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PROMESSA RESOLVE?

Agora que o Ano Novo chegou, espero que nossos planos, desejos e sonhos se tornem realidade. Temos doze meses para trabalhar e dar uma ajuda ao destino para conquistarmos os objetivos. Sempre que um ano se inicia, renovamos velhas promessas. Também sou assim.

Prometo-me coisas simples. Por exemplo, organizar meus livros. Entra e sai ano, renovo a esperança de racionalizar a distribuição das obras por assunto e autor. Esperança inútil. Para simplificar a tarefa, radicalizei. Doei três quartos de meu acervo para bibliotecas públicas. Os livros sobreviventes continuam espalhados pelas prateleiras num caos que só eu entendo. Mas sei onde achar cada exemplar. Melhor dizendo, sabia, pois alguém cismou de me ajudar, organizou meu caos e entrei em desespero. Cadê o Montaigne? E o Flaubert? E o Grande Sertão? E o Quincas Borba? E o Borges? E o danado do Shakespeare, completo? E o Murilo Rubião? Será que cometi comigo a desfaçatez de doar algum deles?

Preciso da presença de meus livros preferidos, de sua companhia. Me dão segurança, neles as coisas sempre estão bem, seguras, asseguradas, são tábuas de salvação, muletas para quando a vida capenga. Há obras para todos os gostos e climas. Elas têm personalidade própria, até se arvoram em caminhar sozinhas, como seres independentes. Ou você acha que o Dom Quixote não possui alma própria? Ou que Hamlet parou de dizer to be or not to be?

Ainda bem que tenho até dezembro para organizar meu caos. Se bem me conheço, a promessa vai ficar nisso mesmo, na promessa. Logo vou memorizar para onde cada livro foi remanejado, e as novas posições nas prateleiras se tornarão as definitivas. Entrarei na biblioteca e de novo saberei onde está o Mário Palmério. Ou Platão.

A vida carece de um pouco de desordem para se ordenar. Nem sempre para voltar à mesma. Talvez por isso a gente não cumpra ao longo do ano as promessas e boas vontades assumidas em janeiro. Tudo se ajeita, nada se enjeita. A capacidade de adaptação fez o sucesso da espécie humana. Portanto promessas não cumpridas fazem parte da gente, são nossa humanidade. O que importa é viver como a gente gosta.

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A ETERNIDADE É UM TIPO DE LIVRARIA

Tenho paixão pelas livrarias, onde quer que estejam. Gosto do ambiente, das obras expostas, da possibilidade de me surpreender, da cultura ali dispersa, do tanto que me resta ler, do tanto que jamais lerei. Gosto do cheiro dos volumes, da visão das capas, uma mais intrigante que a outra, da confusão de temas, da variedade dos gostos.

Tem mais: a gente não descobre os livros, eles é que nos escolhem, nos chamam, nos seduzem. A começar pelo título. Depois, abrimos a orelha, avançamos pela apresentação, olhamos as primeiras páginas, pronto: amor às primeiras vistas. Compro o livro já salivando de antemão pelo prazer que ele me reserva. Livro pavloviano.

Chego a minha casa, não resisto à curiosidade, caio na leitura, me esqueço do mundo, apegado a uma outra realidade, àquela que o escritor me proporciona com sua imaginação, cultura e talento. Caminhamos juntos, livro e eu, autor e eu, um e outro reelaborando o texto, adicionando a própria experiência, a própria estética, trocando ideias, remontando a trama.

Ler é, antes de tudo, fazer junto com o autor uma obra nova, em que as experiências comuns convergem na fantasia e na criatividade. Ler é subir a um mundo diferente, de onde se vê mais longe, mais longe do que a imaginação do escritor consegue viajar.

Daí minha paixão pelas livrarias, onde quer que estejam. Ali dentro brilham milhares de possibilidades para iluminar meu dia. Sou egoísta: torço para que nunca acabem.

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