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Brasas que nunca apagam

           Dizem
que a vingança é um prato que se come frio. No entanto, esperar quarenta e um
anos para fazer essa refeição não seria um prazo longo demais? Não é o que pensa o
septuagenário general Henrik em relação a seu melhor amigo, Konrad. A amizade
entre eles durante a juventude, quando frequentaram juntos a academia militar,
tinha sido tão próxima que tangenciava o erotismo. Eram como gêmeos no útero
materno. Depois de formados, trabalharam no quartel em Viena, até que Henrik
conheceu Kriztina e se casou com ela. Durante uma caçada, o recém-casado, pelos
sons e posição do amigo na mata, descobre que Konrad esteve para matá-lo. Horas
depois, Konrad desaparece no mundo. Por quê?
          Ao montar as peças do quebra-cabeças,
o general reconstrói os movimentos da esposa e do amigo, chega à conclusão
fatal, refugia-se numa ala de seu castelo, nunca mais fala com Kriztina e
aguarda o retorno de Konrad, que considera inevitável. Quarenta e um anos
depois, quando há muito Kriztina tinha morrido, Konrad de fato volta. Henrik,
que viveu para esse reencontro, está pronto para a vingança. Amor, amizade,
honra, culpa, pudor, inflexibilidade ética e raciocínio lógico permeiam o
desfecho.
          Se você deseja saber o que acontece
aos dois amigos, precisa ler As Brasas,
a fascinante novela do húngaro Sándor Márai. Guarde este nome, As Brasas, livro com menos de cento e
setenta páginas no qual Sándor Márai esbanja talento na descrição de perfis
psicológicos, costumes, cultura e ambientação durante os estertores do Império
Austro-húngaro. A tessitura de mestre prende-nos a atenção, com revelações e
surpresas página a página, em doses homeopáticas. A beleza da linguagem é
mantida na tradução de Rosa Freire d’Aguiar.
          As
Brasas
queimam mesmo depois de virarem um quadro na parede.
             

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