Arquivo da tag: mico

JABUTICABA!

Talvez tenha sido a chuvarada de maio, incomum para a época. A jabuticabeira, agradecida, resolveu soltar flor temporã. Achou que setembro chegara, enfeitou-se para a estação. Parecia noiva, toda de branco, perfumada, com milhares de pajens, as abelhas. Qualquer que tenha sido o motivo, pela segunda vez, em vinte anos, a jabuticabeira de meu quintal deu fruta em junho. Miúda, mas com a doçura de beijo de neta. Foi uma alegria. Para mim e para os bichos.

Primeiro chegaram os micos, famintos. Lançaram-se ao ataque, mal as cascas ficaram rajadas. Até os mais jovens, que pela primeira vez experimentavam o gostinho de céu na boca, debulharam os galhos. Tentei espantá-los, mas sabiam que nunca os machucaria. Olharam-me com descaso e continuaram o banquete, com requinte de gourmets. Removeram o caroço com as mãos e os dentes, engoliram o suco, estalaram a língua. O tchauzinho na saída deve ter sido imaginação minha.

Receosos de que a sanha dos micos acabasse com a preciosa carga, os pássaros choveram. Sabiás-de-coleira e de peito-vermelho, sanhaços verdes, azuis, amarelos, acinzentados, saíras, bem-te-vis, maritacas. Os tucanos permaneceram de tocaia, assuntando o alvoroço. Marimbondos, dos grandes e dos pequenos, se alojaram nos ramos mais altos, territoriais, porém comedidos. Preferiram as frutas já bicadas.

O chão ficou coberto com sementes e cascas. Borboletas e mariposas se fartaram. À noite, foi a vez dos morcegos e dos gambás. Arruaça até de madrugada.

As formigas compareceram aos milhares, das redondas, doceiras, até umas achatadas, primas próximas de aranhas. Subiam e desciam pelo tronco, agitadas, como se o mundo estivesse por um fio e a sobrevivência dependesse da correria. As mais espertas exploravam os pulgões, obrigando-os a secretar um líquido transparente que elas carregavam para casa.

Os animais ignoraram preceitos islâmicos, judaicos e cristãos. Trabalharam e comeram, inclusive na sexta, no sábado e no domingo, sem descanso. A religião da natureza é a sobrevivência. Sua nação, o dia de hoje. Seu heroísmo, a barriga cheia. Cada um ficou na sua, feliz.

Muita gente não planta jabuticabeira sob a alegação de que não aproveitará seus frutos, já que a árvore demora até dez anos para produzi-los. E daí? Nosso egocentrismo extremo ou o antropocentrismo exacerbado, às vezes, não nos permite a solidariedade com outras pessoas ou espécies. A vida não somos nós apenas, nós que aqui estamos, agora. Somos, porém, os únicos capazes de olhar para fora de nós mesmos e de nos compartilhar com o resto do mundo.

Jabuticabeiras duram 100 anos. A minha continuará no quintal depois que eu me for. Futuros pássaros, micos, formigas e borboletas aproveitarão o néctar do tempo certo e o do temporão. Também meu neto ou bisneto. Ao se deliciarem com a doçura, não pensarão em mim. Não precisam, nem quero. Estou recompensado desde agora. Um pouquinho de mim estará em todos eles. Assim como, hoje, todos estão aqui dentro de minha alegria.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail