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MARCIANOS NÃO PAGAM CONTAS

 

Não acredito na tão propalada objetividade da ciência, apesar do sucesso do método empírico. Indivíduos de carne o osso fazem as pesquisas, sentimentos os norteiam e, embora tentem ser isentos, crenças impregnam seu trabalho. Como impregnam… Os grupos também aderem, em bloco, a idéias preconcebidas. Segundo os estudiosos da mente, a emoção precede, estimula e guia a razão, e todos ficaríamos loucos caso tentássemos nos desvencilhar dos arroubos do temperamento. A razão pura é um sonho de verão, como ficou provado no famoso teorema de Gödel, o da Incompletude. Somos matematicamente impossíveis de entender o mundo. A não ser que saiamos deste Universo.

Por isso, a comunidade científica, como qualquer outra, pode aderir a inverdades. O certo de hoje com certeza não o será no futuro. A realidade muda com as pesquisas e a troca de paradigmas. Durante séculos, as melhores cabeças propalaram o geocentrismo, tese filosófica tornada dogma religioso e científico. A ideia era tão certa, tão verdadeira, que não admitia contestação. Quem duvidasse ia para a fogueira. Pouca gente duvidou.

Marte também ilustra quanto a subjetividade pode tomar conta dos adeptos da objetividade: a partir do século 19, o planeta transformou-se no maior exportador de alienígenas que, ainda hoje, reaparecem nas fotos da NASA. Outro sonho de verão. No entanto, há quem ainda não se tenha rendido às evidências. Aposto que, se uma rádio retransmitir o trote de Orson Welles de muitas décadas atrás, anunciando uma invasão marciana, teremos cartesianos correndo apavorados pelas ruas.

A lenda dos marcianos começou em 1877, quando o astrônomo italiano Schiaparelli enxergou canais artificiais na superfície do planeta. A fantasia logo conquistou defensores, sobretudo na comunidade científica norte-americana, a começar pelo seu líder, o competente Percival Lowell. Em março de 1901, a sisuda revista Scientific American admitia que “as fileiras dos que desacreditam nos canais diminui cada vez mais”. Note-se que, na época, alguns astrônomos, com os olhos no céu, mas os pés no chão, explicavam o suposto sistema de irrigação no Planeta Vermelho como meros acidentes geológicos ou resultado da baixa resolução dos telescópios. Essas ponderações de nada adiantaram. A maioria dos cientistas viu o que queria: marcianos inteligentes.

Se a objetividade é um sonho, a subjetividade tampouco traz a verdade. Quantos de nossos conflitos decorrem da opinião alheia transformada em fato ou empurrada pela nossa goela abaixo? Até que ponto estamos vendo coisas que nos convenceram a ver através de uma retórica convincente, digna dos melhores sofistas, ou através da manipulação? Como capturar a realidade – se é que existe uma – sem cometer engano?

Descobri tanta inverdade em circulação, tanto delírio no dia a dia, que decretei o fim da realidade. Se nada casa com nada, então nada existe. O real é uma ficção.Isso mesmo, uma ficção! Para comprovar minha tese, deixei de enxergar as contas, ou seja, parei de pagá-las. Que os marcianos as pagassem. Cortaram a luz, a água, o telefone, o cartão de crédito, meu nome foi para o cartório, tomaram meu computador, vão me despejar na semana que vem. Detesto credores. Eles derrubam meu argumento lógico, enterram minha filosofice, não engolem minha conversa, me dão um choque de realidade. Objetiva e subjetivamente, aqui neste quarto às escuras, com sede, fome e frio, não sei como sair dessa.

 

 

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O HOMEM QUE SE TRANSFORMOU NA HUMANIDADE

Michel de Montaigne (1533-1592) foi um filósofo com pegada de cronista – ou um cronista com espírito filosófico. Transformou-se na própria matéria de pesquisa, isto é, a partir dele mesmo generalizou a busca pelo substrato humano de todos nós. Inquirindo-se, ele nos revelou. Leitor de Platão, Aristóteles, Sêneca, Lucrécio, Cícero e Plutarco, entediou-se com a balbúrdia, as brigas e os protocolos que o cercavam. Depois da morte de seu grande amigo Étienne de la Boétie, foi atingido por uma longa crise de melancolia. Refugiou-se na torre de seu castelo para repensar a própria vida e o mundo.

No silêncio e isolamento de um quarto despojado, combateu anacrônicos paradigmas medievais, como o teocentrismo, apesar do risco que tais escritos traziam a seu pescoço. Na época, questionar a religião mandava muita gente para a forca ou a fogueira. Debruçado sobre si mesmo, Montaigne buscou um sentido para a existência quando a razão parecia ter sido trucidada pelo tumulto e pelas guerras entre católicos e protestantes. Perscrutou a amizade, a glória, a solidão, os prazeres, a volúpia, o medo, a companhia dos homens, das mulheres e dos livros, a vaidade, o domínio da vontade, a arte de conversar, a força da imaginação, o casamento. Escreveu detalhadamente sobre tudo isso. Também explorou os limites do conhecimento e o significado da filosofia e da morte. Assim nasceu a magnífica obra Ensaios, dividida em três Livros.

Arguto e astuto, ao falar das próprias dúvidas e incoerências, com frequência assumiu como suas muitas certezas e conclusões alheias com o objetivo de criticá-las, expondo suas falhas e inconsistências. Os elogios costumam conter demolidoras contestações, como no caso do mais longo dos ensaios, Apologia de Raymond Sebond, no qual, enquanto aparenta defender as ideias do sacerdote catalão Sebond, ele as refuta.

Ao levar o raciocínio às últimas consequências na indagação do que somos, chegou a conclusões que soam modernas, como a noção de que as pessoas e o mundo partilham idêntica unidade metafísica: tudo está intimamente ligado, é interdependente. Homens e animais possuem a mesma natureza básica, portanto não somos privilegiados generic for januvia. Como, então, dentro de nossa miopia e pequenez, conhecer a totalidade? O ser humano, medida dele mesmo, não se esconde da própria limitação e jamais escapa da vida, esse curto período durante o qual a consciência se manifesta. Assim, ele é continente e conteúdo da proposta filosófica, qual o quadro de M. C. Escher no qual o observador se reflete numa bola que engloba o universo. Nada existe, portanto, fora de nós. Nem Deus, que só vale porque foi feito a nosso modo.

O ceticismo de Montaigne prossegue. Incongruentes, antagônicos, confusos, todos nos mostramos estranhos, multiformes, incapazes de formular propostas definitivas: “a qualidade mais universal é a diversidade”. Não chegamos a valores intrínsecos, apenas emitimos opiniões, voláteis como as nuvens. A moralidade varia de acordo com o lugar e o tempo. As religiões são valores geralmente herdados, resultantes de tradições locais. Dizer que alguém é cristão ou muçulmano equivaleria a afirmar que uma pessoa é perigordina ou alemã. Nossas leis não são justas. Sua autoridade provém do fato de serem leis, pois não passam de “um autêntico testemunho da imbecilidade humana, tal o número de contradições e erros que carregam”. Se o filósofo as respeitava, era porque achava que devia, como bom cidadão, nunca em decorrência da razão e da consciência.

Como sustentava Montaigne esse edifício de pilares desencontrados? Da mesma maneira que nossa espécie manobra as múltiplas abordagens sobre a existência, oriundas de todos os quadrantes e hoje divulgadas ad nauseam pela mídia e pelos livros, conceitos de alcance restrito, cada vez mais restritos, a começar pelas limitações da ciência e da religião. O autor de Ensaios explora nossa incapacidade de gerar absolutos, válidos em qualquer tempo e espaço. Permanece, portanto, atual. Sabe lidar com a diversidade.

Suas divagações demonstram intuição, engenhosidade e, sobretudo, boa dose de humor e ironia, como ao falar do amor, do sexo ou das “ventosidades que o rabo produz”. O estilo mantém o texto fluente e saboroso, apesar de escrito na época da fundação da cidade de São Paulo. Ele afirma, com sua típica verve: “Tenho uma maneira de pensar que me isola dos outros, e, por outro lado, sou de uma ignorância pueril acerca do que todo mundo sabe. Esses defeitos me valeram uma reputação de bobo, que se assenta em cinco ou seis fatos reais”. Em outro trecho, alfineta os contemporâneos: “Aristarco dizia que só se haviam encontrado outrora sete sábios no mundo inteiro, e que em sua época fora difícil descobrir sete ignorantes; não teríamos mais razão do que ele para dizê-lo de nosso século?” A espécie humana tampouco escapa da jocosidade: “O homem é bem insensato; não saberia forjar um simples inseto e forja deuses às dúzias”.

Erra, no entanto, ao analisar o Brasil: “Dizem que no Brasil as pessoas só morrem de velhice, o que se atribui à pureza e à calma do ar que respiram, e que, a meu ver, provém antes da serenidade e da tranquilidade de suas almas isentas de paixões, de desgostos, de preocupações que excitam e contrariam. Ignorantes, iletrados, sem lei nem rei, nem religião alguma, sua vida desenvolve-se numa admirável simplicidade”. Soubesse ele do ar podre que, quatrocentos e trinta e cinco anos depois da primeira edição do Ensaios (1580), respiramos hoje no Brasil, de nossos desgostos e paixões, de nossas leis, governantes e religiões… No entanto, também acerta, já que as conclusões mudam com o tempo, tão cambiantes quanto as ideias. O que é verdade agora, não o será amanhã, assim como hoje não aceitamos um suposto jus primae noctis que os suseranos teriam imposto a seus vassalos na Idade Média, reservando-se o direito de dormir a primeira noite com as noivas nascidas em suas terras. Da mesma maneira, também rejeitamos as bulas papais dos séculos 15 e 16 que autorizaram ou confirmaram aos cristãos o direito de escravizar os pagãos, justificaram o comércio de africanos e a chacina de índios nas Américas. A este respeito, diz Montaigne no Livro III: “Quantas cidades arrasadas, quantos povos exterminados! Milhões de indivíduos trucidados (…) Nunca a ambição incitou a tal ponto os homens a tão horríveis e revoltantes ações!”

Michel de Montaigne, ao descrever a volatilidade humana, acaba por se contradizer, pois desemboca num absoluto: somos feitos da mesma matéria de inconstância e contradição. Há, portanto, algo de permanente em todos nós desde que o mundo é mundo. Enquanto nossas incongruências existirem, Ensaios permanecerá valiosa ferramenta na vã tentativa de nos entendermos.

 

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MODISMO NUNCA SAI DE MODA

Toda época possui paradigmas, ideias, conceitos e costumes julgados definitivos, tão óbvios para as pessoas que seriam evidentes por si mesmos. Examinados de perto, muitos desses truísmos não passam de modismo, isto é, culto a inverdades, balelas ou fábulas, não importa se na ciência, religião, arte, filosofia, dieta, beleza ou etiqueta. O tempo, inimigo de tudo, até do vinho que fatalmente se deteriora, combate-os sem trégua, apesar de alguns demonstrarem extraordinária longevidade. Mais ano, menos ano, contudo, chega o momento em que a venerada certeza, repetida através de gerações, se desmancha, e o futuro encara-a entre a complacência e o riso, enquanto desenvolve os próprios pseudotruísmos.

Exemplos? Apesar de hoje louvarmos a alopatia, por séculos a teoria do flogístico ou a dos humores prevaleceu no tratamento das doenças e, segundo relatos antigos, funcionou a contento. Júpiter, herdeiro de Zeus, mereceu altares, sacrifícios e orações mundo afora no auge de Roma, com idêntica taxa de eficiência dos deuses atuais. Quantos o adoram atualmente? Quem ainda acredita que a natureza seja feita de ar, fogo, terra e água como elementos constitutivos, sem menção aos átomos? Da relação de premiados com o Nobel de Literatura, dezenas de autores sucumbiram ao assédio das décadas. De nada lhes valeu a consagração máxima. Gordura em excesso, sinal de riqueza e saúde na Europa pós-colombiana, foi exibida com orgulho por reis e rainhas durante séculos. Quem, hoje em dia, acha bonita a obesidade? O Sol já girou ao redor da Terra com a força do dogma. Graças à ajuda dos papas, o geocentrismo imperou por mais de mil anos, queimou opositores na fogueira, obrigou Galileu a se desdizer, mas um dia virou pó. Muito da cosmologia moderna, com seus big bangs, inflações, universos paralelos, multiversos, buracos disso e daquilo, teorias de cordas e multidimensões merecerá, em breve, riso e esquecimento. Como todo ser humano, cientistas também acreditam nas próprias fantasias.

Com o tempo, quase tudo passa, desgasta-se ou mostra-se falso. Lord Keynes, o influente economista inglês, achava graça dessa constatação, pois, a longo prazo, todos estaremos mortos: o que importa para um cadáver? Humor à parte, o tempo não demonstra afeição alguma pelas coisas, corretamente concluiu Lucrécio, há mais de dois milênios, sem saber que prenunciava a Segunda Lei da Termodinâmica, pilar da ciência moderna. Mais cedo ou mais tarde, os modismos acabam na vala comum das épocas, enterrados ao lado de milhares de outras certezas efêmeras. Então partiremos para a invenção de novos modismos, tachando-os de definitivos. A gente nunca se emenda. Faz parte da vida.

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Uma poeta de ouro

           Preste
atenção na pronúncia deste belo, sonoro e complicado nome: [viˈswava ʂɨmˈbɔrska]. Vou repetir: [viˈswava ʂɨmˈbɔrska]. Seu nome de
batismo: Wislawa Szymborska. Era escritora polonesa, nascida em 1923, ganhou o
prêmio Nobel de Literatura de 1996 por sua poesia que, com precisão irônica,
traz à luz o contexto histórico e biológico da realidade humana. Além da
ironia, ela se vale de paradoxos, contradições e reticências para investir em seus
temas preferidos, como a filosofia e o relacionamento entre as pessoas.
          Seus
poemas, em geral, são realistas, sucintos, densos, alguns com dez versos
apenas. Nesse curto espaço, ela aborda dramas existenciais e éticos que
refletem a condição do indivíduo, bem como a da coletividade, sobretudo a da
Polônia atual. Daí a alcunha de “poeta filosófica” ou “poeta da consciência do
ser”. Carimbos difíceis que não condizem com a fluidez de sua obra.
          Seu
trabalho de introspecção e sabedoria não chega a trezentos poemas, tampouco
existia no Brasil tradução de sua obra até setembro de 2011, quando a coletânea
Poemas saiu pela Companhia das Letras.
Descubra este livro. Vale a pena.
          Para
lhe trazer um gostinho de Szymborska, traduzi de Um encontro inesperado:
          A gente se trata com cortesia demais,
          ano após ano repetimos como é bom
estarmos juntos.
          Nossos tigres bebem leite,
          nossos tubarões se afogaram,
          nossos pavões renunciaram ao leque de
penas,
          nós emudecemos no meio das frases,
          cheios de sorrisos e passado.
          Por nossa humanidade,
          nós dois desaprendemos a fala.
          Como
se vê, em poucos versos ela descreve a dura realidade de muitos
relacionamentos. Na verdade, Wislawa não precisa falar muito para
dar o recado. Daí seus 300 poemas apenas. Ela morreu em 2012. Nesta semana, ela
teria completado 93 anos. Ficou a boa lembrança.
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O QUE É A REALIDADE?

     O que é a
realidade? A pergunta intriga os seres humanos há milênios. A mesma realidade é
percebida por todos? O que eu vejo é aquilo que você vê? Houve quem afirmasse
que o real é aquilo que vislumbramos no sonho, e este momento que agora vivemos
é, na verdade, uma ilusão. Outros disseram que tudo é ilusão, é maya. Na raiz
da filosofia ocidental, o pensamento de Platão conjetura a existência de uma
realidade além do aqui, onde reside a perfeição, onde está o ideal.

     No século 20, a física quântica,
ao se defrontar com o problema da realidade, concluiu que ela depende de quem a
vê, isto é, depende do observador. Ora, a ciência não precisava de tanta
elucubração, de tantas equações para chegar a esta conclusão. Os escritores
sabem, desde sempre, que a realidade depende de quem a observa. Por isso,
narram sob diversos pontos de vista. Cada autor, cada personagem possui sua
realidade. Cada história cria uma realidade. A literatura, como um todo, é uma
expansão da realidade. Estranhamente, ela não passa de uma ficção. 
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