Arquivo da tag: máquina do tempo

O RISO DO TEMPO

 

Faz 15 anos que o tempo ri de mim. Tudo começou na virada do ano 2000, porque escutei o jornal e a televisão. Nunca escute jornal e tv, hoje eu digo. Quase à meia-noite do 31 de dezembro de 1999, coloquei sete chips contaminados com o bug do milênio sobre cada um dos sete chakras e interliguei-os com fios de cobre. Usei sete pilhas alcalinas, que duram mais, ante o colapso das usinas hidrelétricas, uma tragédia certa em todas as mídias. Parafernália montada sobre o corpo, fui para a varanda e abri os braços, a fim de facilitar a captura da energia cósmica através do chakra do alto da cabeça, o que deflagraria minha viagem no tempo.

Tudo quase foi por água abaixo, nem tanto pela chuva torrencial, mas por causa dos policiais que me acusavam de atentado ao pudor. Afinal, ninguém pode ficar pelado na varanda do apartamento, em cima da balaustrada, com as mãos apontadas para o céu. Para complicar, um bando de engraçadinhos não parava de gritar: “Pula, pula, puuula!”.

Quando soou a primeira badalada da meia-noite, arrepios percorreram minha espinha, vindos da emoção e dos pingos gelados.

O bug funcionou direitinho. Instantaneamente, o circuito voou para o anno da graça de 1900. Como eu estava conectado, fui junto. Num momento, eu vivia em 1999; no seguinte, cem annos antes. Eu havia descoberto a máchina do tempo, simples, barata, efficiente. Com uma vantagem adicional: ella me faria eterno. Quando voltasse a 1999, depois de viver outra vez todo o século 20, usaria de novo o artifício para recomeçar. Pensei no tédio de enfrentar os mesmos eventos, as mesmas catástrofes, as mesmas mortandades, afastei na hora o pessimismo. Preferi me concentrar nas dez décadas que teria pela frente. Eu lucraria muito com meus conhecimentos. Por exemplo, faria fortuna nas loterias. Memorizara vários números premiados. As boas perspectivas compensariam a mesmice.

O sonho acabou no primeiro minuto. Materializei-me no meio de uma multidão, à porta de uma igreja, que celebrava a esperança em 1900. Estupefactas, as senhorinhas sentiram-se obrigadas a desmaiar e os cavalheiros, a brandir bengalas em nome do pudor. Ganhei galos na cabeça e roxos no corpo. Toda nudez será castigada, no início ou no fim do século.

Quasi linchado, arranquei as pilhas que alimentavam os chips. Num átimo, voltei para casa. Fogos de artifício e canhões de laser illuminavam a noicte, os polliciaes ainda me ameaçavam prender. Os engraçadinhos insistiam: “Pulla, pulla, puuulla!”. Seria meu pullo a grande cellebração da virada do século? Não tinha a multidão programma melhor para fazer?

Adentrei o apartamento, tomado por um mau estar differente. Desde então, faz 15 anos e alguns meses, tenho a impressão de que algo se corrompeu em mim. Não consigo determinar o quê, mas percebo seus signaes, por exemplo quando a orthographia me trae ou esqueço a escripta. Sinto-me com mais de cem annos. O pharmacêutico me tractou com diversas poções, infructíferas até agora. Meu humor peora a cada dia. Minha memmória idem. Creo que deste millénio eu não passo.

 

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail