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VISITA AO PARAÍSO – COM DIREITO A RETORNO

 

Nestes dias de muita turbulência, cansados de tanta corrupção e incompetência, nada como um cantinho bem quieto para refrescar nossa cabeça que anda deste tamanho. Que tal o paraíso? Lá tudo é sereno. Quer dizer, quase sereno. Melhor ainda se a gente puder visitá-lo e voltar em seguida. Pois consegui a façanha através de uma obra original, gostosa e criativa, dessas que a gente não larga até o fim, enquanto ri sozinho. Trata-se de um livro de crônicas que devolve à vida escritores já falecidos e lhes arranca palpites sobre as próprias criações, sobre o mundo atual, sobre o cotidiano dos vivos. Ah, sim, os ressuscitados também fofocam. Muito.

O autor do resgate de vinte e cinco escritores que já nos deixaram é o angolano José Eduardo Agualusa, conhecido entre nós por seus romances Estação das Chuvas e O vendedor de Passados. Agualusa psicografa opiniões de Machado de Assis sobre o acordo ortográfico, Vinicius de Morais elogia a literatura de Chico Buarque, Jorge Amado diz que a morte o salvou dos patrulheiros do politicamente correto, Bertrand Russell continua ateu mesmo no paraíso, Euclides da Cunha faz mortais revelações sobre sua vida, Saint-Exupéry explica por que O Pequeno Príncipe é o livro de cabeceira das misses, o padre Antônio Vieira defende a união dos povos lusófonos, Eça de Queirós inveja a juventude do Brasil, Jorge Luis Borges garante que recuperou a visão na vida eterna, mas lá infelizmente não existem livros, João Cabral de Mello Neto não parou de tomar aspirina depois que foi para o céu, Clarice Lispector descobriu que há tanto para não ver com olhos para sempre fechados, Fernando Pessoa ainda sofre do tédio de ser Fernando Pessoa, mesmo tendo sido mais de cem pessoas.

Os depoimentos contam com muitas pitadas de humor e ironia de Agualusa, o médium que visitou o outro mundo para que soubéssemos o que lá acontece ou não acontece. Para quem se interessa pela vida no paraíso, o endereço é o livro O Lugar do Morto, lançado pela editora portuguesa Tinta da China. Pôr-se no lugar do escritor morto, como faz o talento de Agualusa, é garantia de reflexão, humor e de cultura. Um pausa para repouso nesses dias agitados que temos pela frente.

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Uma poeta de ouro

           Preste
atenção na pronúncia deste belo, sonoro e complicado nome: [viˈswava ʂɨmˈbɔrska]. Vou repetir: [viˈswava ʂɨmˈbɔrska]. Seu nome de
batismo: Wislawa Szymborska. Era escritora polonesa, nascida em 1923, ganhou o
prêmio Nobel de Literatura de 1996 por sua poesia que, com precisão irônica,
traz à luz o contexto histórico e biológico da realidade humana. Além da
ironia, ela se vale de paradoxos, contradições e reticências para investir em seus
temas preferidos, como a filosofia e o relacionamento entre as pessoas.
          Seus
poemas, em geral, são realistas, sucintos, densos, alguns com dez versos
apenas. Nesse curto espaço, ela aborda dramas existenciais e éticos que
refletem a condição do indivíduo, bem como a da coletividade, sobretudo a da
Polônia atual. Daí a alcunha de “poeta filosófica” ou “poeta da consciência do
ser”. Carimbos difíceis que não condizem com a fluidez de sua obra.
          Seu
trabalho de introspecção e sabedoria não chega a trezentos poemas, tampouco
existia no Brasil tradução de sua obra até setembro de 2011, quando a coletânea
Poemas saiu pela Companhia das Letras.
Descubra este livro. Vale a pena.
          Para
lhe trazer um gostinho de Szymborska, traduzi de Um encontro inesperado:
          A gente se trata com cortesia demais,
          ano após ano repetimos como é bom
estarmos juntos.
          Nossos tigres bebem leite,
          nossos tubarões se afogaram,
          nossos pavões renunciaram ao leque de
penas,
          nós emudecemos no meio das frases,
          cheios de sorrisos e passado.
          Por nossa humanidade,
          nós dois desaprendemos a fala.
          Como
se vê, em poucos versos ela descreve a dura realidade de muitos
relacionamentos. Na verdade, Wislawa não precisa falar muito para
dar o recado. Daí seus 300 poemas apenas. Ela morreu em 2012. Nesta semana, ela
teria completado 93 anos. Ficou a boa lembrança.
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