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MANGA COM LEITE MATA

 

Conheci apenas uma avó, a materna, e a visitava nas férias, sobretudo em janeiro, por coincidência no auge da safra de mangas. Em sua fazenda, havia um pomar que sumia de vista aos meus olhos de menino. Apesar de tanta fruta, ela me proibia manga com leite. Misturar os dois era tiro e queda, podia encomendar o caixão. Vovó tinha visto centenas de imprudentes irem para a cova após a ingestão do coquetel fatal.

Para que a manga não fizesse mal, depois do café da manhã com leite vindo direto do curral, eu deveria esperar pelo menos três horas. Três horas. Espera torturante para um menino. Ao sair para o quintal, eu enxergava as mangas madurinhas, morria de vontade de chupar algumas, mas não podia. Com medo de desobediência, ela me controlava de longe e de perto: “só depois das 11 da manhã, viu, Luís?” Eu retrucava: “posso comer mangada, então, vó?” Mangada ela permitia. Minha cabeça não entendia: mangada pode, manga não? Por quê? Não é tudo a mesma coisa?

Comecei a desconfiar daquela proibição. Devia ser crendice da vovó. Resolvi comprovar, fazer o supremo teste. Depois de um bom copo de leite, fui escondido para o pomar, peguei a fruta mais bonita, bem no alto, chupei-a até o caroço ficar branquinho. Quando terminei, bateu o desespero. E se…?

Senti o estômago embrulhar, o coração acelerou, fiquei tonto. O suor escorreu pela testa. Tive certeza: estava morrendo. Quase saí gritando por socorro. No entanto, resisti. Se eu queria provar que a vovó estava errada, precisava aguentar firme. Terrível espera. Estive a ponto de desistir várias vezes, antes que caísse duro. As horas passaram, sobrevivi. Hoje adoro manga com leite.

Fico imaginando se, mudando o conteúdo e o contexto, não tenho dito a meus netos que manga com leite mata. Preconceito a gente adquire sem perceber. E transmite. Sei que, por mais que fique atento, alguma tolice transmitirei. A gente é manipulado o tempo todo, acaba acreditando em mentira. Por exemplo, que no Brasil não existe político honesto. Existe, sim. Juro. Por isso, torço para que meus netos tenham a coragem de me contestar, nem que seja pelo mero exercício da contestação. Que enfrentem as mangas com leite que, sem perceber, eu cultivo. Só assim obterão um país honesto.

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Sou mentiroso profissional

         Como todo escritor, sou mentiroso.
Dever de ofício. Quanto maior nossa competência para mentir, maior sucesso
gozamos entre os leitores. A mentira bem engendrada faz nossos personagens mais
reais, mais palpáveis, mais críveis, mais humanos. 
      Romancistas e contistas são
mais que fingidores, vamos além, inventamos vidas e mundos, trazemos alegrias e
tristezas, juntamos e separamos pessoas, matamos a rodo, criamos e resolvemos
problemas no papel. No papel, nada mais. Daí nossa alcunha: ficcionistas. Não
podemos acreditar em nossas fantasias. Muitos autores incorreram nesse erro e
se deram mal. Hemingway, por exemplo, achava que tudo se resumia à escrita e,
sem escrever, a vida não valia a pena. Deu no que deu. Tiro de espingarda na
cabeça. Cano duplo.
          Leitores também confundem ficção com
realidade, o que é, aliás, muito comum. Já me abordaram na rua para perguntar
se sou realmente como alguns personagens que criei, justamente os mais
polêmicos. Fizeram coisas mais terríveis com outros autores. Por exemplo,
influenciados por um livro chamado Os
Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Goethe, muitos jovens
cometeram suicídio no século 18. Goethe mentiu com tanta competência que
transmitiu para muita gente o desespero do amor não correspondido, provocando mortes em série.
          O costume dos autores afirmarem que
são mentirosos é antigo. Fernando Sabino escreveu uma bela crônica sobre isso,
na qual se confessou mentiroso compulsivo desde pequeno, daí a decisão de
derramar nas palavras sua obsessão e ainda ganhar um dinheirinho.

          Agora, cá entre nós, quem não mente de
vez em quando? De escritor, de mentiroso e de louco todo mundo tem um pouco. Ou
você é a exceção que faz a regra? Pense nisso e tenha um bom dia. Com toda
sinceridade.
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O assassinato de uma casa e de seus habitantes

       Pode
uma casa ter vida, crescer e morrer como uma pessoa? Se você ler o romance Crônica da Casa Assassinada, do escritor
mineiro Lúcio Cardoso, a resposta é sim. Sim, pode. E com que maestria a casa
morre, acompanhando a decadência de seus moradores, uma família do interior
mineiro, os Meneses. Numa mistura de surrealismo, densidade de texto e
introspecção psicológica, trabalhadas em linguagem que muitas vezes beira a
poesia, Lúcio Cardoso joga-nos dentro de uma fazenda que guarda segredos
terríveis entre os parentes e os agregados que a habitam, lado a lado, nos
quartos ao longo de um corredor espremido entre a sala e a cozinha.
          Incesto, morbidez, adultério, pesadelo
e violência entrecruzam-se de maneira velada, sutil, expressos em diários,
cartas e confissões, a partir da chegada da desconhecida Nina, mulher bonita,
manipuladora e extravagante que deixa o Rio de Janeiro para casar-se com um dos
Meneses, atraída e traída pela aparente riqueza da família. Nina desperta
paixão e inveja nos outros moradores. A tensão aumenta. Um aparente incesto
acontece. Relatos de testemunhas adicionam lenha à fogueira. O embate entre os
personagens gera reações que vão da febre amorosa ao ódio, da indiferença à
mentira.
      Haja criatividade para manter
o texto num nível tão elevado, belo e angustiante. A casa é um complexo caso
psicanalítico, sem saída, cujo destino se superpõe ao de Nina, carcomida pelo
câncer e suas metástases.

          O romance foi publicado em 1959. Faz,
portanto, cinquenta e seis anos que a obra encanta. Continua magnífica a Crônica da Casa Assassinada. Um
assassinato que nem Freud junto com Sherlock Holmes desvendariam.      
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