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LEITURA É SAÚDE

 

Convém repetir, agora que a Educação e a Cultura viraram um único ministério neste país de curta memória. Livros divertem, instruem, transmitem sabedoria, levam-nos através do tempo e do espaço, guardam memórias. Têm mais. Trazem outro benefício, ainda pouco divulgado, de suma importância. Livros são questão de saúde pública. Isso mesmo. Saúde pública.

Cientistas em todo o mundo comprovaram que quem lê muito, sobretudo ficção (romances, contos, fantasias), isto é, quem excita bastante a imaginação, tende a ter menos a doença de Alzheimer. Em outras palavras, a leitura ajuda a evitar que a gente fique gagá em idade avançada. Parece que, igual a outros órgãos, quanto mais se ativam os miolos, melhor eles agem e reagem. Posto de outra maneira, livro é musculação para o cérebro: deixa os neurônios saradaços. Você pode comprovar em sua família. Provavelmente seus avós e bisavós que liam muito chegaram à velhice bem lúcidos. Velhice e lucidez todo mundo quer. As alternativas não são nem um pouco agradáveis.

Os benefícios do livro não param por aí. A leitura atua em duas nobres regiões do cérebro, situadas no meio e na parte de trás da cabeça, ligadas à imaginação e à visão, enquanto os filmes e a televisão agem apenas na parte posterior, vinculada ao córtex visual. É como se a leitura criasse um filme em nossa mente e nós, ao mesmo tempo em que criamos o filme, também assistíssemos à sua première. Somos o único criador e o único espectador, na confortável poltrona da curtição mental. No futebol, seria como bater o escanteio e correr para cabecear no gol. Outro detalhe: o livro cura a desconcentração provocada pela internet, essa intolerância generalizada com o pensamento mais sofisticado.

É assim que a leitura funciona. Exercita nossa cabeça, deixa-nos saudáveis por mais tempo. Isso explica, ainda, por que a leitura exige um pouquinho mais de esforço. Mas o resultado compensa. Compensa não apenas na diversão, no entretenimento, no conhecimento adquirido. Na saúde também. Saúde pública. Na pátria da ordem e do progresso, ainda precisamos descobrir a pólvora.

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A MENTE QUE TUDO PODE

      O médico me garante que a maioria de nossos males
tem origem psicossomática. Talvez a totalidade, ele acrescenta. Do alto de sua
longa experiência, garante que pessoas felizes não ficam de cama. Para
comprovar a tese, relaciona tipos de personalidade com as doenças: os muito
exigentes ficam hipertensos, os nervosos contraem dermatoses, os obsessivos
desenvolvem câncer, os estressados sofrem acidentes cardiovasculares. A mente
tudo pode. Mente?
      O médico não está sozinho. Muita gente acredita que
a mecânica newtoniana – a ação e a reação – se aplica à saúde humana com a
mesma precisão que às maçãs em queda livre. Li um artigo sobre os males que
acometeram pessoas famosas a partir da análise de suas cabeças, do tipo fulano
morreu assim porque era assado (assados morreram muitos, porque ousaram
pensar). Até parece que nossos miolos são imutáveis e possuem uma
característica única, sem direito à tristeza, estresse, euforia, obsessão ou felicidade
de vez em quando.
      As listas de causa e efeito fazem as previsões de
doenças a posteriori. Nunca antes dos sintomas. Que mal contrairá o
desempregado que teme voltar para casa à noite e comunicar à família que nem
biscate conseguiu? Como será hospitalizado o executivo que adora desafio e
viciou em estresse? Posto de outra forma, por que uma senhora sem problemas
familiares e financeiros, simpática, segura da vida eterna, contraiu um câncer
que a matou com dores terríveis? Por que alguns bebês vêm ao mundo com
leucemia? Por que indivíduos assumidamente infelizes chegam aos noventa anos infelizmente (para eles) bem de saúde? A satisfação, o amor e o sucesso vacinam contra
o vibrião do cólera? Orgasmos múltiplos evitam a AIDS?
      Enquanto o psicotudo se alastra, outros médicos
destrinçam o genoma e descobrem relações cada vez mais convincentes entre a
herança genética e o futuro da pessoa. Ou desvendam as reações químicas que os
parasitas usam para penetrar nas células. Ou fazem cirurgias nos fetos.
      A mente humana é poderosa, porém não pode tudo. Como
disse Montaigne há séculos, ela cria milhares de deuses, mas não faz um rato. Com todo o
arsenal de hoje, consegue mudar os roedores a partir do código genético
existente. Criar mesmo, do nada, neca. Nem inteligência artificial. O mundo é
bem maior do que a nossa imaginação.
       Olho para o doutor com desconfiança, ele insiste que
as gripes surgem através da queda imunológica devida ao estresse dos dias atuais.
Pergunto-lhe por que os vírus não padecem do mesmo mal – ou por que derrotam as
mentes psicologicamente equilibradas, bem tranquilas.

       E mudo de médico.     
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