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A ESPADA DO TOUREIRO

De vez em quando, releio as conferências que Italo Calvino faria em Harvard. Nunca foram apresentadas por causa da súbita morte do autor, porém deram origem ao pequeno tesouro chamado Seis Propostas para o Próximo Milênio.

Calvino pretendia abordar nas palestras seis qualidades que considerava essenciais à boa literatura: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Não teve tempo para escrever sobre a consistência, acometido por letal hemorragia. Uma perda lastimável.

Uma dessas qualidades me chama a atenção: a multiplicidade. Num mundo em que buracos negros, big bangs, genomas, retrovírus, pedaladas, usufrutuários, neurônios, operações de swap e hedge, off-shores, ipos, ceos e paradigmas frequentam nossas casas com a assiduidade da internet, a literatura não pode deixar de refletir sobre esses temas. Multiplicidade é sinônimo de nossa diversidade. Nunca fomos tão diversos.

A literatura retrata o tempo em que é produzida. Para melhor fixar sua época, o escritor deve mergulhar até o pescoço nas crenças, crendices e fatos que o rodeiam, deve absorver o máximo possível do espírito e da ciência em voga, deve processar tudo e tentar transmitir a outras gerações sua visão de mundo. Precisa, portanto, tornar-se especialista em generalidade. Generalista é a vocação do autor de hoje. Tem que saber de tudo um pouco – ou muito, no caso de um Umberto Eco.

Nosso tempo é único, complexo, em rápida evolução, embora enquanto seres humanos continuemos os mesmos, com as mesmas buscas e necessidades básicas: amor, comida, curiosidade, procriação, solidariedade, felicidade. Como diz Calvino, o conhecimento nasce do embate entre a exatidão e a irracionalidade. Ou melhor, entre a matemática e o caos. A ordem e a desordem.

Assuntos que só com multiplicidade o escritor consegue vislumbrar. Sem ela, fala-se de tourada sem mencionar a espada.

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