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Uma espécie em extinção

      Muitos
escritores odeiam os críticos literários, que consideram chupins do trabalho
alheio. Dizem que quem não tem competência para escrever vira crítico. Discordo
desses colegas. Críticos literários, profissionais em extinção no Brasil,
quase sempre ligados ao meio acadêmico, ampliam nossas possibilidades de leitura,
mostram virtudes e defeitos de um livro, comparam-no a outros, às vezes
enveredam pela vida do autor e descobrem fatos relevantes para a análise,
facilitam a escolha do leitor que não tem tempo para acompanhar lançamentos ou
reedições.
          O crítico reflete seu tempo e sua
cultura, daí a multiplicidade de pontos de vista sobre uma mesma obra. Por
exemplo, houve quem recebesse Grande
Sertão: Veredas
com reservas. Há quem ainda faça restrições à literatura
atual – ou quem tenha tachado de geniais trabalhos que sucumbiram ao peso dos
anos. Pecados veniais, contudo.
          Apesar de serem poucos os remanescentes
no Brasil, pela diversidade de formação os críticos duelam entre si, cada qual
na defesa de seu feudo intelectual. Atacam-se às vezes com acidez, exibindo
armas como dogmatismo, estruturalismo, estilo, fenomenologia, impressionismo.
Alguns se valem de uma erudição estéril, outros, de sua verve catilinária. Alguns
defendem enredos na grande tradição europeia, outros valorizam mais os
transgressores. Uns são enxutos, outros abusam da verborreia.

          Sim,
muitos escritores os desprezam, mas os críticos são, porém, imprescindíveis. Com seu conhecimento e intuição acertam mais do que erram.
Diante de um mercado inundado por muito lixo, modismo e oportunismo, ajudam-nos
a economizar tempo e dinheiro. Quase sempre nos garantem uma boa leitura. Uma pena que estejam a um passo da extinção. 

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Um mago de outros mundos

        Já
participei de seminários, palestras e congressos sobre Guimarães Rosa no
Brasil, Inglaterra e Alemanha. A maioria dos trabalhos abordava Grande Sertão: Veredas,
obra-prima do autor. O que faz Grande
Sertão: Veredas tão estudado, tão sedutor, apesar de nunca ter caído no
gosto popular?
          O romance é uma soma de tramas,
invenções, reinterpretações e símbolos. Tramas, invenções, reinterpretações e
símbolos linguísticos, geográficos, mitológicos, filosóficos, literários. Tudo
bem combinado com talento, audácia e originalidade. Mistura de real e
sobrenatural, de minúcias do sertão e lendas medievais, de linguagem cabocla e
neologismos enraizados em diversas línguas, de honra masculina e
homossexualidade, de vivência e psicanálise, de sutileza e violência, de amor e
pecado, de deus com o diabo. Grande Sertão oferece uma orgia para os
sentidos. Deste e de outros mundos.
          É difícil penetrar em seus meandros,
emaranhados, veredas. Uma vez dentro do mundo rosiano, o prazer é intenso. A
saga dos jagunços Riobaldo e Diadorim transcende o sertão e se faz humanidade.
Minas Gerais vira um universo único, nascido no ventre de Rosa, morto com ele.
Nós, leitores, ao final do livro, sentimos a epifania da arte, o intelecto
transformador e o transformado, o êxtase da literatura.
          Sim, vale a pena desbravar o Grande Sertão. Há magia nele, há um mago por trás de suas páginas. Se
Machado de Assis é o Bruxo do Cosme Velho, com carinho, merecimento e admiração
Guimarães Rosa é o Bruxo de Cordisburgo. Bruxo dos bons, ao mesmo tempo mago e
magia. Com direito a um caldeirão onde cabem línguas, filósofos, escritores,
vidas e vivências que o mago devorou.

         
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