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NOSSO SANGUE DE CANUDINHO

Mario Vargas Llosa, peruano de Arequipa, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2010. Foi o sexto latino-americano a levar o prêmio. Infelizmente para os brasileiros, os seis escrevem ou escreveram em espanhol. Ficamos com o consolo de saber que uma das boas obras de Vargas Llosa tem cenário e história brasileira no enredo. Trata-se do romance A Guerra do Fim do Mundo,  que aborda a saga de Antônio Conselheiro e a chamada Guerra de Canudos, ocorrida no sertão baiano entre 1896 e 1897.

Antônio Conselheiro, monarquista e fanático religioso, liderou milhares de sertanejos castigados pela fome, pelo abandono e pelo desemprego contra a República recém-instalada. Com eficiente tática de guerrilha, embora possuindo armas precárias, seus homens derrotaram duas missões punitivas enviadas contra Canudos, que só caiu na quarta expedição, após a morte de vinte e cinco mil pessoas. Essa guerra inspirou um dos clássicos da literatura brasileira, obra fantástica, muito comentada, mas pouco lida, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Obra com precisão de engenheiro. Sándor Márai também deu um veredito escrito sobre Canudos. A tragédia virou boa ficção. Muita gente bebeu nosso sangue de canudinho.

Em A Guerra do Fim do Mundo, Vargas Llosa mescla realidade e ficção. Ele percorreu a região de Canudos, pesquisou sua geografia e sua história, e criou uma trama com quatro protagonistas conflitantes: um republicano, um monarquista, um anarquista e um jornalista que pouco vê. Depreende-se a preocupação do autor em analisar os conflitos de opinião, os fanatismos, o messianismo. Ele consegue o objetivo e exorciza muitos demônios com os quais se confrontou ao longo da vida.

O fim do mundo de Vargas Llosa, embora garimpado do final do século 19, continua nos sitiando em pleno século 21, cada vez mais perto da gente. Com uma diferença: a crueldade hoje está maior. Como você já deve ter percebido, o fim do mundo parece acontecer a cada hora, a cada rodada de notícia nas rádios e nas tevês. Esse intervalo tem uma vantagem. Se o fim de fato chegar, não haverá tempo de ir ao ar. Talvez nós iremos.

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Crônicas de nuestra Latinoamérica

        Como
falam mal de Vargas Llosa. Não apenas de sua premiada literatura, sobretudo de
suas posições políticas. Dizem que ele é elitista, antirrevolucionário,
anticastrista, antichavista, conservador ao extremo. Já disseram que, se tivesse sido eleito presidente do Peru, ele
teria substituído as armas nacionais pela suástica. Na raiz do problema, está
sua decepção com o regime cubano, após a perseguição promovida por Fidel Castro
a intelectuais e à liberdade de criação e expressão. De defensor da revolução,
ele passou a crítico. Então começaram as porretadas. Haja porrete.
          Nada melhor que beber direto na fonte
para a gente tirar as próprias conclusões. Você pode fazer isso, com pouco esforço, se ler as
crônicas de Mario Vargas Llosa. No livro Sabres
e
Utopias, da Editora Objetiva,
ele expõe suas visões sobre a América Latina. E o faz com o peito aberto.
Critica a direita e a esquerda, põe o dedo na ferida de problemas que resistem
aos séculos, mostra como caudilhos se valem da mudança para, lampedusamente,
manter tudo do jeito que está.
         Em textos escritos desde a década de
1960 até 2009, acompanha os acontecimentos políticos do
continente, bem como sua própria evolução intelectual. Assim, elogia o esforço
educacional e cultural em Cuba, antes do rompimento com Fidel, critica Pinochet
bem como diversos movimentos revolucionários, aponta erros da gestão de Lula,
faz o elogio da democracia brasileira e de outros países latinos, analisa a
obra de diversos autores, como o nosso Euclides da Cunha.

          Tudo
isso e muito mais. Depois de ler Sabres
e Utopias, você conhecerá a visão de
um grande escritor sobre nosso continente. Poderá concordar ou discordar, mas
seguramente ganhará uma bela reflexão e descobrirá motivos que levaram Vargas
Llosa a levar o Nobel de Literatura. Ele mereceu. É um gênio da literatura contemporânea. 

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