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A ARTE DE COMER PELAS BEIRADAS

 

O chinês Sun Tzu faz sucesso dois mil e quinhentos anos depois de morto. Ele escreveu “A Arte da Guerra”, livro que deveria se chamar “A Arte de Comer o Inimigo pelas Beiradas”. O livro faz tanto sucesso que há gente ganhando dinheiro ensinando essa arte para empresários. Eta gente arteira!                                                                                                           Segundo Sun Tzu, a melhor batalha se vence sem disparar as armas, dobrando o oponente através da exibição de força e de organização. Em outras palavras, deve-se convencer o inimigo de que perderá a luta, caso ouse o enfrentamento. Esta é hoje a estratégia usada pela China em seu relacionamento com o exterior.  Aprendeu com seu próprio mestre. Sua pujança e poderio inibem desafios. Tornou-se a economia da qual o mundo depende para crescer. Todos querem vender para eles. Os chineses tiram proveito da situação. Pergunte ao dalai lama. Sob ameaça de retaliação, Pequim já obrigou muitos países a desconvidar o líder budista para visitá-los. Pragmatismo comercial.
Sem disparos, também, foi a conquista dos Estados Unidos através do controle da maior arma do capitalismo: o capital. Com reservas trilionárias em dólares, os comunistas aterrorizam Washington quando insinuam que não mais comprarão papéis do Tesouro ianque. O dólar viraria pó, caso esse dinheiro fosse direcionado, por exemplo, para o ouro (cujo preço iria para o espaço). Com tamanho trunfo na manga, Pequim adia para sempre a independência do Tibete (nascente dos principais mananciais de água chineses) e, aos poucos, reabocanha Taiwan (que também tenta aproveitar os bons ventos do continente). Ao mesmo tempo, adquire empresas e terra em vários países. Sem que percebamos, em muitas fábricas e fazendas no Ocidente, já se fala mandarim.                                                        
Em outra estratégia de Sun Tzu, a China destrói os parques industriais de muitas nações, inundando-os com produtos baratos. Não poupa os Estados Unidos ou Bangladesh, o Brasil ou a Alemanha. Tentará ela, no futuro, quando detiver o monopólio de milhares de artigos, impor os preços que bem entender? Por que resistiria à tentação?                                 A revista The Economist antecipou para 2018 a transformação do país em maior economia global, desbancando a norte-americana. Daí o medo do pernóstico Trump: não quer engolir o segundo lugar justamente quando é presidente. Vai fazer de tudo para barrar o crescimento chinês. Até guerra, podemos esperar. A China será o inimigo público número 1 da Era Trumpete (ou Era Topete, sei lá).                                                                          Santo de casa faz milagre, sim. Os chineses que o digam. Comendo pelas beiradas, Sun Tzu vem ganhando a guerra para eles. Sem um disparo. Por enquanto.

P.S. Para quem não gosta de ler, Sun Tzu também escreveu: “Quanto mais você ler e aprender, menos seu inimigo saberá”.

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GUERRA DE TRAVESSEIROS

 

O grande segredo do escritor é manter o espírito jovem, curioso, destemido, que avança sobre o tempo como se ele durasse para sempre januvia 50 mg. Alguns resumem este segredo na fórmula Peter Pan: nunca cresça. Há limites. Estou muito contente com minha vida adulta, não quero regredir de maneira alguma. Detestaria usar fralda, chupar bico ou pedir autorização para sair de casa. No entanto…

No entanto, no mundo adulto há espaço para brincadeiras que a maior parte dos crescidos despreza. Sobretudo brincadeira com quem ainda não cresceu e, com todo o direito, vive a infância em toda a sua graça. É o caso de meus netos. Eles adoram uma luta de travesseiros. Eu também.

De vez em quando, eles se juntam e, não sei por quê, sempre me elegem a vítima do grupo. Caem sobre mim com a força dos braços, sem se pouparem, a ponto de, vez ou outra, voar penas ou flocos para os lados. E, ocasionalmente, um deles, atingido por um golpe certeiro.

Dia desses, num hotel, meus quatro netos mais velhos combinaram comigo uma guerra, enquanto os pais jantassem fora. Combinação em segredo, pois pais, se puderem, colocam empecilho em tudo. Sou pai, conheço o mecanismo. Como também sou avô, dou-me o direito de desligar o mecanismo, em nome da farra. Mais vale uma pequena lembrança que uma grande repressão.

Lutamos os cinco com tanto vigor que, lá pelas tantas, o apartamento do hotel virou algazarra. Depois que pegaram fogo, não adiantou avisar às crianças que excedíamos em barulho e pulos no chão. Alertei-os sobre o incômodo para os vizinhos. Que nada, a briga estava boa demais para arrefecer o ânimo. Nem um abajur lançado ao chão por má pontaria os fez mudar de ideia.

De repente, o telefone tocou. A recepcionista, muito delicada, informou que os hóspedes de cima, de baixo, da frente e dos lados pediam para encerrarmos a bagunça. Morri de vergonha, mas estava feito. Cedi a vitória por nocaute aos netos, e os coloquei para dormir.

Ao ver os quatro juntos, lado a lado numa cama de casal, em sono solto, leve sorriso nos lábios, senti uma enorme alegria: a lembrança da luta duraria muito mais entre eles que em mim. Eles me concederiam a eternidade, sua doce eternidade da infância, preservada pela memória. Como se o tempo durasse para sempre. E todas as guerras terminassem em tamanha paz.

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A ARTE DE CARREGAR UMA MORIBUNDA NUM CARRINHO DE MÃO

 

Através da literatura, a gente conhece muitos países, visita seus sertões, encontra sua gente, recorda o passado com suas histórias boas e cruéis. Conhece sem sair do lugar, no conforto de uma poltrona, a mente presa e liberta pelas páginas que lê. Quer conhecer a África do Sul gastando quase nada? Isso é possível através da arte de JM Coetzee, o mais famoso escritor sul-africano da atualidade. Até o Prêmio Nobel ele já ganhou.

“Vida e Época de Michael K” é o romance de Coetzee que traz um homem envolvido numa guerra que não compreende, perseguido por agentes de um regime totalitário, assediado por pessoas que desejam controlá-lo. Sem saber, Michael busca a liberdade, nasceu para ela e quase a perde nas armadilhas que a sociedade lhe prepara: o cárcere, o trabalho forçado, a sedução, o amor filial, o compromisso, a obrigação de ir até o fim. Ele vive uma situação insólita: carrega a mãe doente num carrinho de mão África do Sul afora, em busca do lugar onde ela teria nascido e agora deseja morrer. Faz esse último pedido a Michael, que o atende. Depois do desenlace, ele, abobalhado, deformado de nascença, inculto, não faz perguntas, não questiona, apenas cumpre a promessa, embora não saiba ao certo se o lugar ao qual leva as cinzas maternas é, de fato, o torrão natal dela.

Apesar de todo o cerceamento, Michael é um homem livre: acompanha na escuridão a semente que germina, esgueira-se entre as pessoas como sombra, contempla o mar e o céu, nada espera do mundo, nada sonha. Livre, simplesmente vive.

JM Coetzee consegue com um personagem tão simplório criar uma obra cativante, hipnótica, inesquecível. Tece a trama com as minúcias de um crochê. Para completar o fascínio, adiciona o cheiro das paisagens, a beleza das estepes e das montanhas, a amplidão dos vazios geográficos sul-africanos. Ao mesmo tempo, escreve um violento libelo contra a tirania, o totalitarismo, a guerra, a discriminação. Literatura, já disseram, é magia. Coetzee é um de seus grandes magos.

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A rodada de pôquer que evitou uma guerra

Eu passava as férias num hotel em
Puyehué, no Sul do Chile, na divisa com a Argentina. Tempo de ditaduras na América Latina. Tempo
de tortura, disputa e arrogância. Num fim de tarde, a situação degringolou. De
um lado e outro, os generais ameaçaram invadir e aniquilar os vizinhos. Ocupado
com passeios com a família, eu ignorava que havia uma guerra iminente entre o
Chile e a Argentina. Ao descobrir, estremeci, temendo virar picadinho, junto
com os filhos. O gerente do hotel, para me tranquilizar e afastar qualquer
possibilidade de perigo, convidou-me para um jogo de pôquer secreto, numa
cabana perdida nas encostas dos Andes. Só descobriria quem eram os dois outros parceiros
na hora do jogo. Ressabiado, aceitei.
O gerente e eu viajamos numa estrada de
terra, quase atolando a cada dez metros. Após uma hora no meio da floresta, uma subida sem fim, chegamos à cabana. Nem bem nos assentamos ao redor de uma
mesa feita com tronco de pinheiro, entra Carlos. Apresenta-se: é o comandante
das forças armadas chilenas na região. Traz várias garrafas de Old Parr e Coca-Cola. Diz que o uísque fora confiscado de contrabandistas de fronteira e
deveria ter sido enviado para Pinochet, mas, ele não entendia como, várias
caixas tinham ficado para trás, e precisávamos consumi-las antes que perdessem
a validade. Além disso, detestava Pinochet. Rindo muito, pediu minha ajuda para
esvaziar a primeira garrafa. Imbuído de nobre espírito de latinidad, concordei. Carlos apreciava a bebida misturada ao
refrigerante, meio a meio, um desperdício. A pecaminosa combinação tinha nome: chipe,
ou algo parecido.
Ao final da terceira dose, escuto
roncos de tanque de guerra. Começo da invasão? Delírio etílico? Nada disso. Num
blindado leve, chega o misterioso companheiro que faltava. Pois não é que o
dito cujo era justamente o comandante das forças argentinas? Os dois homens
que, de acordo com os jornais e a boataria, deveriam trocar tiros e bombas no
dia seguinte, passariam a noite jogando pôquer e bebendo uísque juntos. Tornaram-se
amigos depois de apresentados por Fernando, o gerente do hotel, em sua festa de
aniversário. A amizade, entretanto, não podia se tornar pública, senão lhes
comprometeria a carreira nas forças armadas, ainda mais diante do clima de tensão existente entre
Santiago e Buenos Aires. Daí tanto segredo, daí a preferência por estranhos,
sobretudo estrangeiros, para completar o quarteto de blefadores.
Jogamos até a madrugada, enquanto nos divertíamos com piadas e casos de nossos três países. Levantamos os copos a cada gargalhada.
Juanito, o militar argentino, morreu de rir quando lhe contei que seus
compatriotas, para suicidar, pulam do alto de seus egos. 
Ajudados pela mediação escocesa, reviramos
nossa latinidad, nosso caldo cultural
com idênticos temperos, nossas raízes comuns, nossos mesmos tiques, nossas
visões sobre a vida que, no fundo, coincidiam.
A guerra entre o Chile e a Argentina
jamais aconteceu. Perdeu o ímpeto, pois os dois protagonistas se uniam numa
mesa de pôquer, regada a uísque confiscado.
Para mim a Rodada de Puyehué teve gosto
especial: ganhei dos três.          

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