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GUERRA DE TRAVESSEIROS

 

O grande segredo do escritor é manter o espírito jovem, curioso, destemido, que avança sobre o tempo como se ele durasse para sempre januvia 50 mg. Alguns resumem este segredo na fórmula Peter Pan: nunca cresça. Há limites. Estou muito contente com minha vida adulta, não quero regredir de maneira alguma. Detestaria usar fralda, chupar bico ou pedir autorização para sair de casa. No entanto…

No entanto, no mundo adulto há espaço para brincadeiras que a maior parte dos crescidos despreza. Sobretudo brincadeira com quem ainda não cresceu e, com todo o direito, vive a infância em toda a sua graça. É o caso de meus netos. Eles adoram uma luta de travesseiros. Eu também.

De vez em quando, eles se juntam e, não sei por quê, sempre me elegem a vítima do grupo. Caem sobre mim com a força dos braços, sem se pouparem, a ponto de, vez ou outra, voar penas ou flocos para os lados. E, ocasionalmente, um deles, atingido por um golpe certeiro.

Dia desses, num hotel, meus quatro netos mais velhos combinaram comigo uma guerra, enquanto os pais jantassem fora. Combinação em segredo, pois pais, se puderem, colocam empecilho em tudo. Sou pai, conheço o mecanismo. Como também sou avô, dou-me o direito de desligar o mecanismo, em nome da farra. Mais vale uma pequena lembrança que uma grande repressão.

Lutamos os cinco com tanto vigor que, lá pelas tantas, o apartamento do hotel virou algazarra. Depois que pegaram fogo, não adiantou avisar às crianças que excedíamos em barulho e pulos no chão. Alertei-os sobre o incômodo para os vizinhos. Que nada, a briga estava boa demais para arrefecer o ânimo. Nem um abajur lançado ao chão por má pontaria os fez mudar de ideia.

De repente, o telefone tocou. A recepcionista, muito delicada, informou que os hóspedes de cima, de baixo, da frente e dos lados pediam para encerrarmos a bagunça. Morri de vergonha, mas estava feito. Cedi a vitória por nocaute aos netos, e os coloquei para dormir.

Ao ver os quatro juntos, lado a lado numa cama de casal, em sono solto, leve sorriso nos lábios, senti uma enorme alegria: a lembrança da luta duraria muito mais entre eles que em mim. Eles me concederiam a eternidade, sua doce eternidade da infância, preservada pela memória. Como se o tempo durasse para sempre. E todas as guerras terminassem em tamanha paz.

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A ETERNIDADE, O POETA E O QUASAR

     A mente humana há muito se ocupa com a eternidade:
se existe, o que significa, qual o caminho até ela. As eternidades são muitas,
algumas bastante breves. Para diversos insetos, como as efeméridas que se
tornam adultas no quarto minguante, a Lua cheia talvez seja o exemplo acabado
do tempo infinito, pois morrerão antes do crescente. E para nós, o que é a
eternidade? Uma espera aborrecida de uma hora no ponto de ônibus no meio da
chuva, os dias que não passam entre um e outro encontro de amantes, um século,
um milhão de anos?
      O título desta crônica não esconde uma mensagem cifrada.
Li Po (701-762) é um grande poeta chinês da dinastia T’ang que conseguiu,
através da justaposição inspirada de ideogramas, a ambiguidade de vários poemas sobrepostos em cada um deles, todos merecedores de permanência na memória comum da
humanidade. Hoje, doze séculos após sua morte, ainda podemos captar seu estado
de espírito em meio à natureza que tanto amou, na vizinhança da montanha
Tai-t’ien:
“À margem do riacho, não escuto os sinos do
meio-dia.
Bambus selvagens retalham o firmamento.
Cascatas dependuram-se no abismo verde.
Ninguém sabe por onde você anda.
Triste, busco apoio no tronco de um pinheiro”.
     Seria Li Po eterno?
     OQ 172 designa um dos mais distantes objetos
celestes já detectados, um quasar nos confins do Universo, pertinho do Big Bang
onde tudo nasceu. Sua luz partiu quando não existiam seres humanos, tampouco a
Terra ou o Sol. A longa viagem avermelhou os fótons, enfraqueceu-os, tornou-os
quase imperceptíveis. Eles testemunham, entretanto, uma experiência que ainda
não compreendemos direito, a do espaço e do tempo condensados numa partícula
ínfima que, à semelhança de um poema de Li Po, fomenta múltiplas
interpretações. O quasar talvez não mais exista há bilhões de anos, porém só
agora tomamos conhecimento de sua longínqua presença. É como descobrir ainda
bebê um velho que já morreu.
      OQ 172 seria um símbolo do eterno?
      A eternidade não mora apenas na poesia ou na física,
mas em tudo que nos encanta. A aventura humana, apesar de curta em termos
cosmológicos, está cheia de exemplos. E a vida se torna mais prazerosa à medida
que penetramos nos meandros dessa aventura. Cada pessoa que nos precedeu legou
sua eternidade, e nossas próprias experiências construirão outras. Por que não
viver com gosto, o nosso e o alheio?
      Em outro poema, Li Po acompanha um amigo que se
afasta num barco:
“A sombra de sua vela solitária desvanece no vazio
Agora resta apenas o Grande Rio a caminho do céu”.
     
      Este Grande Rio talvez não consigamos entender durante
a vida, porém Li Po e OQ 172 são trechos dignos de percorrer, nos quais a arte
e a ciência – filhas gêmeas do gênio humano – nos ciceroneiam através de mundos
novos e, ao mesmo tempo, antigos. Melhor dizendo, mundos eternos. 
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Literatura pra quê?

      Por
que você lê? Lê porque quer se divertir, se entreter, passar o tempo? Talvez
buscar a beleza do texto, fruir a criatividade, estimular seu senso estético?
Você lê para adquirir informação, aumentar o conhecimento? Deseja, quem sabe,
trocar umas horas de seu dia pela sabedoria que um escritor levou a vida
inteira para adquirir? Ou é dos que gostam de viagens no tempo e no espaço, de
grandes fantasias, de enredos que percorrem o mundo inteiro, epopeias que
atravessam gerações, envolvendo a história de continentes e mares? Ou pertence
à tribo dos fãs do horror, dos vampiros, dos magos, dos que mudam a realidade
com o toque do poder sobrenatural? Talvez prefira contos, histórias curtas que
nos pegam pelo pé e pela cabeça, com finais muitas vezes surpreendentes? Ou
você adora poemas, esses voos da alma sintetizados, com frequência, num verso
genial que a gente nunca esquece?
          Não importa a sua preferência, há
sempre um livro que vai acertar em cheio no seu gosto, vai seduzi-lo, vai
encantá-lo. Você pode comprar, pedir emprestado a um amigo, retirar na
biblioteca, baixar no tablet ou no celular. O livro sempre está perto de você,
para lhe acrescentar alguma coisa. Tudo que exige é um pouco de tempo e de
atenção. Ele é o requinte maior que o ser humano desenvolveu, o fruto maior do
cérebro. Abraça o universo, traz nossa alma, sentimento, desejo, sonho.

          O livro
somos nós do jeito que viemos ao mundo, nus, deliciosamente humanos,
fragilmente mortais em todos os séculos, mas capazes de saborearmos um
pouquinho da eternidade. A eternidade fugaz de um livro diante dos olhos.  

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