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O HOMEM QUE ALIMENTA POMBOS

 

Todas as manhãs, ao redor das dez horas, o muçulmano chega ao Regent´s Park, aqui em Londres, pela entrada próxima à Mesquita Central, na Park Road. Chega a caráter: turbante, barba comprida, bata, chinelo. Parece carregar uma melancia sobre a barriga. O rosto magro lembra o do Bin Laden.

Nem bem pisa no parque, uma revoada de pássaros o persegue. Gaivotas, patos, marrecos, gansos, galinhas-d´água, corvos, pombos, centenas de bichos. Até dois cisnes. Sem pressa, o São Francisco do Islã se dirige a um banco, tira dos sacos de supermercado dúzias de pães e quilos de flocos de milho, parte, reparte e lança a comida aos animais, que iniciam a luta pela sobrevivência. Ele tenta distribuir equitativamente a refeição, pois as gaivotas avançam na terra e no ar com a sanha de vikings e nada deixariam para as demais espécies.

Seu olhar é tranquilo, exala prazer na tarefa, nada o abala. Nem os pombos que, ávidos, pousam em seu turbante para se aproximarem de sua mão. Ali perto, em Baker Street, dezenas de pessoas protestam contra a presença de muçulmanos na Inglaterra. “São todos terroristas”, gritam os mais exaltados. Carros de polícia zunem pela Park Road. O homem, rodeado pelas aves, olha para elas, embevecido. Ignora a manifestação. Os pombos são da paz.

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Roteiros gratuitos de Londres – Regent´s Park

    Se me perguntarem qual é meu
lugar favorito de Londres, não hesito: Regent´s Park, em Westminster. É um dos
parques reais. Tem muito verde mesmo no inverno, muita flor no verão, beleza o
ano inteiro. Tem aves também. Milhares delas, de todo o mundo, nos ninhos, na
água, nas árvores. Algumas são tão atrevidas que atacam o sanduíche que estamos
comendo. Outras pousam na gente e, com delicadeza, ronronam seu apetite. Acabam
levando um agrado. Não é proibido alimentar os pássaros. A rainha deve
economizar um bocado de dinheiro, tamanho o apetite dos bichos.
    Ando pelo Regent´s Park em estado de
graça, às vezes quase congelando, às vezes debaixo de chuva, às vezes cheio de
cor ao redor, o olhar cativado pelos animais, pelas árvores, pelos canteiros,
pelas fontes, pelo gramado. Os frequentadores podem pisar e correr à vontade no
gramado. Ninguém vai lhes chamar a atenção. Há, ainda, campos de futebol. Uns
quinze, um colado ao outro, cheios nos fins de semana. Certa vez, faltou um jogador
para completar o time. Os desesperados para jogar me chamaram. Em poucos
minutos, desmanchei a fama de que todo brasileiro é bom de bola.
     Em junho e julho, há as rosas. 12.000 pés, de 400
espécies. Cada uma tem um nome. Nome de artista de cinema, de gente
conhecida, de realeza, de cor extravagante, de lugar famoso. Eu gostaria que as
flores durassem para sempre. Em outubro, já se foram. Só restam os tocos,
podados para a primavera seguinte. À sombra dos carvalhos, os bancos de jardim sempre me convidam para um cochilo. Numa tarde quente, sonhei que vi o coelho da Alice
no País das Maravilhas. Daí nasceu uma história.
     Circular por todo o parque é gratuito. Para quem não
se importa em gastar um pouco, há o Teatro ao Ar Livre. Tchekov está em cartaz nesta
semana com a peça A Gaivota. Se chover, pode trocar o ingresso para outro dia. Por
algumas libras, você também pode ver canguru, wallaby, pinguim, mico-leão-dourado,
gorila, tigre, aranha, cobra e ocapi no Zoológico, um dos maiores da Europa, que
guarda os últimos exemplares de algumas espécies. Meu bicho favorito é o
Professor Hu, uma salamandra gigante da China. Feio demais. Feiura em excesso vira
charme.

       O
Regent´s Park foi fundado em 1804. Na época, os ingleses, exageradamente orgulhosos
de seu poder, achavam que a natureza devia ser melhorada pelo
talento humano. O Regent´s Park foi uma dessas tentativas de aprimoramento. Melhorar
a natureza é tarefa desnecessária, até impossível, mas os londrinos chegaram
perto. Quando nada, faz mais de 200 anos que o Regent´s Park encanta as
pessoas. Sou uma delas.

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