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O CÃO DE GUARDA DE DARWIN

 

Há prazeres que acontecem de surpresa, na hora certa, na medida exata. Por exemplo, um livro ganho de presente com bom tema, bom autor, boa escrita. Resultado: boa leitura. A gente se aconchega numa cadeira, abre o primeiro capítulo, avança com gosto nas páginas. Somem o tempo e o espaço, autor e leitor fundem-se em prazerosa simbiose. Foi o que ocorreu comigo durante as chuvas do fim de semana. Ganhei o livro Escritos sobre Ciência e Religião, do inglês Thomas Henry Huxley, publicado pela Editora Unesp. Saborosa leitura.

Como o título indica, são ensaios sobre as relações entre ciência, religião e cultura, abordando a importância do conhecimento, da pesquisa, da abertura às descobertas, da honestidade intelectual, bem como questões variadas sobre o natural e o sobrenatural.

São três pequenas obras-primas da clareza, da concisão, da erudição. A primeira foi apresentada em Londres quando Huxley tinha 41 anos e causou tanta celeuma que trouxe a proibição de um famoso ciclo de palestras que acontecia na cidade aos domingos.

Se você estranhou que os ingleses estejam proibindo palestras sobre ciência e religião, saiba que estou falando de outros tempos. Huxley viveu entre 1825 e 1895, mas possuía mentalidade moderna, atual, evidentemente dados uns descontos aqui e ali. Graças a ele, sua garra e inteligência, a teoria da evolução de Darwin não foi defenestrada por religiosos e defensores da imutabilidade das espécies. Salvou-se por um triz. Huxley converteu-se num cão de guarda da seleção natural.

Além disso, ele também defendia com unhas e dentes o acesso irrestrito do povo à educação e ajudou a reformar o sistema de ensino inglês. Curiosamente algumas de suas idéias, sucesso por lá há um século e meio, agora começam a ser implantadas no Brasil.

Embora tenha morrido há mais de 100 anos, Huxley ainda nos fala com o entusiasmo e a lucidez que o marcaram. É o milagre do livro, da memória, da transmissão do conhecimento. É o milagre da surpresa que nos acontece na hora certa, na medida exata durante a chuva que levou a secura embora – e renova a virtude da lucidez intelectual.

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