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NATURE X NURTURE

 

 

Até que ponto o ser humano é dominado pelos genes ou pela cultura? Não consigo me livrar da questão, bem sintetizada, na língua inglesa, através da expressão nature x nurture. O assunto, campo minado, já foi debatido centenas de vezes em todas as mídias, contendores levantaram paixões e provas, princípios de toda a ordem foram brandidos, contra e a favor de cada corrente, ouviram-se ameaças semelhantes às que cercaram o sequenciamento de nosso genoma, por medo alguns varreram o imbróglio para debaixo do tapete. A dúvida permanece.

Minha aposta tem sido algo como sessenta por cento genética e quarenta por cento cultura. No entanto, descobertas da biologia parecem desmentir-me. Segundo alguns pesquisadores, cada vez mais ruidosos, na prática somos cem por cento resultado daquelas minúsculas cadeias de moléculas, com quilômetros de extensão, que se espremem dentro dos cromossomos.

Cadeia é uma boa palavra. Estaríamos presos aos genes. Não apenas a cor dos olhos, os cinco dedos do pé, o instinto de sobrevivência e o de reprodução, o diabetes, o câncer, a obesidade, o ataque cardíaco, mas também o egoísmo, a violência, a inteligência, a lei do mais forte, a preferência por certas comidas, o insucesso no amor resultariam de programação ancestral da qual ninguém escapa. Até a religiosidade. Há vários anos, neuropesquisadores sugeriram que Deus era fruto do lobo temporal do cérebro, ou melhor, a fé proviria da excitação de estruturas no interior da cabeça. Se devidamente estimuladas, essas regiões transformariam céticos em profetas apocalípticos que recebem mensagens diretamente do céu e mandam-nos arrepender dos pecados, pois o fim está próximo. Segundo os neuropsicólogos, muitos religiosos, oráculos, visionários e psicógrafos ao longo da história teriam sido doentes mentais sem diagnóstico. Inventou-se até uma especialidade para lidar com as consequências dessa descoberta: neuroteólogo. Teria a genética feito a luz?

Cultura ou genética? Ambas. Não sobreviveremos sem a identidade humana construída desde as cavernas, tampouco sem instinto, sem razão, sem inteligência, sem as mãos, sem sentimento, sem emoção, sem arte, sem respeito mútuo. Se hoje passamos de sete bilhões e não corremos o risco de extinção, nosso sucesso também se deve à cultura. Para melhor, ela se entranhou no dia a dia, tornou-se parte de nosso comportamento. Virou crucial fator evolutivo, meio lamarckista, é verdade, pois só com a prática continuada cria raízes profundas.

Otimista, antevejo a hora em que ela substituirá alguns imperativos genéticos, com frequência cruéis, antes caros à nossa sobrevivência Look At This. Romântico, acredito no futuro em que, libertos de velhas superstições, nossos sonhos de liberdade, fraternidade e igualdade se concretizarão. Realista, espero contarmos, para sempre, com a sagacidade do genoma.  Quanto tempo levará a fusão naturenurture? Trinta mil anos, prazo que demoramos para desenvolver nossa humanidade, é uma boa aposta. Quem viver verá.

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