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A VIAGEM DE GOETHE PELA ITÁLIA

            Sempre
que um documentário ou telenovela focaliza a Itália e tanta gente sente vontade de
viajar à terra de Dante, lembro-me de outro grande poeta, o alemão Goethe, que,
logo após completar trinta e sete anos, percorreu o país, de Bolzano à Sicília.
Goethe legou-nos um suculento relato do que viu, ouviu, refletiu e aprendeu.
Mais que um ótimo livro de viagem, trata-se de um louvor à cultura e à
inteligência. Muita cultura e muita inteligência.
            Enquanto atravessa a península, o
futuro autor de Fausto fala da arte,
das festas, dos costumes, da paisagem, da história, de muita coisa que já se
perdeu, faz especulação científica, antecipa a evolução darwinista com ensaios
sobre uma planta primordial, a Urpflanze,
mãe de todas as outras, discute o trabalho de pintores, escultores, arquitetos,
poetas e analisa a própria escrita feita ao longo do périplo até a ponta da
bota.
            O livro Viagem à Itália 1786 a 1788 resume a Itália e a cabeça de Goethe,
gênio que por tudo se interessava. Com mente aberta, ele confessa que perdia a
fala ou chorava quando se emocionava, como ocorreu em Nápoles. Ali, depois de
repreender um rapaz que cantava muito desafinado, levou um puxão de orelha do
jovem, que, com o polegar em riste, lhe disse: “Perdão, senhor, mas esta é a
minha pátria”. Em outra ocasião, diante do viço de plantações bem adubadas,
comentou com ironia: “Esterco faz mais milagre que santo”.
Não suspendeu o roteiro nem depois de
quase ser preso, no lago de Garda, acusado de espionagem para a Alemanha. Hoje
em dia, as cidades à beira do lago mostram com orgulho os locais onde comeu,
dormiu, pintou, além de inventar histórias sobre sua breve passagem. Construíram até museus.
            Talvez a viagem tenha inspirado sua
obra maior, Fausto, pois ele admite
que, em Nápoles, o terrível e o belo se anulam para produzir indiferença, e o
napolitano seria outro homem, caso não se sentisse encurralado entre deus e
satanás.
            O país que
Goethe viu há mais de duzentos e vinte anos ficará, graças ao relato Viagem à Itália. No futuro, o livro
continuará servindo de guia e introdução a quem deseje conhecer a terra de
Dante, aliás, uma ótima pedida. Duplamente. Goethe também é sempre uma ótima
pedida. Nunca envelhece.     

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Dilema do Brasil: inventar ou imitar?

Ao final da tarde de vinte e dois de
setembro de 1786, na cidade italiana de Vicenza, reuniram-se cerca de
quinhentas pessoas para discutir o que havia trazido
maior proveito às belas artes, a invenção ou a imitação. Os defensores da
imitação venceram, pois, segundo uma testemunha ocular dos debates, “não
afirmaram senão o que a malta pensa, ou é capaz de pensar”. 
De repente, flagrei-me a pensar: o que
é melhor para o Brasil, inventar ou imitar? Na cultura, submetemo-nos com frequência
ao que vem de fora, copiando muita coisa supérflua e de mau gosto. Quem quiser
exemplos folheie as revistas e os jornais, ou veja a televisão. Até parece que a
inauguração de uma pracinha em
Nova York e o aniversário de um ator em Hollywood são efemérides
brasileiras, tamanho o espaço que ocupam. Isso é indigência cultural. Nessa toada, no dia em que a
cadelinha da Casa Branca ficar doente, teremos vigília, velas, promessas e
milhares de brasileiros cantando música cáuntri
 em prol da saúde canina. 
          O antigo
dilema, entra governo, sai governo, toma conta de Brasília: devemos importar ou
desenvolver tecnologia própria? Repisam-se os argumentos costumeiros: não se
deve reinventar a pólvora; é mais barato comprar know-how lá fora; nascemos, pela extensão climática e territorial, com
vocação para a agricultura; devemos deixar esse negócio de tecnologia para os
norte-americanos, chineses e japoneses, anos-luz à nossa frente. Existem, é claro, os
paladinos da autonomia, defenestrados pela eterna alegação: não temos dinheiro
– e tecnologia. E as decisões ficam para depois.
Em conseqüência, o fosso se alarga, e
sucumbimos ao subdesenvolvimento. Quando nada, possuímos setores de ponta que
pouco devem aos estrangeiros. Uma maneira de incentivá-los seria consumar o
casamento entre a universidade e a indústria. Em outras palavras, transformar a
pesquisa em patentes. Os
chineses oferecem um caminho adicional. Copiam para exportar, de olho no
exemplo anterior dos japoneses. Com o dinheiro arrecadado, desenvolvem as
próprias novidades. Com tanta cara de pau, acertaram na escolha.
Inventar ou imitar? A questão continua
aberta, porém Vicenza ainda pode lançar mais luz sobre ela. Em 1786, a cidade estava
decadente após o auge no século 16, quando a ousadia de criadores como Palladio
revolucionou sua arquitetura e a transformou em referência na Europa. Teria a
ausência de ímpeto e força motivado o resultado do debate?
Por falar em ímpeto e força, a
testemunha ocular citada foi Goethe. Em viagem pela Itália, ficou seduzido pela
cultura peninsular, a ponto de escrever duas obras ditas italianas, Ifigênia e Torquato Tasso, sem
contudo perder a identidade de autor. A história de Fausto tampouco é original. Alguém entretanto a separa de Goethe?
Seu gênio fez da imitação uma invenção, criando uma obra-prima.

          A
moeda, quando lançada, pode dar cara ou coroa. É preciso fazer a escolha, com
toda a informação disponível. Se inventarmos apostar na parada da moeda em pé,
aí sim teremos um problema. O Brasil ainda não sabe disso.

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