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A DOR DOS ARGENTINOS E DOS SERTANEJOS

Agora que o papa é hermano e os argentinos são notícia por causa das eleições presidenciais, pergunto-me qual livro melhor representaria o querido país vizinho. Minha escolha coincide com a de muita gente, inclusive a de Jorge Luis Borges, genial autor cujas obras mereceriam a honraria.

Assim, fico com o livro Martín Fierro, escrito por José Hernández na década de 1870. Faz, portanto, quase um século e meio que Martín Fierro encanta nossos hermanos. Ele aborda as lutas, golpes, perseguições, dores, amores, aventuras e desventuras do habitante das grandes pradarias dos nossos vizinhos, o gaúcho. Sim, é gauchesca a obra mais característica dos hermanos, com direito a todos os ingredientes do gênero, da honra desmedida ao machismo e à dor de cotovelo.

Trata-se de um longo poema, quase 1200 sextetos entremeados de composições mais longas, com rimas bem sonoras, bem ricas, na linguagem típica do gaúcho que era malquisto e malvisto pela aristocracia do país, mas que possuía um espírito cheio de orgulho e força, com uma filosofia marcada pela vicissitude.

José Hernández conhecia bem seu personagem, pois viveu próximo a ele desde a infância, a ponto de confundirem-se criador e criatura. Mergulhar em Martín Fierro é voltar no tempo, é pressentir as letras que fariam sucesso com o tango décadas depois.

Martín Fierro recupera um modo de vida que hoje em dia faz sucesso entre os fãs dos rodeios de Barretos, em São Paulo. Aliás, os sextetos de Martín Fierro facilmente se transformariam em música sertaneja, porém com qualidade muito superior àquela que a gente ouve. Infinitamente superior, diga-se de passagem.

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VISITA AO PARAÍSO – COM DIREITO A RETORNO

 

Nestes dias de muita turbulência, cansados de tanta corrupção e incompetência, nada como um cantinho bem quieto para refrescar nossa cabeça que anda deste tamanho. Que tal o paraíso? Lá tudo é sereno. Quer dizer, quase sereno. Melhor ainda se a gente puder visitá-lo e voltar em seguida. Pois consegui a façanha através de uma obra original, gostosa e criativa, dessas que a gente não larga até o fim, enquanto ri sozinho. Trata-se de um livro de crônicas que devolve à vida escritores já falecidos e lhes arranca palpites sobre as próprias criações, sobre o mundo atual, sobre o cotidiano dos vivos. Ah, sim, os ressuscitados também fofocam. Muito.

O autor do resgate de vinte e cinco escritores que já nos deixaram é o angolano José Eduardo Agualusa, conhecido entre nós por seus romances Estação das Chuvas e O vendedor de Passados. Agualusa psicografa opiniões de Machado de Assis sobre o acordo ortográfico, Vinicius de Morais elogia a literatura de Chico Buarque, Jorge Amado diz que a morte o salvou dos patrulheiros do politicamente correto, Bertrand Russell continua ateu mesmo no paraíso, Euclides da Cunha faz mortais revelações sobre sua vida, Saint-Exupéry explica por que O Pequeno Príncipe é o livro de cabeceira das misses, o padre Antônio Vieira defende a união dos povos lusófonos, Eça de Queirós inveja a juventude do Brasil, Jorge Luis Borges garante que recuperou a visão na vida eterna, mas lá infelizmente não existem livros, João Cabral de Mello Neto não parou de tomar aspirina depois que foi para o céu, Clarice Lispector descobriu que há tanto para não ver com olhos para sempre fechados, Fernando Pessoa ainda sofre do tédio de ser Fernando Pessoa, mesmo tendo sido mais de cem pessoas.

Os depoimentos contam com muitas pitadas de humor e ironia de Agualusa, o médium que visitou o outro mundo para que soubéssemos o que lá acontece ou não acontece. Para quem se interessa pela vida no paraíso, o endereço é o livro O Lugar do Morto, lançado pela editora portuguesa Tinta da China. Pôr-se no lugar do escritor morto, como faz o talento de Agualusa, é garantia de reflexão, humor e de cultura. Um pausa para repouso nesses dias agitados que temos pela frente.

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Um bruxo bom para a cabeça

Quem não se sente meio sem inspiração
de vez em quando, com os neurônios em recesso, o cérebro desligado? Sempre que
termino de escrever um livro, caio nesse processo, sofro com a entressafra,
acho que a fonte secou e nunca mais escreverei. Minha receita para sair do
parafuso é ler. Leio muito. De tudo. Sobretudo releio autores favoritos.
Para turbinar a cabeça, ninguém
melhor que Jorge Luis Borges. O bruxo argentino possui imaginação para dar e
emprestar. Seu excesso de criatividade me excita, besunta as sinapses e
restabelece o fluxo das ideias. Mergulho fundo nele, busco entendê-lo
no momento da criação, encanto-me com os meandros de sua mente. Viajo na
biblioteca sem fim de Babel, nos caminhos que se bifurcam em Almotásin, no
Aleph que tudo contém, devoro as histórias da infâmia, admiro a erudição,
pesquiso quais citações são verdadeiras ou inventadas, descubro nuances das
quais não desconfiava, passeio até pelo fervor de Buenos Aires, renovo a
impressão de que Borges, brilhante demais, conciso demais, tinha preguiça para
escrever histórias longas, um romance por exemplo.
Aliás, essa impressão me foi
confirmada por dois de seus amigos na capital argentina, onde certa vez, anos
depois da morte de Borges, conheci um sósia seu, um senhor tão parecido que
quase lhe pedi autógrafo. Admirador tem cada idiossincrasia…

Nesses dias em que começo a sair da
entressafra, uma vez mais fico em débito com o bruxo portenho. Bela
maneira de me curar ou, quem sabe, me adoecer de novo para a escrita. Ah se
todo remédio fosse assim tão perfeito e gostoso. Pois passo a receita a todos. Se
funcionar, passem adiante. Boa leitura não tem contraindicação. Nem fim. Como
diria Borges, é um eterno retorno. 
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