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O GATO DE LENÇÓIS

 

Quem desce a rua da prefeitura de Lençóis, no sertão da Bahia, encontra o gato de Alice no País das Maravilhas esparramado sobre o peitoril de uma das seis janelas de um casarão centenário. Pachorrento, pelo escovado como se recém-saído de salão de beleza, o animal deixa tombar com displicência uma das patas sobre a parede, o que incrementa a pose de preguiça. Pálpebras cerradas, dispensa aos desconhecidos que o acariciam o descaso de profundo conhecedor da espécie humana: gente chega, gente vai, ele fica. Não se move nem para agradecer a atenção. Das sete vidas, já gastou seis. Longas, por sinal. Muito longas.

À sombra do velho beiral, ele vive no passado. Relembra ex-poderosos da cidade que não pagavam salário aos empregados “para não deixar o povo mal acostumado”. Auxiliados por jagunços, os coronéis mantiveram a escravidão século 20 adentro. Cem anos antes, o felino rememora a corrida aos diamantes, quando a área conheceu o auge e ganhou o nome atual: Chapada Diamantina. No entanto, foram descobertas as minas da África do Sul, mais fáceis e baratas para explorar, e Lençóis entrou em maus lençóis: chegou a decadência. A população caiu para menos da metade.

O gato avança pelo passado, mergulha na história da própria Terra, gravada nos canyons, serras e planícies da região. Enxerga terremotos que rasgaram as rochas, treme ante o choque de placas tectônicas a erguer e afundar toda uma cordilheira, foge do mar que invadiu o sertão até secar milênios mais tarde. Então viu o gelo e o dilúvio chegarem e embaralharem os testemunhos antigos.

O bichano estaca setecentos milhões de anos atrás, quando a Chapada se acalmou em termos geológicos, sem ter com quem trocar ideia: na época, a vida se resumia a simples algas. Ele se teletransporta ao alto do Morro do Castelo e, lá de cima, descortina a vista que jamais o cansa. A cada dia, surpreende-se com a longevidade do planeta. Sabe que a Terra acabará engolindo-o de volta. Questão de tempo. Mas quem já viveu tanto não tem essas preocupações comezinhas.

Com o sorriso de seu famoso parente de Cheshire, o gato de Lençóis se diverte com a presunção de muitos felinos que acreditam ter sido o mundo feito exclusivamente para eles, através do toque de uma varinha mágica. Escuta na velha eletrola da casa o refrão “o sertão vai virar, o mar vai virar sertão”, balança a cabeça em concordância, mas sabe que não estará aqui para o próximo round do dilúvio. Talvez nem sua espécie.

Coço-lhe a cabeça atrás das orelhas, ele se derrete ainda mais no parapeito, ronrona. Com preguiça, abre os olhos. Só então descubro que é cego.

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A SEDUÇÃO DO DESERTO

 

Acabo de chegar do Norte da Argentina, região pouco frequentada pelos brasileiros. Nada frequentada, melhor dizendo. Talvez porque seja a parte mais pobre do país. “Nosso Terceiro Mundo”, definiu um hermano, orgulhoso de ter nascido bem longe, em Buenos Aires. Nós, brasileiros, raciocinamos da mesma maneira. Possuímos verdadeiro horror pelo que não possua algum glamour e reconhecimento internacional. Preferimos o falso requinte de uma Disneylândia a uma cultura original que não se apegou ao fake e ao marketing. “Quando viajo, não quero ver pobreza”, me confessa um amigo. “Pobreza basta a daqui”. A gente perde muita beleza com essa mentalidade.

Para chegar ao Norte da Argentina, saí de Córdoba rumo a Salta, quase mil quilômetros de boas estradas numa só reta, com passagem pelos Vales Calchaquies, região de bons vinhos e estranhas formações rochosas. Depois, segui em direção à Bolívia, país que exerce forte influência na região, não apenas pela cultura, como pela etnia indígena aimará, dominante nos Andes, a cordilheira que atravessa a parte ocidental da América do Sul. Mais de 8000 km de extensão. Os picos mais altos das Américas.

Ao chegar à Quebrada de Humahuaca, na província de Jujuy, o deserto tomou conta da paisagem. Secura, calor, cáctus, areia, poeira. Montanhas nuas multicoloridas. Uma delas, o Hornocal, dizem ter mais de 20 estratos empilhados, cada um de uma cor. Contei seis, que se repetem em ondulações, produzindo uma das mais belas paisagens que se possa imaginar: quilômetros de encostas, a 4300 metros de altitude, onde o vermelho, o rosa, o verde, o branco, o cinza e o amarelo aparecem lado a lado, em faixas horizontais que os movimentos da Terra puseram quase na vertical. São como ondas congeladas de um passado violento, mais tarde polido pelo gelo e pela água. Ali perto, em Purmamarca, o espetáculo se repete, ainda mais vermelho, num cânion que leva justamente o nome de Colorado. Em Tilcara, as geleiras extintas deixaram seu rastro de montanhas de pedra e areia onde o tempo esculpiu castelos, covas e pináculos que lembram o chapéu de uma bruxa. Aí também os índios pucará construíram uma cidade de pedra. Abandonada há séculos, as ruínas foram restauradas e dão uma boa ideia da difícil sobrevivência no deserto. No entanto, se isso serve de consolo, o pôr do sol em toda a Quebrada de Humahuaca vale a viagem. Vale a viagem e deixa troco de saudade. O colorido dos morros, picos e formações rochosas assume tonalidades que lembram o planeta Marte. Bem aqui na Terra.

O Norte da Argentina pode não ser conhecido dos brasileiros, pode não ter fama, pode não ter glamour internacional, mas possui a Terra em seu estado puro, em sua geologia exposta, em suas entranhas revoltas, em suas imensas possibilidades de beleza. Tem ainda a cultura ancestral aimará e pucará. A ONU reconheceu esses valores. Transformou recentemente a Quebrada de Humahuaca em Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade. Com muito merecimento, diga-se. Para comprovar, basta ir lá, ver e se encantar. E trazer na memória, bem vivos, exemplos de como nosso planeta tem sido genioso ao longo das eras.

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Encontro com o demo e o puma na Patagônia

Sozinho no Sul do Chile, em pleno
inverno patagônico, eu voltava do vulcão Antillanca rumo a Puyehué, quando o
entardecer me pegou no final da caminhada de vinte quilômetros. Silêncio e paz
a meu redor. Nem passarinho fazia barulho. Poucos quilômetros depois de Aguas
Calientes, avistei um cavaleiro. Fiquei contente. Uma alma viva! O homem, de
grande estatura, montava um descomunal cavalo preto. Vestia calça, camisa,
jaleco, luvas e capa que cobria as ancas do animal, tudo preto. Até o chapéu de
Zorro era preto. O olhar fixava um ponto no infinito, duro como bridão,
contundente como espora. Trotava com galhardia, tão ereto que parecia amarrado
a uma estaca de ferro sobre o arreio. Cumprimentei-o com um buenas tardes, foi lacônico comigo:
– Buenas – e implantou um meteórico sorriso
na face pálida.
A rápida abertura da boca permitiu-me
entrever os dentes metálicos, cor prateada. Nem um pingo de esmalte. Sorriso de
aço. Senti arrepios. Quem usaria e abusaria de tanta esquisitice no corpo? E se
fosse um bandido? De mim não sobraria nem um mindinho para contar meu sumiço. Além
disso, a estranha figura bem poderia passar pelo demo: modelo perfeito,
personificação do tinhoso em muitos relatos. Pobre cavaleiro… Tratava-se
provavelmente de um fazendeiro retornando ao lar no fim do dia, e minha cabeça
o associava ao nem-sei-o-quê.
Minutos depois, enquanto examinava os espetaculares
mergulhos de rochas e depósitos de cinza vulcânica expostos nos cortes da
estrada, testemunhos de violento passado geológico que continua no presente, enxerguei um puma a cinquenta metros de distância. Animal imponente, onça acinzentada
pelo lusco-fusco, assustador. Farejamo-nos em reconhecimento mútuo, exalei o
pavor, estudou-me com interesse. Petrificado, tentei despistar a bambeira nas
pernas, a fraqueza que atrai o ataque do felino. Espichei o corpo, ergui os
braços, pus a mão na cintura, só faltei ameaçá-lo: “Qualé, gatinho, vai encarar?”.
Haviam-me alertado para a presença do bicho na área, matador sagaz. Ainda devia
estar digerindo a criança que comera na véspera. De barriga cheia, olhou-me
outra vez, atravessou a rodovia e sumiu, sem me dar a mínima. E eu dei no pé. Corri
até que, com o coração na mão, cheguei a Puyehué. Ir tão longe para acabar no
estômago de puma, onde se viu?
Na manhã seguinte, voltei ao vulcão Antillanca.
De carro.

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