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A BANALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA

O rompimento das barragens de Mariana acrescentará mais um capítulo à banalização da tragédia. Muitos morreram, centenas ficaram sem teto, a poluição já atinge o Espírito Santo, mas a catástrofe acabará como simples lembrança, acompanhada dos chavões de sempre: acidentes acontecem, poderia ter sido pior. As ações efetivas contra o risco serão, uma vez mais, adiadas ou esquecidas. O mesmo vale para o Sul brasileiro, onde as chuvas castigam e carregam sonhos. No Rio, ontem, a Linha Vermelha parou enquanto policiais e bandidos trocavam tiros sobre a cabeça dos motoristas, que se jogavam no asfalto em busca de proteção. Em Salvador, há algum tempo, durante uma greve da PM, aconteceram quase 200 homicídios. De tanto vermos a desgraça alheia, ficamos anestesiados, algo insensíveis. A tragédia não existe mais. Transformou-se em corriqueira contagem de corpos e de prejuízo financeiro. A tragédia virou estatística.

O problema não é exclusivo do Brasil. No Haiti, os milhares de desabrigados pelo terremoto transformaram-se em eventual pauta na televisão, nada mais. Ainda sofrem, mas o mundo os deixou de lado. Na África, a fome e a guerra dizimam milhares todos os dias, mas isso é um problema deles que, de vez em quando, chama nossa atenção. No Iraque, os corpos deixados pelos homens-bomba e carros-bomba se contam às dezenas, morticínio que, embora terrível, não se compara nem de longe ao provocado pelos invasores norte-americanos que, com suas armas e sua hipocrisia, mataram entre dez e vinte vezes mais civis iraquianos que Saddam Hussein em todo o seu sangrento governo. Outra tragédia: o dinheiro gasto na invasão do Iraque teria acabado, durante décadas, com a fome na Terra e recuperado os prejuízos trazidos por chuvas, secas e terremotos. Matar gente é melhor negócio que matar a fome.

Em qualquer canto do planeta, democrático ou não, a tragédia se banalizou e nós nos acostumamos. Hoje ela faz parte de nosso dia a dia, não mais nos afeta nem quando acontece ao vizinho. Diante desse quadro, logo um novo Stálin se levantará e, uma vez mais na História, proclamará com escárnio: uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes, mera estatística. Que não viremos estatística. A cada hora, a banalização da tragédia aperta o cerco a nosso redor.

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CONSUMISMO NÃO É MEIO DE VIDA

 

Vivemos a euforia do consumismo. “Consome ou morrerás” – é o primeiro mandamento da atualidade. Apesar da exaltação e dos bajuladores, prever o fim do consumismo não exige muita elucubração. Tomemos, por exemplo, o item mais básico, a comida. Nos Estados Unidos, por mais que os médicos alertem contra a ingestão de refeições exageradas, muitos devoram em torno quatro mil calorias por dia. Se adotarmos essa receita no mundo inteiro, sem considerar quão balofos ficaremos, isto é, se multiplicarmos essa overdose alimentar pela população global, vai faltar hambúrguer com batata frita para muita gente. E como.

Eis a primeira constatação: não existe vaca nem horta para uma radical democracia alimentar, mantidos os atuais volumes dos pratos dos ricos. Severos regimes de emagrecimento deverão ser aceitos pelos gorduchos setentrionais para que sobre um pouquinho mais para os esquálidos meridionais, contingente que excede um bilhão de pessoas, ora concentrados sobretudo na África.

Surge aqui um paradoxo: dobrar a produção mundial de alimentos exigiria investimento muito inferior ao injetado em bancos e empresas na crise de 2008 ou apenas um quinto do orçamento militar mundial em 2015, mas a comunidade internacional jamais se uniria em torno de tal meta. Afastar a fome não é prioridade. Portanto, a perder de vista, balofos e esquálidos reclamarão de sua incômoda condição.

Outra constatação: se o gasto de madeira ou de combustível fóssil nos países mais desenvolvidos for universalizado, coitada da Floresta Amazônica ou do petróleo. Pouco nos importamos com o desmatamento, quando escolhemos nossos móveis ou construímos nossas casas. Todos queremos encher o tanque, sem nos interessarmos pelo que resta de petróleo ou pelo tanto que polui. Outra questão, ainda mais importante, é a da água. A atual crise que o diga. Agimos qual o humorista no restaurante onde a garçonete informa que as tartarugas marinhas estão em extinção. “Tartaruga em extinção?”, espanta-se ele. “Pois então me traga duas ao ponto, bem depressa”.

A Terra ficou pequena para sustentar o consumismo. Poupar não é pecado, por mais que se marqueteie o contrário. O desperdício, sim, prejudica. Pelo bem ou pelo mal, seremos a última geração perdulária. Pelo bem ou pelo mal, opções serão feitas no futuro. Afinal, consumismo não é meio de vida.

 

Observação: esta crônica foi publicada originalmente em 1998.

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FUTUROLOGIA AO ALCANCE DE TODOS

     Não existe tarefa mais
ingrata do que adivinhar o futuro. Todos erramos. Mesmo a ficção científica,
apesar da boa vontade das gerações posteriores em dar crédito às previsões
antigas, erra quase sempre. Por exemplo, muita gente enxerga na nave Apollo uma
réplica da bala de canhão descrita por Júlio Verne em sua viagem à Lua. Um
simples exame descarta a semelhança.
     Os futurólogos,
entretanto, não se rendem. Afirmam que, se os desenhos são diferentes, os
projetistas da Nasa se inspiraram nas ideias do autor francês, o que nos
oferece um caminho para prever o futuro: basta imaginá-lo e obrigar a
posteridade a executá-lo.
     Para começar, viagens à
Lua são conjecturadas desde o tempo da Grécia antiga. Além disso, o futuro
prometido não se realiza nem em assuntos pertinentes à Terra. Em política, por
exemplo. Muita gente acreditou no Terceiro Reich e seus 1000 anos de domínio,
assim como a Rússia comunista se julgou o melhor regime do mundo, tão bom, tão
bom que seus dirigentes tentaram obrigar o Bolshoi a montar um balé para saudar
a qualidade do esterco socialista, superior à de qualquer outro. No Brasil,
desde minha infância, escuto que, no início do século 21, seríamos uma potência
mundial. O Obama confirmou. Esqueceu-se de dizer do quê. De corruptos, semianalfabetos, manipuladores do povo?  
     A futurologia ainda não
se emendou. Previsões continuam sendo feitas. Viagens a Marte em 2030, energia
limpa e barata em 2035, contato oficial com ETs em 2050, inteligência
artificial em 2060. Não mencionaram uma, mais provável: o apagão generalizado
dos satélites artificiais, gerando colapso total da internet, graças a uma
intensa atividade solar que poderia danificar a rede estratosférica mundial.
Vamos olhar o lado positivo, se isso acontecer: não haverá programas de domingo
à tarde na TV.
     Há previsões mais
esdrúxulas, como o local exato da morada de Deus, a se concretizar lá pelo ano
2050. Depois que evangélicos divulgaram que cientistas, ao furar a crosta
terrestre, escutaram os gritos do inferno, tudo é possível. Ouvi, também, que
Jesus em pessoa estará, em breve, trazendo dentes novos para os banguelas.
Parei de comprar dentifrício e cancelei o dentista.
     Nem a ONU escapou do
furor futurólogo. Marcou para 2010
a erradicação da miséria no planeta. Errou. Aposto 100
contra 1 que, daqui a cinquenta anos, teremos famintos no globo. Se eu perder,
e torço para isso, por favor cobrem de mim no cemitério. Eis uma previsão que
não falhará: na época, estarei comendo grama pela raiz, o que desmonta meu
raciocínio. A futurologia nunca erra nesse assunto. A longo prazo, todos
estaremos mortos.
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