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A CIÊNCIA ERRA?

       O século 20 começou com certezas absolutas – e
combateu-as a ponto de questionar a existência da própria realidade. Graças aos
físicos, o mundo ficou de pernas para o ar. A reviravolta começou com Einstein
e a relativização do espaço e do tempo. Qual rolo compressor, suas ideias vêm
influenciando a ciência e a cultura. “Relativizai-vos ou perecei”, ameaça a esfinge
da modernidade, segura da inexistência de um Édipo para enfrentá-la.
     No início do século 20, a Via Láctea significava
o limite do cosmo. Hoje, as imagens do telescópio Hubble revelaram duzentos
bilhões de galáxias. A Terra havia perdido a primazia do centro de tudo, o Sol
não se aguentou no trono por muito tempo, a Via Láctea, menos ainda. E nós, os
seres humanos? De queda em queda, de donos do paraíso terminamos alijados para
um cantinho insignificante do infinito. Resumindo, os físicos nos degradaram, isto é,
degredaram, do absoluto para o nada. Viramos pó. Infinito em pó.
     A insignificância humana contaminou vários
pesquisadores que decretaram o fim das próprias atividades. Depois da
guilhotinada na história feita por Fukuyama, uma idiotice, a ciência também subiu ao cadafalso.
Seus carrascos são ganhadores do Nobel e frequentam a mídia com a desenvoltura
de atores de Hollywood. Gente famosa como Stephen Hawking, Steven Weinberg,
Richard Dawkins e Francis Crick afirma, às claras ou nas entrelinhas, que o
conhecimento está completo em suas linhas mestras. Resta para as gerações
futuras o trabalho de botânicos, ou seja, a busca paciente de espécies de
informação para enquadrá-las nos grandes reinos, filos e classes hoje
definidos. Doravante a ciência vegetará. Adeus, grandes avanços. Adeus,
revoluções.      
     Arroubos à parte, essa visão pessimista – e
triunfalista ao mesmo tempo – tem fundamento? Na verdade, não. O argumento de
que, nas últimas décadas, nada básico se acrescentou à física ou à biologia não
exclui, em princípio, a abertura de novos reinos ou filos na taxonomia da
natureza.
     A morte súbita da ciência, decretada à revelia,
desprovida de elementos para avaliação é, portanto, mero palpite – e palpite
não falta entre os cientistas, de resto seres mortais e sujeitos a erros. Em
alguns congressos, eles divagam mais que amigos em mesa de bar depois da décima
dose. Costumam discutir sexo de anjo com candura bizantina. No Japão,
pesquisaram durante anos a influência das nadadeiras do tubarão na geração de
maremotos.
     Do debate em questão fica, se tanto, o benefício da
dúvida. A mecânica quântica, que maneja a incerteza com perícia, bem poderia
dar-nos uma resposta sobre o próprio fim, aliás, incerto como o início de tudo.
Como a resposta não existe, retomo o degredo humano para um cantinho sem
atrativos do Universo, imposto pelos cosmólogos. De relativização em
relativização, de probabilidade em probabilidade, viramos nada. Há algo mais
absoluto que o nada?
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Dilema do Brasil: inventar ou imitar?

Ao final da tarde de vinte e dois de
setembro de 1786, na cidade italiana de Vicenza, reuniram-se cerca de
quinhentas pessoas para discutir o que havia trazido
maior proveito às belas artes, a invenção ou a imitação. Os defensores da
imitação venceram, pois, segundo uma testemunha ocular dos debates, “não
afirmaram senão o que a malta pensa, ou é capaz de pensar”. 
De repente, flagrei-me a pensar: o que
é melhor para o Brasil, inventar ou imitar? Na cultura, submetemo-nos com frequência
ao que vem de fora, copiando muita coisa supérflua e de mau gosto. Quem quiser
exemplos folheie as revistas e os jornais, ou veja a televisão. Até parece que a
inauguração de uma pracinha em
Nova York e o aniversário de um ator em Hollywood são efemérides
brasileiras, tamanho o espaço que ocupam. Isso é indigência cultural. Nessa toada, no dia em que a
cadelinha da Casa Branca ficar doente, teremos vigília, velas, promessas e
milhares de brasileiros cantando música cáuntri
 em prol da saúde canina. 
          O antigo
dilema, entra governo, sai governo, toma conta de Brasília: devemos importar ou
desenvolver tecnologia própria? Repisam-se os argumentos costumeiros: não se
deve reinventar a pólvora; é mais barato comprar know-how lá fora; nascemos, pela extensão climática e territorial, com
vocação para a agricultura; devemos deixar esse negócio de tecnologia para os
norte-americanos, chineses e japoneses, anos-luz à nossa frente. Existem, é claro, os
paladinos da autonomia, defenestrados pela eterna alegação: não temos dinheiro
– e tecnologia. E as decisões ficam para depois.
Em conseqüência, o fosso se alarga, e
sucumbimos ao subdesenvolvimento. Quando nada, possuímos setores de ponta que
pouco devem aos estrangeiros. Uma maneira de incentivá-los seria consumar o
casamento entre a universidade e a indústria. Em outras palavras, transformar a
pesquisa em patentes. Os
chineses oferecem um caminho adicional. Copiam para exportar, de olho no
exemplo anterior dos japoneses. Com o dinheiro arrecadado, desenvolvem as
próprias novidades. Com tanta cara de pau, acertaram na escolha.
Inventar ou imitar? A questão continua
aberta, porém Vicenza ainda pode lançar mais luz sobre ela. Em 1786, a cidade estava
decadente após o auge no século 16, quando a ousadia de criadores como Palladio
revolucionou sua arquitetura e a transformou em referência na Europa. Teria a
ausência de ímpeto e força motivado o resultado do debate?
Por falar em ímpeto e força, a
testemunha ocular citada foi Goethe. Em viagem pela Itália, ficou seduzido pela
cultura peninsular, a ponto de escrever duas obras ditas italianas, Ifigênia e Torquato Tasso, sem
contudo perder a identidade de autor. A história de Fausto tampouco é original. Alguém entretanto a separa de Goethe?
Seu gênio fez da imitação uma invenção, criando uma obra-prima.

          A
moeda, quando lançada, pode dar cara ou coroa. É preciso fazer a escolha, com
toda a informação disponível. Se inventarmos apostar na parada da moeda em pé,
aí sim teremos um problema. O Brasil ainda não sabe disso.

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O dia em que escalei o letreiro de Hollywood

     Toda sociedade possui seus ritos de passagem, escancarados ou não. Quando reprimidos, os jovens os revigoram, pelo prazer de se testar, de se afirmar perante o grupo, de dizer ao mundo que chegaram à idade adulta. Darwin explica isso melhor que Freud.
     Em Los Angeles, há muitos anos, o supremo teste de coragem para um adolescente era escalar o letreiro de Hollywood, aquela marca na montanha que identifica a capital do cinema. Chegar ao topo de qualquer das nove letras garantia a admiração dos menos corajosos e o orgulho do escalador. A cidade guardava, como alerta, os nomes dos rapazes que, ao longo das gerações, despencaram e morreram ou ficaram aleijados.
     Havia algumas dicas importantes para os aventureiros. Como o letreiro era um símbolo da cidade, ele ficava sob guarda. No sábado à tarde ou no domingo de manhã, porém, os seguranças costumavam abandonar o serviço, já que ninguém é de ferro. Tampouco se podia acreditar nos enormes cartazes que ameaçavam processar com a severidade da lei quem ultrapassasse a cerca que delimitava o monumento. A cerca, aliás, tantos eram seus fios de arame farpado, também intimidava. Por último, precisava-se de uma corda, pois a escada de marinheiro que conduzia ao topo começava a uns dois metros do chão.
     Parti para a aventura com um colega de escola num sábado à tarde. Demos sorte. Como previsto, no meio do deserto que circunda a montanha, o segurança se sentiu seguro o bastante para sumir do serviço. Ultrapassada a cerca, a corda facilitou o início da escalada. Depois, grudados aos degraus da escada, fomos subindo rumo à glória. Bem rápido, para evitar sermos flagrados.
     Quase no fim da letra H, levei um escorregão ao trocar o pé e por pouco não caí. Altura de um prédio de seis andares, talvez sete. Segurei-me pelos braços, sem encontrar apoio para os pés. Embranqueci. Gelei. Tremi da cabeça ao mindinho. Fiquei com medo de prosseguir. Meu amigo me incentivou a continuar. Igual bicho-preguiça, fui em frente.
     Ao alcançar o topo, veio a decepção. A vista era horrorosa. Hollywood não passava de um amontoado de galpões de cinema no meio do deserto, uma ou outra palmeira a destoar da monotonia da planície. Ainda sob efeito da descarga de adrenalina, perguntei-me por que assumira tanto risco.
     De repente, ouvi o grito de vitória de meu amigo. Então me dei conta de que conseguira.Conseguira. Isso era o que importava. Também gritei. Escalar o H de Hollywood, por mais arriscado que fosse, por mais sem graça que pudesse ser a vista, tinha um valor simbólico. Um valor que não tem preço.

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