialidade para lidar com as consequências dessa descoberta: neuroteólogo. Teria a genética feito a luz?

Cultura ou genética? Ambas. Não sobreviveremos sem a identidade humana construída desde as cavernas, tampouco sem instinto, sem razão, sem inteligência, sem as mãos, sem sentimento, sem emoção, sem arte, sem respeito mútuo. Se hoje passamos de sete bilhões e não corremos o risco de extinção, nosso sucesso também se deve à cultura. Para melhor, ela se entranhou no dia a dia, tornou-se parte de nosso comportamento. Virou crucial fator evolutivo, meio lamarckista, é verdade, pois só com a prática continuada cria raízes profundas.

Otimista, antevejo a hora em que ela substituirá alguns imperativos genéticos, com frequência cruéis, antes caros à nossa sobrevivência Look At This. Romântico, acredito no futuro em que, libertos de velhas superstições, nossos sonhos de liberdade, fraternidade e igualdade se concretizarão. Realista, espero contarmos, para sempre, com a sagacidade do genoma.  Quanto tempo levará a fusão naturenurture? Trinta mil anos, prazo que demoramos para desenvolver nossa humanidade, é uma boa aposta. Quem viver verá.

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À SABEDORIA DAS BARATAS, COM MUITO RESPEITO

Na década de 1960, no meio do deserto de Gobi, foram encontrados os fósseis de dois dinossauros em plena luta, um com os dentes cravados no pescoço do outro. Estavam tão ligados no combate que se esqueceram do perigo maior que os rondava: a enorme tempestade de areia que os soterrou. Na época, uns oitenta milhões de anos atrás, os mamíferos, pouco maiores que ratazanas, ensaiavam os primeiros passos na escalada evolutiva. Prever, então, a existência do ser humano seria um exercício de futurologia tão ingrato quanto adivinhar hoje que espécie dominará a Terra daqui a outros oitenta milhões de anos, se é que haverá uma. No entanto, qual dos animais existentes teria as melhores chances de sobreviver?
A humanidade se atribui uma importância excessiva. Nossa
vaidade oscila entre o ufanismo por um mundo criado da noite para o dia para nosso deleite à vergonha de contaminarmos e destruirmos o frágil ecossistema. Os extremos demonstram que continuamos a medida de nós mesmos e, de quebra, do resto. Encaremos a realidade: não somos o centro de tudo, tampouco o ponto ômega da evolução. Somos uma espécie ainda amaciando o motor, se comparada à quilometragem das baratas, matusaléns anteriores aos dinossauros. Não temos um futuro certo e sabido, apesar do afinco que dedicamos ao amanhã.
Gozamos, hoje, de vasto domínio sobre o planeta, longe de ser absoluto como sugere muita gente. Nossas interferências apequenam-se ante a força da natureza. Numa única erupção, o vulcão Pinatubo poluiu a atmosfera mais que todos os automóveis e fábricas juntos. Um terremoto de magnitude nove na escala Richter pode devastar mais que a soma dos arsenais nucleares. Um acréscimo de apenas cinco por cento na produção de energia pelo Sol bastará para nos torrar. Nossas bombas não seriam tão eficientes.
Atuamos no varejo, tanto para construir quanto destruir.
As espécies vêm e vão ao sabor de eventos que só podemos imaginar. Estamos todos a bordo da Terra, abelhas, jabuticabeiras, enguias e seres humanos. Se uma espécie não é, intrinsecamente, melhor que a outra, isso não significa que devamos abrir mão de nosso apego à sobrevivência. Se apenas uma puder subsistir, que seja a nossa.
Para incrementar nossas chances de êxito, sugiro um respeitoso exame das baratas. Como disse, elas estavam por aí quando aqueles dois dinossauros se engalfinharam no deserto de Gobi. Qual o segredo das baratas? Covardes, fogem sem qualquer constrangimento ante um chinelo, não são muito chegadas a elucubrações (exceto aquela do Kafka, bastante influenciada pelo convívio humano), comem o que aparece, adaptam-se ao frio e ao calor e, a julgar por seu número e tamanho em alguns bares e restaurantes brasileiros, não correm perigo de extinção. Em suma, seu segredo é viver e deixar viver, receita simples e eficiente, fácil de aprender. Sabem que a natureza, com suas experiências evolutivas, é o grande laboratório. Estão sempre de olho no que vem por aí. E chegam junto.
Eu apostaria nas baratas como a espécie com maiores possibilidades de herdar a Terra no futuro distante. Afinal, possuem vasta experiência com o planeta, não se encheram de ufanismos, respeitam as leis básicas da vida. Convém seguirmos seu exemplo. A sobrevivência é o grande prêmio que uma espécie pode ganhar. Às vezes, com toda a nossa sabedoria, acho que ainda não aprendemos isso. Às vezes, com toda a nossa estupidez, acho que nunca aprenderemos.

 

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A Lua, minha sombra e eu: três solidões

     Como
se fala da China… Queda da bolsa de Xangai, redução das importações, economia em crise, falta de democracia, capitalismo selvagem… Pouco se fala de sua
poesia. Ela teve um chamado “período de ouro” durante a dinastia T’Ang, que governou o país entre os anos 618 e 907, desenvolveu a impressão de livros com
blocos de madeira e expandiu a Rota da Seda rumo ao Ocidente. 
       A China venera
até hoje esses poetas que viveram há 1300 anos. Eles são muitos, mas
dois se destacam: Li Po e Tu Fu, grandes amigos, bravos guerreiros que
arriscaram a vida em muitas batalhas, beberrões incorrigíveis e, apesar dos
estilos diferentes, mestres de uma poesia visual, à flor da pele.       
      Li Po e Tu Fu escreveram
verdadeiras pinturas, cheias de cor e detalhe, capazes de penetrar fundo na natureza
e na alma. Uma pena que suas obras percam a sonoridade interna com a tradução.
Tu Fu esmerou-se na descrição dos efeitos da guerra. Ele diz:
          
          Um cavalo branco aparece do nada,
          Esbaforido de medo,
          A sela vazia atravessada por 3
flechas.
          Onde está o cavaleiro,
          Para que a vã coragem
          Que lhe ofereceu o calor da guerra
          E o levou ao frio da morte?
          
          Li
Po gostava do vinho e da Lua. Uniu esses prazeres numa bela composição:
         
          Entre as flores do jardim,
          Copo à mão,
          Bebo sozinho.
          Os amigos partiram,
          Não sei onde estão.   
          Ergo um brinde à Lua cheia.
          A Lua, minha sombra e eu,
          Três solidões.

     
       Cecília Meireles legou-nos algumas traduções de Li Po e Tu Fu, três vezes inspiradas pois
junta sua criatividade à dos dois poetas chineses. Não são três solidões. São três encantos. 
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RELIGIÃO PARA TODOS OS CREDOS

Para descobrir a religiosidade existente atrás do
corriqueiro, a receita é simples: basta um jantar em casa. Sozinho. Para
começar, feche as janelas, diminua a luminosidade, vista uma roupa confortável.
Prepare sua comida, um macarrão por exemplo. Escolha o vinho de sua
preferência. Acenda velas e incenso suave. Ponha para tocar um disco de música
antiga, como do compositor quinhentista Josquin des Prés (ou Desprez). Pronto,
está montado o aparato para a travessia, ou melhor, a religação com você mesmo
e a nossa espécie.
Saboreie sem pressa a massa, o vinho, perceba sua cor rubra ou dourada contra a chama, a música, os odores, a penumbra, o
contato da boca com a comida e a bebida, descubra o peso do talher, fique
atento à mastigação. Pense nas centenas de pessoas que contribuíram para seu
prazer. Quantos plantaram e colheram o trigo, construíram sua casa, desenharam,
fabricaram e transportaram a baixela, montaram o aparelho de som, fizeram as velas, podaram as
videiras, quantas horas Josquin investiu até encontrar a combinação correta das
notas musicais. As pessoas se uniram através dos tempos para possibilitar seu
mergulho na plenitude, isto é, em você mesmo. Gente famosa e anônima, viva e
morta, através de seus ofícios, rendeu-lhe uma homenagem, sem conhecê-lo, sem
saber que você viria a existir.
Conscientize-se do elo entre os
séculos, abrace o coração da festa, desvele a origem desses requintes, o gênio
humano.
Integre-se agora, sem receio, ao caudal
do melhor lado de nossa natureza. Descubra que continuamos a medida e o sentido
de todas as coisas. Eis a religiosidade por excelência. Põe em contato as
gerações passadas, presentes e futuras, numa cadeia de fraternidade e de
partilha que exalta nossa grandeza e nossa fragilidade. Liga-nos às demais espécies e ao mundo. Aumenta nossa responsabilidade. Perceba o paradoxo: se
o experimento der certo, talvez você se sinta maior ao se transformar em
simples ponte entre épocas, átimo de consciência na enormidade do tempo.
O que é isso? Transcendência, delírio,
epilepsia do lobo temporal? Quem sabe? Pelo sim, pelo não, vale a pena tentar
religar-se à própria espécie, um gesto importante, mas pouco praticado. Entre a
vastidão e o nada, paira a vida. Entre as possibilidades e as incertezas,
colhemos os dias. Bom apetite.

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A ARTE DA BUSCA

 

 

        Os indianos desenvolveram a idéia, comum a vários
povos, de que o verdadeiro mundo é o dos sonhos. A vigília não passaria de uma
ilusão – ou maya. Entre os japoneses,
os mortos continuam tão presentes que têm até um altar em casa. No dia a dia,
marcamos as horas com precisão atômica, embora alguns teóricos neguem a
existência do tempo. Na física quântica, duas partículas virtuais, separadas
por milhões de anos-luz, reagem instantaneamente ao estímulo aplicado a apenas
uma delas. Partícula virtual, aliás, é um fantasma que surge do nada, desde que
o equilíbrio energético se mantenha. Em medicina, placebos bem recomendados
costumam funcionar melhor que os remédios adequados. Milhões de pessoas
acreditam que seu destino esteja nos astros, nos búzios, num pé de coelho, numa
reza, numa relíquia de santo, numa promessa difícil ou em três batidas na
madeira.
        Disso tudo surge a velha pergunta: o que é a realidade? Percebemos você e eu a mesma
coisa? O mongol da estepe, o sherpa do Himalaia, o ianomâmi da Amazônia e o
corretor de ações em Wall
Street enxergam o mesmo mundo? O asceta e o cientista vivem
em planetas diferentes? Quem possui o melhor ponto de vista? Antes disso, o que
significa “melhor”?
        A compreensão do que acontece ao nosso redor
constitui uma busca antiga, talvez infrutífera, balizada pela questão: nós
descobrimos ou inventamos a realidade?
        A ciência, que se julga objetiva, acata muita
subjetividade, desde a admissão de novidades por parte do establishment até o intransponível problema da limitação dos
sentidos e do cérebro. Às vezes, parecemos criar a realidade de acordo com a
nossa fisiologia ou anatomia. Vivemos num estado simultâneo de sim e não,
palpável e onírico, como no dilema quântico do gato de Schrödinger, em que o
felino pode estar vivo e morto, só resolvido quando um observador examina o
animal de perto. Mas o que é o observador, senão a presença da subjetividade?
         A Teoria da Relatividade ganhou esse nome também
porque se faz relativa ao observador. Entretanto, existem discrepância
profundas entre ela e a física quântica, a ponto de se cogitar que uma das duas contenha
falsas premissas. Ou ambas. Quando leio a respeito das seis, onze ou vinte e
seis dimensões que comporiam o Universo, lembro-me do sistema ptolemaico e suas
epicicloides que tentavam remendar uma concepção falida.
        Por outro lado, não podemos contar com forças
sobrenaturais. Há séculos terminou a era da magia. Amuletos, poções milagrosas,
palavras secretas e passes não alteram o curso dos eventos, assim como abençoar
carteiras de trabalho não traz o desempregado de volta ao serviço. Tampouco
dedicar-se a dogmas, dízimos e rituais garante saúde, dinheiro e
felicidade.   
       A dúvida quanto à natureza da realidade tem enorme
vantagem. Enquanto procuramos soluções, abrimos portas – e a vida se torna mais
ampla, complexa, colorida, saborosa. Descoberta ou invenção, a busca da
realidade é a suprema arte do ser humano.
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ECOLOGIA DE QUINTAL

     Só me dou conta do limoeiro do quintal quando os
amigos elogiam seus frutos. Dizem que são os mais suculentos que conhecem.
Claro, trata-se de doce gentileza. Amigos se excedem em amabilidades mesmo nos
mais amargos assuntos.
     Numa tarde dessas, observei que as folhas da
árvore estavam amarelando, talvez por falta d’água. Abri a mangueira, comecei a
molhá-las. Sem cerimônia, dois sebinhos apareceram para matar a sede e tomar
banho. Num canto, um sabiá ressabiado preferiu se fartar com as gotas que
escorriam. Um beija-flor preto-esverdeado, à maneira de animais
de circo que saltam através de aros, cruzou o jato em sua parte mais alta, numa
curtição de dar inveja.
     Notei que os pássaros vivem ao redor do limoeiro. Por quê? Examinei a árvore de perto. Formigas de diferentes espécies andavam pelo tronco
em ritmo de dia de semana no centro da cidade, embora fosse domingo, o que me mostrou como a natureza passa muito bem sem os conceitos humanos. Algumas delas
se alimentavam de uma secreção oriunda do dorso de pulgões, uns bichinhos
miúdos demais para a produção de tanto líquido. Verdadeiras vacas na ordenha. Deviam
trocar o leite por proteção.
     Junto às flores, outros pulgões se apegavam às
pétalas, em tal quantidade que formavam manchas negras. Não ligavam para as abelhas
com as patas douradas de pólen. Marimbondos, dos pequenos e dos cavalos, zuniam
sem saber onde pousar. Numa teia, debatia-se um inseto geométrico, perfeito
losango vivo. Uma aranha o rondava para
banquetear-se. Taturanas e centopeias passeavam pela ramagem coberta de líquen,
aparentemente perdidas. Sob uma folha, um inseto envolto por fios brancos,
miniatura de porco-espinho, tecia seu casulo.
     Descobri por que os pássaros ficavam por ali. Era
seu mundo, pequeno, com regras peculiares, e eu o flagrara no dia a dia. Embora restrito ao meu quintal, esse mundo se submetia às velhas leis da
natureza. Ampliei a escala da observação. O planeta é um limoeiro gigante, no
quintal de todos: os seres vivos respiram o mesmo ar, retiram da terra seu
sustento, a ela tudo devolvem. Estamos no mesmo pé. A única diferença talvez
seja a consciência, que produziu em mim um sentimento de irmandade com as plantas
e os animais.

     Ao me ver integrado à imensa engrenagem da vida, não
contive o encantamento. Eu jamais ficaria sozinho no mundo. Era tudo – e tinha tudo em mim. Ninguém encara
um limoeiro  impunemente.

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Dois paraísos no Canadá

Ponha num só
lugar os seguintes ingredientes: rios cristalinos, lagos cor turquesa ou brancos
de gelo, céu azul, montanhas nevadas, florestas bem preservadas, dezenas de
cachoeiras, algumas azuis, geleiras quilométricas, canyons escavados pelas eras
glaciais e pelas chuvas, bandos de pássaros e bichos, alguns dos mais antigos e
estranhos fósseis do planeta, ar sempre fresco com odor de pinheiro, paisagens
deslumbrantes.
Misture bem esses ingredientes,
descubra todas as formas para combinar e recombinar tanta variedade e formosura.
Pronto. Você chegou ao Oeste do Canadá, aos Parques Nacionais de Banff e de Jasper, isto é, você está num dos mais
deslumbrantes cenários da
Terra. Aproveite. Aqui se respira a natureza em estado puro, sem aditivos. Caminhar
pela região revigora a mente e o corpo. Pode ser por um dia, três, uma semana,
duas. Há trekkings para todos os gostos.
          Se você for do tipo que gosta de estrada
e conforto, Banff e Jasper também o encantarão, pois podem ser vistos em todo o
seu esplendor da janela do carro ou do hotel. Estão ligados por duas bonitas rodovias,
a Canadá 1 A
e a 93, que passam por Lake Louise (famoso pela cor turquesa), enquanto
margeiam as águas límpidas dos rios Bow e
Athabasca. Duzentos e sessenta quilômetros boquiabertos separam os dois
parques que, pela paisagem deslumbrante e pela riqueza da flora e fauna, se
tornaram Patrimônios Naturais da
Humanidade pela UNESCO
. Título merecido.
          Banff,
criado em 1885, é o terceiro mais antigo parque nacional do mundo, tem mais
de 1.600 quilômetros de trilhas, quase 3.000
locais para acampar e mais de quatro milhões de pessoas o visitam a cada ano.
Gente do mundo inteiro o procura, sobretudo para longas caminhadas. Aliás, estas
tiram o fôlego. Não só nas trilhas, às vezes difíceis, como na deslumbrante
paisagem. A mente vive epifanias.
          Jasper,
maior parque das Montanhas Rochosas, data de 1907, possui grande
variedade de animais silvestres e recebe mais de dois milhões de turistas por
ano.  
          Bons hotéis, bed&breakfasts,
restaurantes e serviços, a preços razoáveis, atendem aos visitantes de ambos os
parques. Se preferir, acampe. A baixíssimo custo, com conforto e segurança.

          Há
lugares onde a natureza caprichou mais ao fazer o mundo. Banff e Jasper estão
entre eles. São dois pedaços do paraíso transferidos para a Terra. Dão saudade
pelo resto da vida.

                                                                                                   Para Gabi.

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