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O SAPO QUE CANTOU COM A ORQUESTRA

 

 

A noite era de gala: início do festival de música em Trancoso, na Bahia. Tudo e todos a postos: orquestra sinfônica, solistas nacionais e internacionais, o teatro de arquitetura única, ao ar livre, acústica perfeita, mais de mil pessoas presentes.

No meio do concerto em Fá maior de Gershwin, um intruso entusiasmado com a beleza da composição solta a voz: é um sapo, dos grandes. O canto, beneficiado pela acústica, inunda a plateia. Muita gente se volta para trás, para confirmar a presença do batráquio na fileira mais alta do teatro. Reconhecido, ele capricha na apresentação. Acompanha o tom da orquestra. Violinos, violas, oboés, trompetes, fagotes e o coaxado parecem ensaiados. Risos pipocam.

O bicho se entusiasma, inventa um som grave e repetitivo, abusa de seus parcos recursos vocais – e a tragédia acontece. O sapo atravessa a orquestra, há um completo desencontro entre os instrumentos e o tenor exibicionista. Alguém lhe desfere um golpe de sapato, o bicho salta de lado e retoma a partitura.

Um grilo salva a pátria. Quem já estava com grilo com um animal, agora tem dois. O grilo estrila. Também se delicia com a acústica. O sapo o vê, esquece a apresentação e vai à caça. Tem êxito. Enquanto o batráquio engole o inseto, penso que o grilo evitou que engolíssemos o sapo.

Histórias de Trancoso. Não da Trancoso portuguesa, famosa pelo inusitado e pela inverossimilhança dos casos, mas da Trancoso brasileira. Aqui um sapo cantou com uma orquestra. Por momentos se saiu bem. Eu vi. E ouvi.

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RELIGIÃO PARA TODOS OS CREDOS

Para descobrir a religiosidade existente atrás do
corriqueiro, a receita é simples: basta um jantar em casa. Sozinho. Para
começar, feche as janelas, diminua a luminosidade, vista uma roupa confortável.
Prepare sua comida, um macarrão por exemplo. Escolha o vinho de sua
preferência. Acenda velas e incenso suave. Ponha para tocar um disco de música
antiga, como do compositor quinhentista Josquin des Prés (ou Desprez). Pronto,
está montado o aparato para a travessia, ou melhor, a religação com você mesmo
e a nossa espécie.
Saboreie sem pressa a massa, o vinho, perceba sua cor rubra ou dourada contra a chama, a música, os odores, a penumbra, o
contato da boca com a comida e a bebida, descubra o peso do talher, fique
atento à mastigação. Pense nas centenas de pessoas que contribuíram para seu
prazer. Quantos plantaram e colheram o trigo, construíram sua casa, desenharam,
fabricaram e transportaram a baixela, montaram o aparelho de som, fizeram as velas, podaram as
videiras, quantas horas Josquin investiu até encontrar a combinação correta das
notas musicais. As pessoas se uniram através dos tempos para possibilitar seu
mergulho na plenitude, isto é, em você mesmo. Gente famosa e anônima, viva e
morta, através de seus ofícios, rendeu-lhe uma homenagem, sem conhecê-lo, sem
saber que você viria a existir.
Conscientize-se do elo entre os
séculos, abrace o coração da festa, desvele a origem desses requintes, o gênio
humano.
Integre-se agora, sem receio, ao caudal
do melhor lado de nossa natureza. Descubra que continuamos a medida e o sentido
de todas as coisas. Eis a religiosidade por excelência. Põe em contato as
gerações passadas, presentes e futuras, numa cadeia de fraternidade e de
partilha que exalta nossa grandeza e nossa fragilidade. Liga-nos às demais espécies e ao mundo. Aumenta nossa responsabilidade. Perceba o paradoxo: se
o experimento der certo, talvez você se sinta maior ao se transformar em
simples ponte entre épocas, átimo de consciência na enormidade do tempo.
O que é isso? Transcendência, delírio,
epilepsia do lobo temporal? Quem sabe? Pelo sim, pelo não, vale a pena tentar
religar-se à própria espécie, um gesto importante, mas pouco praticado. Entre a
vastidão e o nada, paira a vida. Entre as possibilidades e as incertezas,
colhemos os dias. Bom apetite.

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A arte das artes

       Admiro
a arte, todo tipo de arte, da escultura à pintura, da música à dança.
Frequentei espetáculos, exposições e museus em muitos países. Escrevi dois
romances que acompanham os movimentos de composições de Bach e Albinoni. Em
outro, falei do prazer de comer um quadro de Pollock. No entanto, somos seres
feitos de palavras. A palavra moldou nosso cérebro, ela lubrifica nossos
neurônios, com ela nos comunicamos a maior parte do tempo, sobretudo através
dela transmitimos nossa experiência, nossa história, nossos acertos e erros. A
palavra criou-nos, e a literatura é a quintessência da palavra. Somos, em suma,
fruto da literatura.
          Preocupa-me a importância cada vez
menor que temos dado à literatura no Brasil. Ficamos cada vez mais pobres intelectualmente,
mais tacanhos. Cada vez mais, cultuamos a mediocridade. A cultura da
mediocridade leva à mediocridade da cultura. Sim, claro, existem investimentos
do Estado em livros, há campanhas de leitura, porém são atividades pontuais,
efêmeras. O Brasil hoje se guia pela mídia e pelos grandes mecenas, e a mídia e
os grandes mecenas relegaram a literatura a plano secundário, como se
pudéssemos prescindir das palavras, como se computadores e televisão vivessem
sem palavras, como se ideias surgissem sem palavras, como se o futuro brotasse sem palavras, como se a reflexão sobre o
ser humano acontecesse sem a literatura.
          Até os jornais e revistas atiram nos
próprios pés quando diminuem o espaço dado aos livros, ajudando a cassar o gosto
pela leitura. Diego Velázquez talvez tenha sido o mais genial pintor espanhol.
Passo horas a admirar sua obra-prima, o quadro As Meninas, cuja beleza, humor e complexidade me encantam. No
entanto, um contemporâneo dele, Miguel de Cervantes, escreveu Dom Quixote. Quem nos diz mais a
respeito de seu tempo, de nós mesmos, de nossa dimensão, de nossa
transitoriedade e permanência, de nossa fantasia, de nossa humanidade? Quem?
Velázquez ou Cervantes?

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