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DRUMMOND 113 MEMÓRIAS

 

 

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Assim Carlos Drummond de Andrade inicia seu famoso poema, escandaloso para a época da publicação, tanto que o poeta se divertiu ao compilar e publicar 194 páginas de descomposturas indignadas contra os dez versos de No Meio do Caminho.

Drummond é uma quase unanimidade nacional como nosso poeta maior. Autor de obras como Rosa do Povo, Claro Enigma, Sentimento do Mundo e Boitempo, além da prosa em Contos de Aprendiz e Fala, Amendoeira, o mineiro de Itabira capturou o mundo, vasto mundo em palavras e versos, com e sem rima, que, décadas afora, não envelhecem e continuam falando como dois olhos que acordam os homens.

Para quem deseja degustar Drummond, há uma Antologia Poética, por ele organizada, que oferece uma boa introdução a seu trabalho. Ele tinha apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Ajudado pelas lembranças de Minas Gerais, casas entre bananeiras, pomar amor cantar, a fotografia na parede, enquanto deixava culpas no caminho e a luta vã com palavras, reuniu as ferramentas para consagrá-lo. Há muita memória em sua obra.

Hoje me lembrei de Drummond. Amanhã ele faria 113 anos. Pois de tudo fica um pouco. De Drummond, fica muito. Fica toda a poesia que nos encanta. Fica tanta memória. Mesmo que ele não gostasse dela.

 

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

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O assassinato de uma casa e de seus habitantes

       Pode
uma casa ter vida, crescer e morrer como uma pessoa? Se você ler o romance Crônica da Casa Assassinada, do escritor
mineiro Lúcio Cardoso, a resposta é sim. Sim, pode. E com que maestria a casa
morre, acompanhando a decadência de seus moradores, uma família do interior
mineiro, os Meneses. Numa mistura de surrealismo, densidade de texto e
introspecção psicológica, trabalhadas em linguagem que muitas vezes beira a
poesia, Lúcio Cardoso joga-nos dentro de uma fazenda que guarda segredos
terríveis entre os parentes e os agregados que a habitam, lado a lado, nos
quartos ao longo de um corredor espremido entre a sala e a cozinha.
          Incesto, morbidez, adultério, pesadelo
e violência entrecruzam-se de maneira velada, sutil, expressos em diários,
cartas e confissões, a partir da chegada da desconhecida Nina, mulher bonita,
manipuladora e extravagante que deixa o Rio de Janeiro para casar-se com um dos
Meneses, atraída e traída pela aparente riqueza da família. Nina desperta
paixão e inveja nos outros moradores. A tensão aumenta. Um aparente incesto
acontece. Relatos de testemunhas adicionam lenha à fogueira. O embate entre os
personagens gera reações que vão da febre amorosa ao ódio, da indiferença à
mentira.
      Haja criatividade para manter
o texto num nível tão elevado, belo e angustiante. A casa é um complexo caso
psicanalítico, sem saída, cujo destino se superpõe ao de Nina, carcomida pelo
câncer e suas metástases.

          O romance foi publicado em 1959. Faz,
portanto, cinquenta e seis anos que a obra encanta. Continua magnífica a Crônica da Casa Assassinada. Um
assassinato que nem Freud junto com Sherlock Holmes desvendariam.      
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Um mago de outros mundos

        Já
participei de seminários, palestras e congressos sobre Guimarães Rosa no
Brasil, Inglaterra e Alemanha. A maioria dos trabalhos abordava Grande Sertão: Veredas,
obra-prima do autor. O que faz Grande
Sertão: Veredas tão estudado, tão sedutor, apesar de nunca ter caído no
gosto popular?
          O romance é uma soma de tramas,
invenções, reinterpretações e símbolos. Tramas, invenções, reinterpretações e
símbolos linguísticos, geográficos, mitológicos, filosóficos, literários. Tudo
bem combinado com talento, audácia e originalidade. Mistura de real e
sobrenatural, de minúcias do sertão e lendas medievais, de linguagem cabocla e
neologismos enraizados em diversas línguas, de honra masculina e
homossexualidade, de vivência e psicanálise, de sutileza e violência, de amor e
pecado, de deus com o diabo. Grande Sertão oferece uma orgia para os
sentidos. Deste e de outros mundos.
          É difícil penetrar em seus meandros,
emaranhados, veredas. Uma vez dentro do mundo rosiano, o prazer é intenso. A
saga dos jagunços Riobaldo e Diadorim transcende o sertão e se faz humanidade.
Minas Gerais vira um universo único, nascido no ventre de Rosa, morto com ele.
Nós, leitores, ao final do livro, sentimos a epifania da arte, o intelecto
transformador e o transformado, o êxtase da literatura.
          Sim, vale a pena desbravar o Grande Sertão. Há magia nele, há um mago por trás de suas páginas. Se
Machado de Assis é o Bruxo do Cosme Velho, com carinho, merecimento e admiração
Guimarães Rosa é o Bruxo de Cordisburgo. Bruxo dos bons, ao mesmo tempo mago e
magia. Com direito a um caldeirão onde cabem línguas, filósofos, escritores,
vidas e vivências que o mago devorou.

         
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